BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
COLUNISTAS
Blog do vinho
Um registro do que acontece no mundo dos tintos e brancos

Roberto Gerosa, editor executivo de VEJA.com

OS MAIS COMENTADOS

LIVROS
Mais de 40 títulos para quem quer conhecer mais sobre vinho

MAPA DO VINHO
Os principais países, regiões, produtores e vinhos do mundo

O NOVO MAPA DO VINHO

BORGONHA

MAIS INFORMAÇÕES



UVAS
Brancas
Tintas

ABC DO BACO
Conheça os termos mais usados no mundo do vinho

ENTREVISTAS
Aubert de Villaine
Produtor da Borgonha (2007)
Eric Beaumard
Sommelier (2002)
Jancis Robinson
Crítica de vinhos (2008)
John Platter
Crítico de vinhos sul-africanos (2005)
Hugh Johnson
Crítico e escritor de vinhos (2007)
Robert Parker
Crítico de vinho (2003)

ÚLTIMOS POSTS
Vinhos suíços. Eles existem. E são bons
Surazo, um chileno que não tem pressa
Para que serve um decanter?
Vídeos & vinhos: lições no seu computador
Cortiça, sintética, vidro, alumínio. Várias maneiras de tampar um vinho

RSS
Receba as notas do Blog do vinho em seu computador


Blog do Vinho no

Acompanhe dicas extras
e as notas do blog

O que é

ARQUIVO

 
 21 de junho de 2009

ANDEI BEBENDO
Vinhos suíços. Eles existem. E são bons


“Na Itália, por trinta anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco.”
Orson Welles, em O Terceiro Homem

A frase acima dita pelo cineasta Orson Welles no filme O Terceiro Homem, baseado no livro do escritor inglês Graham Greene, já se tornou clássica, e quase obrigatória, quando o assunto é a Suíça. É imprecisa na informação – o relógio-cuco é uma invenção alemã – mas perfeita na tese que defende. Mas para fazer justiça a este pequeno país, no entanto, acho que é possível incluir os vinhos à modesta lista de contribuições dos helvéticos à humanidade.

A Suíça é uma nação-Berlitz, dividida pelas línguas francesa, alemã e italiana e formada por 26 cantões, como são chamadas as regiões do país. A parte francófona, no entanto, em especial a região de Valais, é a que produz os vinhos de melhor qualidade e de maior identidade. Dominada pelos Alpes e de clima ameno, a Suíça produz, para surpresa geral, mais vinhos tintos (55%) do que brancos (45%). E consome mais tintos também. E como consomem os tedescos! Mais de 40 litros de vinho por habitante. Descontando as crianças e abstêmios, faça os cálculos de quantas garrafas cabe a cada suíço. Além dos cerca de 140 milhões de garrafas de produção interna – quase toda consumida ali mesmo -, a sede é aplacada por outros 60% de fermentados importados.
 
Uma pequena fração da produção dos vinhos suíços é exportada. Quase uma concessão de um país – e de um povo - onde os problemas parecem que se esqueceram de existir. Por esta razão é muito provável que você já tenha provado um rótulo deste pequeno país da Europa. Eu nunca tinha. E de cara fui apresentado a treze garrafas da região de Valais. Os vinhos quando passam por uma prova não chegam sozinhos, eles carregam o histórico do degustador e suas preferências pessoais. Afinal, a comparação, um dos critérios de uma avaliação, só se faz com a construção de referências. E eu gostei do que passou pelo meu nariz e passeou pela minha boca. 

Trata-se da linha Maître de Chais, elaborados por uma enóloga, Madeleine Gay, cheia de medalhas no peito com prêmios conquistados nesta infinidade de concursos de tintos e brancos que se espalham pelo mundo. Esqueça um pouco as medalhas, isso não tem tanta relevância do ponto de vista do consumidor. Quem gosta de medalha é atleta e general. Mas nesse caso, parece que a qualidade foi premiada mesmo.

São rótulos de uvas nativas, aquelas espécies originais de cada país ou região. Foi um festival de nomes novos e sabores diferenciados (começou bem): fendant, petite arvine, heida, humagne blanche, pela ala dos brancos.  Humane rouge, diolinoir, cornalin e as internacionais syrah e pinot noir, para os tintos. Estas uvas têm história. Elas são produtos de um resgate genético recente, da década de 1990, que recuperou cepas de 3.000 anos passados, provavelmente cultivadas pelos romanos. Seja como for, a ciência deu uma mãozinha para a vinicultura suíça e aportou originalidade e variedade num mundo muito plano de cabernets e chardonnays.

Os vinhos


Os brancos me empolgaram mais. Toda a linha tem um perfil homogêneo, uma espécie de marca registrada: bom potencial aromático, busca pela intensidade e certa originalidade e elegância. É a mão do produtor e do enólogo que diz “olha eu aqui” em cada garrafa. Como não era um concurso, pude empatar minha preferência com dois rótulos de caráter distintos: Petit Arvine Fully AOC 2007 (R$ 88,00), e Humagne Blanche Du Valais AOC 2006 (R$ 88,00), ambas da Maître de Chais e com as uvas nativas explicitadas no rótulo. A primeira mais exuberante, rica em aromas cítricos e com um apelo mineral que me agrada, a segunda floral no início e com um amanteigado prolongado sedutor e fino (o bichão é fermentado em barris com as borras e a bebida, untuosa, passeia pela boca). Um terceiro branco merece uma consideração aqui. O Vielles Vignes 2004 (R$ 96,00): mais encorpado, complexo e gastronômico. O vinho é resultado da mistura das uvas marsanne, amigne, pinot blanc, heida. Mas os dois primeiros brancos me seduziram mais - e por menos dinheiro -, fator sempre importante em uma avaliação.

