Animais

Não é fácil se despedir dos animais de estimação

Reportagem de VEJA desta semana mostra que donos de bichos de estimação estão diante de um novo dilema ético e afetivo: sacrificar ou cuidar até o fim dos bichinhos enfraquecidos pelas doenças da velhice

Carolina Melo
Linfoma felino - Luciana e seu gato Vítor, paciente em estado terminal: “Não posso ser egoísta, se ele começar a sofrer muito, terei de optar pela eutanásia

Linfoma felino - Luciana e seu gato Vítor, paciente em estado terminal: “Não posso ser egoísta, se ele começar a sofrer muito, terei de optar pela eutanásia (Fotos: Claudio Gatti/VEJA)

Ninguém gosta de pensar no momento em que será obrigado a se desfazer de seu animal de estimação - mas não é fácil cuidar dele quando ele fica velho e doente. Muitas vezes, quando os males da idade causam sofrimento ao bichinho, impondo-lhe uma má qualidade de vida, o veterinário dá o temido conselho: o melhor é sacrificá-lo. A eutanásia em animais domésticos tem se tornado necessária e frequente porque eles vivem muito mais do que no passado. Antigamente, era raro um cãozinho ou gato viver tempo suficiente para sua velhice se tornar um problema. Hoje, isso é muito comum. Os avanços na medicina veterinária verificados na última década permitem que os animais domésticos tenham uma longevidade inédita na história. Repete-se, com eles, o mesmo fenômeno que ocorre com os humanos, também beneficiados pela medicina. Os cães podem chegar aos 18 anos e os gatos, aos 20. Isso é o dobro da média dos anos 80. O lado negativo desse aumento na longevidade é o surgimento de doenças próprias da idade avançada, como insuficiência renal, problemas cardíacos e câncer.

Alívio temporário - Teixeira e a mulher, Maria Estela, com a cadela Nanuche: "Já tínhamos optado pela eutanásia, mas ela se recuperou em parte"

Alívio temporário - Teixeira e a mulher, Maria Estela, com a cadela Nanuche: "Já tínhamos optado pela eutanásia, mas ela se recuperou em parte"

A aplicação frequente da eutanásia a cães e gatos fez com que, há seis meses, o Conselho Federal de Medicina Veterinária emitisse uma resolução complementar ao seu código de ética tratando do assunto. “As mudanças, no geral, indicam maior preocupação com o bem-estar dos animais”, diz o veterinário Marcelo Teixeira, membro do conselho e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pelo novo texto, foram classificados como inaceitáveis os métodos de eutanásia tradicionais, como submeter o animal a horas de aspiração de vapores de éter, o que lhe causa dores nos pulmões. A resolução recomenda, para o sacrifício do animal, métodos indolores como o uso de anestésicos, hoje o procedimento mais utilizado pelos veterinários. Os anestésicos são os mesmos usados em cirurgias, mas injetados em doses três vezes maiores. Quando o animal apaga, injeta-se cloreto de potássio, para estimular o coração a parar de funcionar. O animal não sente nada e morre de parada cardiorrespiratória entre 15 e 30 minutos após a aplicação do anestésico. O procedimento custa entre 300 e 600 reais, dependendo do tamanho do animal. Foi por meio de anestésicos que, há três meses, a consultora de moda paulistana Christina Kiraly sacrificou seu golden retriever George, de 14 anos. Após um ano lutando sem sucesso contra um câncer no fígado do cão, ela optou pela eutanásia. “Ele não era mais o mesmo”, relata. “Eu não conseguia assistir àquele sofrimento. Já conheci gente que prefere manter seu animal em agonia, mas eu não faria isso com o meu”, ela diz. Para aliviar a dor da perda, Christina guarda as cinzas de George numa urna.

VEJA desta semana

Quem, mesmo aconselhado pelos veterinários a realizar a eutanásia, prefere não sacrificar o amiguinho, deve se preparar para manter em casa um animal que requer tratamentos semelhantes aos utilizados em humanos, inclusive no preço cobrado por eles. A professora paulista Luciana Fernandez gastou 7 000 reais nos últimos dois meses para tratar de um linfoma que acometeu seu gato Vítor, de 10 anos. O animal foi tratado com quimioterapia, mas não teve boa resposta à medicação. Vítor é considerado um paciente em estado terminal, tem dificuldade para andar e precisa de medicamentos diários. “Prefiro acordar um dia e encontrá-lo morto a levá-lo a algum lugar para matá-lo”, ela diz. “Mas não posso ser egoísta, se ele começar a sofrer muito, terei de optar pela eutanásia”, completa. O advogado Lincon Teixeira e sua mulher, Maria Estela, desembolsaram 20 000 reais nos últimos sete meses para combater a insuficiência renal da cadela maltês Nanuche. O animal parou de comer, beber água e andar. “Já havíamos optado pela eutanásia se ela continuasse assim, porque ela estava sofrendo muito”, diz Estela. Nanuche se recuperou dos sintomas e seus donos acreditam que ela ainda tem qualidade de vida para seguir em frente. Há três anos o labrador Ring, da administradora Tatiana Hirakawa, ficou paralítico e se submeteu a uma cirurgia na coluna. Os veterinários a advertiram que, se ele não recuperasse os movimentos, o sacrifício seria a melhor opção. “Já gastei 15 000 reais em tratamentos e Ring recuperou, em parte, os movimentos”, ela conta.

Cirurgia na coluna - Tatiana e o labrador Ring, que ficou paralítico: 15 000 reais em tratamentos para evitar o sacrifício do animal

Cirurgia na coluna - Tatiana e o labrador Ring, que ficou paralítico: 15 000 reais em tratamentos para evitar o sacrifício do animal

A escritora americana Jessica Pierce, que há um ano sacrificou seu labrador, acaba de lançar nos Estados Unidos o livro The Last Walk (A Última Caminhada), em que aborda a eutanásia animal sob vários aspectos. Ela chama atenção para o fato de que muita gente sacrifica os animais porque simplesmente não tem paciência para cuidar deles quando velhos. Escreve Jessica: “A eutanásia de animais domésticos está profundamente enraizada na cultura americana, e raramente refletimos sobre as questões morais que ela envolve”. Nos Estados Unidos, 35% da população de 172 milhões de animais de estimação é considerada como paciente geriátrico. Isso abriu uma nova frente na medicina veterinária americana - os cuidados paliativos. Assim como é feito com os humanos, a medicina paliativa ameniza a dor e o sofrimento dos pacientes em estado terminal, até o momento da morte. Quando o sofrimento é incontornável e nem a medicina paliativa funciona, no entanto, o sacrifício pode ser a melhor solução para o amiguinho de longa data. 

Morte por injeção - Christina e a urna com as cinzas do golden retriever George:"Eu não conseguia mais assistir àquele sofrimento"

Morte por injeção - Christina e a urna com as cinzas do golden retriever George:"Eu não conseguia mais assistir àquele sofrimento"

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