Dos tintos, dois rubros suíços me chamaram a atenção: o Syrah de Valais AOC 2006 (R$ 96,00), com boa concentração de boca e especiarias esperadas, algo ali na influência do Rhône, e o meu preferido, pena que mais caro, Domaine Evêché Valais AOC 2004 (R$ 116,00). A uva é a diolinoir, uma mistura das uvas rouge de diolly e pinot noir, que traz mais volume que uma pinot, dando aquela sensação de uma bebida mais encorpada, de cor escura e paladar de frutas mais negras misturada a um toque de especiarias e um final terroso.    

Mas devo confessar que só fui provar os tintos pois era esta minha penosa obrigação no momento. Eu parava ali nas taças dos brancos. Do envolvente humagne blanche, do sedutor petit arvine, e da elegante composição de marsanne, amigne, pinot blanc, heida, uvas que até pelo  som provocam curiosidade e têm apelo. Uma sequência com a originilidade de um Orson Welles e a precisão e a qualidade de um relógio-cuco suíço.

Quem traz e onde comprarVitis Vinífera 



Por Roberto Gerosa - 23:37 | Enviar Comentário | Ler Comentários (7)

 10 de junho de 2009

VINHOS
Surazo, um chileno que não tem pressa

Os vinhos sul-americanos costumam ser lançados assim que as uvas são esmagadas, fermentadas e jogadas para dentro da garrafa em forma líquida, certo? É a lei que rege o ciclo de vida destes vinhos de consumo imediato. Não para Don Emilio de Solminihac, proprietário e enólogo da vinícola chilena Santa Mônica. Seus rótulos, batizados no Brasil e na Inglaterra de Surazo, não rezam por esta cartilha. Eles descansam mais tempo na adega antes de serem lançados nas prateleiras. Tratam-se de brancos que não têm pressa e tintos que sabem aguardar seu melhor momento.

Surazo é o vento que corta os vinhedos da região do Vale do Rapel, onde está o Santa Monica. Ele  retarda o amadurecimento das uvas, aumentando a concentração do sabor e aroma dos vinhos. O nome  exibido no rótulo retrata a origem e o estilo da bebida.

Don Emilio Solminihac é o simpático senhor da foto acima, uma mistura do ator Jack Palance com traços do ex-presidente do período militar, Garrastazu Médici. A voz no entanto é pausada e suave, como se espera de douto com um título Don atrelado ao nome. Ele foi o primeiro sul-americano formado em enologia pela Universidade de Bordeaux, em 1952, e foi discípulo do pai de todos os enólogos, o francês Emile Peynaud. Solminihac carrega a tradição do velho mundo, onde o costume de aguardar os vinhos evoluir é uma escolha  natural. Ou era. Don Emílio sabe que o consumidor hoje em dia não tem paciência para aguardar o amadurecimento da bebida e é rápido no saca-rolha. Resolve o problema segurando ele mesmo seus vinhos na adega. Isso é uma raridade.

Os vinhos

A linha mais básica, o varietal Surazo Cabernet Sauvignon (R$ 35,00), pode muito bem entrar no panteão dos bons e baratos. Um degrau acima, o corte Surazo Reserva 5 Big Reds (R$ 46,00) – cabernet sauvignon (40%),  merlot (30%), carmenère (20%), syrah (5%) e malbec (5%) - é o chamado pau pra toda obra e vai bem com vários tipos de pratos: desce redondo (opa, isso não é cerveja?), é  macio e tem uma presença de fruta atraente e persistente na boca. Ambos são da safra de 2003. Veja bem, 2003 e não 2006, 2007...

Perguntado se a carmenère é uva símbolo chilena, Don Emílio relativiza: “É uma uva muito recente, ainda conheço pouco”. Ele dá preferência à merlot. “A carmenère é muito sensível, pede uma graduação alcoólica de no mínimo 14 graus”, explica. As uvas, a propósito, são colhidas a mão, o que facilita a seleção dos cachos de acordo com o estilo do vinho, dos mais ligeiros aos de qualidade superior.

Na linha de tintos de alta qualidade, o Gran Reserva Cabernet Sauvignon e Merlot (R$ 131,00) vem com ano de 2002 carimbado no rótulo. Antes de chegar na sua taça, o bicho ficou interagindo com uma barrica francesa por 18 meses o que conferiu uma boa concentração e estrutura parruda, além de uma amplitude de aromas bem diversificada, principalmente aqueles herdados da madeira (tostado, baunilha, defumado) e das frutas mais maduras. Até o branco da linha Surazo varietal, o Chardonnay (R$  35,00), não é um recém-nascido, como de praxe. É de 2006.

Mas emblemático mesmo desta filosofia é o Surazo Reserva Especial. A safra comercializada é de 1993 (R$ 68,00). Uau! Um tinto envelhecido em grandes barris, depois em madeiras menores, seguido de tanques de aço inoxidável e por fim hiberna na garrafa. É o rótulo mais antigo ainda em linha disponível no Chile. Bom, taí um estilo de vinho que merece passar por um decanter antes de abastecer sua taça. Mas depois de tudo que escrevi sobre este jarra metida à besta no post anterior, você não vai levar a recomendação a sério, não é?  
 
Quem traz: Importadora Porto Mediterrâneo



Por Roberto Gerosa - 18:47 | Enviar Comentário

 04 de junho de 2009

UTENSÍLIOS
Para que serve um decanter?


Um belo dia você, influenciado pelo papo do vendedor, compra um decanter. Ou ganha um. Sabe do que se trata, né? Aquele jarro de cristal (os mais sofisticados) ou de vidro que fica lindo nas prateleiras das lojas e às vezes chega em casa na forma de presente. Diante do objeto vem a pergunta. O que eu faço com isso? Há dois padrões de resposta:
 
O clássico
O decanter serve para arejar o vinho, amaciar os taninos e dar uma mãozinha no despertar dos aromas. A forma, bojuda na base e com um pescoço em forma de ampulheta na superfície, permite que o oxigênio faça a sua mágica. Como quase ninguém deixa a bebida descansar na taça, e já parte direto para o ataque, o decanter faz este trabalho, para a benção dos ansiosos e sedentos.

Os tintos mais concentrados, e antigos, ganham em profundidade e persistência. Até mesmo aqueles de safras recentes, elaborados para serem bebidos jovens, podem modificar um pouco nos aromas. Para os rótulos mais longevos é um utensílio que ajuda a separar as borras e sedimentos naturais da bebida. Ao despejar o precioso líquido no interior do jarro, estes elementos sobram depositados no fundo da garrafa.
A etiqueta e as enciclopédias do vinho recomendam um ritual para a separação das borras que exige um candelabro, uma vela acesa e certa destreza (ver foto abaixo). Muito bacana. Mas no mundo real, você já viu alguém conduzindo este processo fora das fotos dos livros?


 
O popular
É um objeto em busca de uma utilidade. Pouca gente usa um decanter em casa. Exige um planejamento, um ritual, que dificulta seu uso. E o ritual de desarrolhar o vinho na frente dos convidados, exibir o rótulo e derramar o néctar direto do gargalo para a taça é irresistível!

Mas é um presente bárbaro, não? Existem modelos dos mais variados formatos e preços. Certa vez, numa degustação com o senhor Riedel – o homem que reinventou as taças de vinho -, os caldos eram servidos em um decanter de pescoço alongado – parecia um ganso - que o somellier manuseava como uma destreza de malabarista. Todos ficaram admirados e, como se tratava de uma degustação séria, suspeitou-se que o formato transferia algum aroma especial ao vinho. Perguntado o que a forma trazia de vantagens, Riedel respondeu: “É só design, é mais bonito”.

Mil e uma utilidades
Para quem não sabe o que fazer com o decanter que está mofando no armário, aqui vão algumas sugestões que os enófilos sem senso de humor podem considerar uma heresia:

use como um belo vaso para flores (ver sugestão na foto de abertura, bacana, não?);
2  enfeite a cristaleira, principalmente se tiver um jogo variado. Vários modelos lado a lado fazem uma boa presença;
3  use a imaginação e transforme o decanter em um suporte para aqueles desenhos de areia colorida: a arte em garrafas;
4  desafie o amigo "entendido" de vinho. Funciona assim. Despeje um tinto argentino meia-boca na jarra e coloque ao lado uma garrafa de um rótulo mais caro e badalado. Sirva-o e observe a reação do sujeito. Aposto que será divertido

E você, usa o seu decanter? Tem outra sugestão para o equipamento? Escreva para cá!



Por Roberto Gerosa - 21:17 | Enviar Comentário | Ler Comentários (16)

 25 de maio de 2009

INTERNET
Vídeos & vinhos: lições no seu computador

Que tal aprender tudo sobre a uva cabernet sauvignon com a mais respeitada crítica de vinho, Jancis Robinson? Ou então fazer aquele tão desejado tour pelas principais regiões vinícolas da França em companhia do especialista Oz Clark? Quem procura orientação sobre rótulos pode contar com mais de 500 programas do geek do vinho, Gary Vaynerchuk, e seus longos e tresloucados programas de degustação virtual ou então seguir a inusitada Susan Sterling, que, minimalista, resolve em um minuto a descrição do vinho e despida de preconceitos, e de roupas, sugere, mais do que mostra, uma sensualidade da bebida. Os programas são para o mercado americano, mas com a distribuição globalizada, muito do que se comenta ali é encontrado aqui.

Você vai aproveitar melhor, se o seu inglês estiver afiado. Mas vai se divertir e aprender se perder alguma coisa no meio da transmissão. Até por que, há sempre o recurso de parar e voltar ao ponto que não compreendeu direito, ir atrás do dicionário e voltar a navegar.


Jancis Robinson home page Wine Course

A mais famosa dama do mundo do vinho ensina tudo sobre as uvas cabernet sauvignon, chardonnay, sauvignon blanc e syrah. Por enquanto, são quatro episódios extraídos de seu DVD original, com uma produção caprichada, didática e recheada de referências e entrevistas com craques das uvas que viram vinho. Como ensina Jancis, entender as principais uvas faz o vinho ganhar sentido. Talvez o que há de melhor em qualidade e conteúdo sobre a bebida na rede.

Cabernet Sauvignon, parte I, por Jancis Robinson

Canal dos vídeos de Jancis no Youtube

 

Oz and James's Big Wine Adventure

Esta divertida série da BBC poderia ser definida como um confronto de um especialista e um bebedor ocasional. O especialista é o conceituado crítico Oz Clark que tenta neste roadmovie de Baco transformar um beberão meio xucro, James May, em um conneiseur de vinhos. Por três semanas eles passeiam pelos principais vinhedos da França e entre uma rusga e outra provam magníficos rótulos, conhecem vinhedos esplêndidos e conversam com produtores de várias regiões. Oz Clark degusta, James May entorna. Quem assiste se diverte e aprende sem perceber.

Em uma das cenas mais divertidas, no capítulo que percorrem a região de Champgne, um indignado James adverte a um atônito proprietário da Maison Krug que as garrafas empoeiradas de 1964 da adega deveriam ser abertas para "alegrar uma festa e ajudar as pessoas a fazer sexo". E completa "Elas estão desesperadas para serem bebidas." James May não sai da experiência um especialista, mas muda de patamar. Oz Clark aprende um pouco de carros, a especialidade de May, e sobre a convivência com os contrários.

Oz Clark e James May, primeira parte. O Vale do Rhone

Site oficial do programa

 

Wine Library, com Gary Vaynerchuk

O degustador pop e fenômeno da web, Gary Vaynerchuk, parece que está ligado o tempo inteiro em um acelerador de partículas nucleares. Não é fácil acompanhar seu raciocínio. Mas as garrafas ficam ali à mostra para facilitar o entendimento. São 15 minutos de informação concentradas - o sujeito é uma metralhadora giratória, dispara informações que um ser humano normal não conseguiria expor no período enquanto degusta um vinho. Apesar de seu público ser americano, Gary tem certa implicância com as escolhas do megacrítico Robert Parker, o saco de pancadas dos enófilos críticos de plantão, o que torna as indicações mais divertidas ainda e dão certo ar militante ao programa.

Sea Smoke Pinot Noir, por Gary Vaynerchuk

Canal do programa Wine Library

 

The Naked Wine Show, com Susan Sterling

Se 15 ou 20 minutos de descrição de um vinho é demais para a cabeça - e o palato -, uma opção mais direta ao ponto é o programa da canadense Susan Sterling. Em vídeos de cerca de 1 minuto, publicado em seu blog e distribuído também pelas redes sociais MySpace e FaceBook (quem mora nos Estados Unidos e Canadá pode ainda baixar pelo Ipod), Susan prova e descreve as principais características do vinho de maneira rápida e clara. Um toque malandro justifica o título do "show". A apresentadora numa estratégia que mais esconde do que mostra, simula estar provando os vinhos de dorso nu. Abaixo das telas um texto destaca as principais falas da apresentadora

Naked Wine Show 1038 - Caliterra Tributo Carmenère

 

Alexandra Corvo

Para não me acusarem de americanizado, ou anglófilo, vai uma ótima opção para os monoglotas. A somellière Alexandra Corvo gravou estes dois programas para o Portal Veja S. Paulo quando eu editava a área de vinhos de lá. São dois vídeos básicos de como degustar e a diferença entre as taças. São temas que sempre despertam interesse e dúvidas nos leitores.

Como degustar, por Alexandra Corvo

 

Os vários tipos de taça, por Alexandra Corvo

 

Wine and Food Tube

Por fim, se você se interessou por estes vídeos, e quer organizar sua busca por novidades postadas no Youtube, uma boa dica é acessar esta comunidade de vídeos de amantes de comida e de vinho. Além de se atualizar com os mais recentes programas, a página indexa ou vídeos pessoais postados no Youtube para aqueles usuários que se cadastram no site.

Wine and Food Tube - página principal

 



Por Roberto Gerosa - 19:49 | Enviar Comentário | Ler Comentários (7)

 22 de maio de 2009

ROLHAS
Cortiça, sintética, vidro, alumínio. Várias maneiras de tampar um vinho


Continuando sobre o tema rolhas. Incrível como um simples artefato usado para tampar uma garrafa pode gerar tanto interesse. Há muita literatura a respeito, registros históricos e um livro respeitável dedicado ao tema: To Cork or Not To Cork: Tradition, Romance, Science, and the Battle for the Wine Bottle (algo como Arrolhar ou Não Arrolhar: Tradição, Romance, Ciência e a Batalha pela Garrafa de Vinho), de George M. Talber, o mesmo autor do célebre O Julgamento de Paris. A preocupação se espalha nos fóruns e sites de vinho.

Mas a discussão faz sentido, pelo menos para quem é chegado em uma dose de rubros e brancos. Até se descobrir um método eficaz de selar, e conservar, o vinho dentro da garrafa, muito vinagre rolou goela abaixo dos nossos antepassados. Quando não existia a vedação da rolha, um dos métodos utilizados era preencher a garrafa com óleo, para evitar o contato do vinho com o ar. Diz a lenda que o primeiro gole servia para evitar que o óleo fosse despejado na taça dos convivas e não com o propósito atual, de provar a bebida. Há registros de que os romanos já conheciam a cortiça, mas ela de fato começou a ser usada lá pelo século XVIII e encontrou seu par perfeito na garrafa de vidro. A esta dupla devemos a conservação e distribuição da bebida pelo mundo e pelo tempo.

O problema é o oxigênio,  estúpido!

Um dos maiores inimigos do vinho, como se sabe, é o oxigênio. Se você não sabe, experimente deixar aberta e destampada uma garrafa por vários dias, ou então prove um vinho com a rolha mal acondicionada, para checar o resultado. É só aquele aroma de papelão molhado e de ácido acético fluindo  pela garrafa. Aí não tem jeito. Até mesmo o rótulo de100 pontos do Parker terá como destino, no máximo, o molho da salada. Ninguém merece. Por isso mesmo a humanidade vem tentando resolver a questão desde que começou a produzir mais vinho do que a sua capacidade de consumir.

A rolha é o leão-de-chácara do fermentado. Impede a entrada do oxigênio – ou libera de maneira tão espartana que ao invés de condená-lo, pode enriquecê-lo por um processo conhecido como micro oxigenação – e mantém o precioso líquido preservado até o momento de ser degustado. Na maioria das vezes esta decisão é ligeira: a garrafa sai da prateleira direto para a taça. Em casos raros, descansa na adega, e a bebida evolui com o tempo e se afina até ser desarrolhada.

Cortiça, sobreiro e Portugal

A cortiça, em seus mais variados extratos, é a solução mais conhecida, tradicional e charmosa para selar o vinho. A cortiça é um produto natural. É extraída da casca de uma árvore, o sobreiro, que atende nas universidades pelo nome científico de Quercus Súber. A casca do tronco só pode ser extraída a partir dos 30 anos de vida da planta e, depois disso, a cada 9 anos, o que não chega a ser um assombro para uma espécie que pode atravessar várias gerações em seus 200 possíveis anos de vida. Os portugueses, com sua enorme plantação de sobreiro, concentrada na região do Alentejo, podem ser considerados como os artesãos do enclausuramento da bebida. São lusitanas as cortiças mais resistentes, longas e festejadas. O país produz 51% das cortiças no mundo, seguido de Espanha (26%), Marrocos (6%) e Argélia (5%).

As rolhas de cortiça têm as mais variadas classificações, da mais simples, de compensado de cortiça, passando por aquelas que misturam o  compensado numa extremidade e um material melhor na outra, que fica em contato com vinho, até aquelas mais sofisticadas e maciças, reservadas para os grandes vinhos de guarda. Aos defensores das rolhas de cortiça, um argumento, que também fica na esfera da cultura inútil. O material tem uma enorme capacidade de elasticidade: comprime 40% e descomprime mais do que 85% em segundos! Se não fosse assim, como a rolha do champanhe se descolaria da garrafa e entraria em órbita tão rápido?

O tal do TCA

Com o tempo a indústria foi buscando alternativas à dispendiosa e finita cortiça. Até por que a cortiça é guardiã e, muitas vezes, a vilã da história. A  contaminação de TCA -  o fungo que ataca os tampos de cortiça -, é o calcanhar de Aquiles das rolhas tradicionais. O bichinho é o responsável pelo desagradável aroma de papelão molhado, o tão falado bouchonée que os narizes mais sensíveis detectam de longe. É uma situação curiosa que transforma toda abertura de uma garrafa em uma loteria. O enólogo Michel Rolland, assim como muita gente ligada ao vinho, defende o uso de tampas alternativas. Não sei de onde vem esta estatística, mas é repetido por aí que pelo menos de 5 a 6% das garrafas com rolha de cortiça  apresentam problemas de TCA. Para Rolland, isso não pode ser considerado normal. “Você aceitaria comprar um celular sabendo de antemão que talvez 5% dos aparelhos não funcionam?”, argumenta ele. A lógica é indefensável.

Não é só de cortiça que é feita a rolha

Conheça outras alternativas à cortiça que existem no mercado:

rolha sintética – maldita rolha sintética. É aquele material meio emborrachado, meio látex que costuma ficar engastalhado no saca-rolha depois de retirado da garrafa. Mas é eficiente no seu propósito básico. Preservar o vinho intacto no interior da garrafa. E não transmite a contaminação do TCA. Mas atenção verdes bebedores de vinho, o material não é biodegradável como a cortiça.

rosca (screw cap) – muita gente torce o nariz, mas a tampa de rosca é comprovadamente eficiente, prática e resolve a vida, imagino, de 90% dos vinhos produzidos pelo mundo. É aquela cápsula que se abre girando em rotação invertida a tampa do vinho. E melhor, também não passa para o vinho problemas típicos da rolha que causam (muitos desavisados tratam de enfiar o saca-rolhas neste tipo de tampa antes de perceber o tipo de material. Confesso que já cometi tal atrocidade).

vidro - fabricada pela Alcoa, é conhecida como Vino Seal nos Estados Unidos e Vino Lock na Europa. São mais caras, e mais raras. Eu nunca topei com uma delas. Mas estão por aí.

maestro - esta é a novidade tratada no post anterior. Uma rolha constituída de plástico reciclável e alumínio e com uma espécie de alavanca que permite abrir um espumante de forma segura. Foi desenvolvida pela multinacional Alcan. Algo na linha de um screw cap adaptado para os espumantes.

Pois bem, as opções existem. Outras devem surgir. Talvez a única coisa chata é para aquelas pessoas que enchem vasos de vidro com as cortiças, um costume que é mais um lance exibicionista (“olha só quanto eu já bebi!”) do que um item de colecionador. Ninguém vai querer juntar tampinhas de alumínio ou rolhas pretas sintéticas e exibir na sala em um vaso imenso, né não?

Ok, a substituição da cortiça ainda é terreno minado. Muito produtor ainda tem receio de perder mercado com o preconceito do consumidor. E com razão. Muito bebedor fica de nariz empinado quando um garçom ou vendedor oferece um vinho com tampa de rosca ou sintética. Bobagem. Tome tenência, rapaz! O vinho pode ser tão bom – ou melhor – que aquele selado com uma rolha de cortiça! Experimente, você não vai se arrepender.



Por Roberto Gerosa - 19:28 | Enviar Comentário | Ler Comentários (4)

 18 de maio de 2009

ROLHAS
Um instante, maestro!

Muita gente tem um certo receio de abrir uma garrafa de espumante. Há sempre o perigo iminente de a garrafa virar uma arma. Às vezes a pressão interna é tanta que, mesmo cercado de cuidados, a rolha se transforma em um projétil, causando estragos à sua volta.

A maneira correta de desarrolhar o champanhe faz até parte do currículo dos cursos de vinho por aí. Aquele ritual de abrir a gaiola de arame, segurar firme o corpo da garrafa e ir afrouxando com cuidado a cortiça até provocar o estampido seco que sinaliza o momento mágico em que a rolha se separa enfim do gargalo e libera a espuma de dentro da garrafa.

Esta batalha com a rolha é um desafio para você na hora de abrir seu champanhe? Seus problemas se acabaram! Uma nova cápsula anunciada na França promete revolucionar a vedação e a posterior abertura dos espumantes. A traquitana, desenvolvida pela multinacional Alcan, atende pelo nome de maestro e é produzida com plástico reciclável e alumínio. A Alcan investiu três anos de pesquisa e 1 milhão de euros até chegar ao formato atual. O mercado potencial, no entanto, é atraente: só em Champagne são 332 milhões de garrafas por ano.

Como funciona o maestro
É uma espécie de screw cap dotada de um mecanismo com uma alavanca, o mesmo princípio usado nas latas de cerveja, que permite a abertura rápida e segura da tampa. Simples assim, você puxa a alavanca e libera as borbulhas. É o fim da rolha subindo como um foguete. Mas o estampido seco - tóf! -, resultado da liberação da pressão do interior da garrafa, continua presente. "Ainda há a música, mas não há o perigo", explica o diretor de exportação da Maison Duval-Leroy, Roger Begault, que ainda decretou: a "rolha será abandonada".

A Duval-Leroy é considerada uma das 15 top Maison da região de Champagne. Localizada no coração da Cote des Blancs, com 200 hectares de vinhedos plantados em sua maioria com a uva chardonnay, a Duval-Leroy tem tampinha de criança, mas corpinho de 150 anos registrados na carteira de identidade.

A parceria da Duval-Leroy com a Alcan é uma aposta na inovação e mostra um caminho para o mundo das rolhas. Será que vai pegar?
Curioso? Assista o vídeo abaixo

Site da Alcan explica a nova cápsula

Duvay Leroy - site oficial



Por Roberto Gerosa - 18:42 | Enviar Comentário | Ler Comentários (8)

 13 de maio de 2009

TOP TEN EXPOVINIS
Gosto: o meu e o dos outros


Alguns leitores insistiram, na área de comentários, que divulgasse os vinhos que ficaram em segundo e terceiro lugares no pódio do Top Ten da Expovinis 2009. Bom, em um país que segundo lugar é maldição chega até surpreender este interesse. O colunista Augusto Nunes pinçou recentemente uma ótima definição do piloto Nelson Piquet sobre a praga do vice: “Brasileiro acha que o segundo lugar é o primeiro dos últimos”.

Mas os organizadores da feira não divulgam a lista completa com a classificação geral, nem dos rótulos que quase chegaram lá. É um critério da Expovinis e faz todo sentido, pois a eleição é claramente dos Top Ten e não dos vice Top Ten.

O resultado, como só podia ser, é a soma das notas de cada jurado. Então, como não tem segundos e terceiros lugares oficiais, achei que podia oferecer um serviço ao incauto leitor que persegue esta coluna ao revelar os vinhos que coloquei nas três primeiras posições do pódio.

Atenção então, a tabela abaixo não é uma radiografia oficial, mas sim uma escolha pessoal. No mínimo é curioso, pois expõe meus erros e acertos. E ainda é possível comparar o meu paladar ao dos outros. Trata-se, claro, de comparar o intangível, que é o meu gosto - minha experiência pessoal e referências - com o gosto dos outros jurados e mostrar onde o geral coincidiu com o particular.
(Os 10 vinhos eleitos pelo Top Ten estão destacados com uma faixa cinza na tabela.)




Aguardo seus comentários e críticas.



Por Roberto Gerosa - 22:15 | Enviar Comentário | Ler Comentários (6)

 08 de maio de 2009

EVENTO
Vale a pena ir às feiras de vinho?


Acabou mais uma Expovinis, a feira internacional de vinhos. Ufa! Dia 18, 19 e 20 de maio, no Rio e São Paulo tem outro evento, agora de uma grande importadora, a Vinci. Oba!

O esquema destes eventos é sempre parecido e pode ser resumido em uma imagem. Uma enorme oferta de garrafas das mais variadas qualidades e uvas e um único fígado para processá-las. Você prova um espumante, pula para um barolo que tinha muita curiosidade em conhecer, logo em seguida dá um gole em um riesling intenso e fino, e na próxima mesa não resiste a um Porto Tawny 40 anos e está pronto para enfrentar a próxima parada: um sauvignon blanc leve e aromático...

É isso que o bebedor mais refinado de tintos e brancos procura? Um container de vinhos, uma sequência esquizofrênica e sem comida para harmonizar?

Acho que não, né minha gente? Vai contra toda convenção estabelecida pelos enófilos mais empertigados, aquela  que recomenda uma sequência apropriada de espumantes, brancos, tintos e fortificados, o consumo moderado e por fim a parceria ideal do nobre fermentado com um prato de comida. Por isso tanta gente, no intervalo entre uma e outra feira, se pergunta: vale a pena participar de um evento desses? Ficar disputando uma taça de vinho, beber de pé, só para participar de uma maratona de cabernets, chardonnays e seus agregados?

Mas as convenções estão aí para serem derrubadas. E muita gente coloca os pés, o nariz e a boca fora de uma feira agendando o próximo evento. Afinal, que outro local é possível experimentar tanta variedade por um preço fixo? Ou então provar lançamentos, conversar com enólogos e produtores e ficar sabendo que o terroir daquele Romanné Saint Vivant que você acaba de provar está a apenas 200 metros do mítico La Tache? Ou ainda, onde mais é possível comentar com o colega ao lado, que você nunca viu mais tinto, que o Bordeaux na taça lembra aromas de mirtillo sem provocar uma gargalhada no sujeito ou a pergunta: “O que raios é mirtillo?”

Eu, por exemplo, me divirto. Tento manter um roteiro. Por exemplo: ataco primeiro os brancos, ou me concentro nos brasileiros, ou mesmo só nos tintos do velho do mundo. Claro, sempre entra um contrabando no meio e, no final, o paladar fica meio confuso. Outro risco é uma derrapada a mais na dose, o que pode levar até o mais experiente degustador chamar um toscano de tokay.

Goles curtos, pensamentos longos
Nesta Expovinis 2009, por exemplo, concentrei meus goles em tintos, brancos e espumantes nacionais, algumas novidades da Austrália, do Chile e da Alemanha e arrematei o dia com um Borgonha sem importador e um instigante rosé ainda do tanque do Marco Danielle 

Fiquei com boa impressão da linha Gran Reserva da Concha y Toro, em especial o cabernet sauvignon e o chardonnay (segundo os produtores ficam entre a linha Trio e Marquês da Casa Concha); do branco Virtude da Salton, fresco, madeira bem integrada, intenso; do Gamay da Miolo, que havia comentado aqui sem provar e entregou o que prometeu: descomprometido mas bem-feito (aliás recebeu elogios do produtor e negociante da Borgonha, Albéric Pichot, no dia seguinte); do espumante rosé de Santa Catarina da Cave Pericó, curiosamente elaborado com as uvas cabernet sauvignon e merlot, com bom ataque de aroma e belo frescor e finalmente do peso-pesado John Duvall, da Austrália, mais especificamente de Barossa Valley, que jogou toda sua experiência adquirida no comando da Penfolds em rótulos próprios que são de beber - e pagar - de joelhos. São eles Entity, Plexus e Eligo. Não cuspi.

O restante do tempo passei conversando, aprendendo, trocando informações. Principalmente trocando informações. O melhor das feiras é encontrar os amigos. Com uma taça na mão, claro.

Quando é a próxima feira mesmo? Nos vemos lá?



Por Roberto Gerosa - 22:36 | Enviar Comentário | Ler Comentários (7)

 06 de maio de 2009

TOP TEN EXPOVINIS 2009
Os 10 melhores vinhos da feira – e como foram julgados


Foi divulgada a relação dos 10 melhores vinhos da Expovinis 2009, a megafeira dos tintos, brancos, espumantes e agregados que está na sua 13º edição em São Paulo. São os dez melhores vinhos do evento? Bem, não é bem assim. Como em toda degustação, tratam-se das10 melhores garrafas provadas em determinado dia, segundo o gosto e avaliação de um grupo de pessoas. É uma boa referência? É. São de fato os dez melhores vinhos da feira? Não. É do jogo. Participa quem quer, se exibe quem fatura. Mas que todo mundo gosta de saber o resultado, de conhecer o vinho e, no caso dos finalistas, de ganhar, não resta dúvida. Humano, demasiadamente humano.

Funciona assim. No fim de semana anterior à feira, que acontece nos dias 5, 6 e 7 de maio, treze respeitáveis senhores ficam confinados numa sala e degustam às cegas – sem saber o rótulo – os vinhos que são enviados pelas importadoras e produtoras (eles só podem enviar três garrafas no total). Os vinhos são divididos em uma dezena de categorias: espumante nacional, espumante importado, sauvignon blanc, chardonnay, outras uvas brancas, rosados, tintos nacionais, tintos novo mundo, tintos velho mundo, fortificados e doces. As garrafas são ensacadas, numeradas e avaliadas. As notas de cada jurado são somadas e os melhores em cada categoria levam a medalha no peito e saem anunciando por aí. Não é pouca coisa.

Uma boa alteração deste ano foi a separação dos espumantes nas categorias verde-amarelo e importados - a disputa era muito injusta quando se enfrentavam no mesmo painel um champagne grand cru e um espumante nacional, por melhor que fosse ele. A organização também superou a de outros anos. A coisa vai se profissionalizando.

O processo é todo feito com a maior lisura, não se sabe qual vinho está se bebendo nem antes, nem durante muito menos depois de terminada a prova. Os jurados recebem o resultado e a lista dos rótulo no primeiro dia da feira. Os erros e acertos da seleção final são de total responsabilidade destes abnegados senhores que passaram o sábado e domingo de feriado provando e cuspindo vinho. É aquele ritual esquisito de sempre, para quem não está habituado. O garçom vem, traz a taça com a bebida, a gente olha a cor, balança a taça, enfia o nariz, dá uma cafungada, coloca um gole na boca, aspira um pouco de ar, deixa o líquido percorrer as papilas gustativas e finalmente... cospe o vinho.

Imagine esta cena realizada exatas 179 vezes. É pedreira. Se ingeridas todas as amostras o resultado seria uma coma alcoólica. Justo? Do ponto de vista do produtor, imagino que seja um julgamento expresso, que pune ou premia em alguns segundos o trabalho que durou sei lá quanto tempo do lado de lá da garrafa. Como disse meu vizinho de júri, o master of wine Dirceu Vianna (leia entrevista logo abaixo neste blog). “Em uma prova como esta, o critério é avaliar o que você encontra de tipicidade na taça”. Do ponto de vista da premiação, não há outra solução. O método é tão falho como a democracia, por exemplo, mas tão insubstituível quanto.

Uma curiosidade. Durante a prova, entre uma rodada e outra, eu postei no twitter do Blog do Vinho pequenas impressões dos goles, do que estava acontecendo. No último comentário eu arrisco dizer que o melhor tinto do velho mundo era da amostra número 26. Não é que foi o vencedor da categoria segundo a avaliação geral de meus coleguinhas? Aliás, nunca tinha ouvido falar. Claro, era o Vinha Longa Reserva 2006, inscrito pela AEP, Associação Empresarial de Portugal.

O resultado é curioso e reflete a variedade do vinho, foram premiados três franceses (é o ano da França no Brasil); dois chilenos, dois portugueses, um argentino e, claro, dois brasileiros. A lista está abaixo

Os 10 vinhos escolhidos em cada categoria
Espumante Nacional (23 participantes)
Casa Valduga Gran Reserva Extra-But - Casa Valduga - Vale dos Vinhedos

Espumante Importado (8 participantes)
Champagne Pehu Simonet Brut Sélection Grand Cru NV - Pehu Simonet - Champagne/França

Sauvignon Blanc (8 participantes)
Ventisquero Queulat Gran Reserva 2008 – Ventisquero - Valle de Casablanca/Chile

Chardonnay (15 participantes)
Morandé Terrarum Reserva 2007 - Morandé - Valle de Casablanca/Chile

Branco: Outras Castas (18 participantes)
Josmeyer Les Pierrets Riesling 2001 - Josmeyer & Fils - Alsace/França

Rosado (14 participantes)
Cascaï 2008 - Château Ferry Lacombe Provence/França

Tinto Nacional (31 participantes)
Salton Talento 2005 - Salton - Tuiuty/Brasil

Tinto Novo Mundo (22 participantes)
Las Perdices Tinamú 2006 - Viña Las Perdices - Mendoza/Argentina

Tinto Velho Mundo (30 participantes)
Vinha Longa Reserva 2006 - Encostas de Estremoz - Alentejo/Portugal

Doce Fortificado (8 participantes)
Justino's Madeira 10 anos - Justinos Henriques - Ilha da Madeira/Portugal


Os culpados, quer dizer, os jurados, na foto acima, no momento da degustação, provando e passando para o laptop a pontuação. Entre as ilustres figuras, este colunista.

Dirceu Vianna Junior (Master of Wine); Gerson Lopes (Blog Vinho e Sexualidade); Gustavo de Paula (ABS-SP); Jorge Carrara (Folha de São Paulo); José Maria Santana (Gula); José Luiz Pagliari (SBAV-SP); Manuel Beato (Sommelier do Fasano); Marcelo Copello (Gazeta Mercantil e Mar de Vinho); Marcio Oliveira (SBAV-MG); Mauro Celso Zanus (Embrapa); Nuno Vaz Pires (Vine - Portugal); Ricardo Farias (ABS-RJ); Roberto Gerosa (Blog do Vinho – VEJA). Coordenação: Jorge Lucki (Valor Econômico) e José Ivan dos Santos (SENAC)



Por Roberto Gerosa - 18:00 | Enviar Comentário | Ler Comentários (13)

 30 de abril de 2009

ENTREVISTA: Dirceu Vianna Jr
Um mestre dos vinhos


Por João Batista Jr

Único brasileiro a obter o título de Master of Wine, depois de ter cursado por seis anos a conceituada escola de nome idêntico em Londres, o paranaense Dirceu Vianna Jr, 40 anos, vem a São Paulo para participar da 13ª edição da Expovinis. Nesta entrevista a João Batista Jr, repórter de Veja São Paulo, ele conta um pouco de sua trajetória no mundo do vinho. Confira:

Quando o senhor   se interessou pelo mundo do vinho?
Nunca tinha pensado no assunto. Cheguei inclusive a cursar duas faculdades que não tinham nada a ver comigo. Entrei em Engenharia Florestal, na Universidade Federal  do Paraná , e em Direito, na PUC. Abandonei as duas escolas e troquei Curitiba por Londres 20 anos atrás. Meu primeiro trabalho na capital inglesa foi em um Wine Bar. Depois disso, cursei hotelaria no Westminster College e fiz cursos no Wine and Spirit Education Trust.

Por que o senhor decidiu cursar o concorridíssimo Master of Wine, que aceita apenas 80 alunos por ano. Achava que sua formação não estava completa?
A principal característica de minha personalidade é ter ambição de ser o melhor em tudo o que faço. Então, desde que entrei no mercado de vinho, meu objetivo era me tornar um mestre para provar a mim mesmo que eu era um PhD no assunto. Em novembro de 2008, depois de seis anos de dedicação quase exclusiva ao curso, obtive a minha certificação.

O senhor trabalha no mercado da bebida há duas décadas. O que muda agora com a obtenção do título?
O Master of Wine foi criado em 1953 e, desde então, apenas 274 pessoas obtiveram o título. Da América do Sul,  somos apenas eu e uma argentina (Marina Gayan). Brinco que existe no mundo mais físicos nucleares do que masters  of wine. O reconhecimento é tão grande que, desde o fim do ano passado,  quando fui aprovado, meu nome ficou conhecido internacionalmente no setor de maneira quase instantânea. Saíram matérias a meu respeito em jornais daqui de Londres, na  China e em Portugal. Como consequência, aumentaram os pedidos de palestras, degustações e aulas.

Qual foi a emoção ao ser aprovado?
Fiquei muito contente, pois a aprovação foi resultado de dedicação diária de seis anos de estudos. Minha preparação era parecida com a de um atleta que vai disputar a Olimpíada. Entre 2002 e 2008, acordava às 6h todo dia para estudar até às 10h, quando tinha de ir ao trabalho. Aos fins de semana, eram oito horas de aprendizado. Tinha de ler sobre a geografia e condições climáticas de todas as regiões produtoras do mundo. Nesse tempo, também viajei para mais de 30 países, sendo que para alguns deles, caso da França, eu cheguei a visitar mais de duas vezes por mês. Tudo isso para conhecer in loco as características das vitiviniculturas. Os produtores têm até diferenças comportamentais. É preciso gastar sola de sapato para virar um mestre em vinhos.

Por favor, cite um exemplo.
Os vinicultores de Bordeaux são formais e clássicos. Todos vestem ternos bem cortados e só nos recebem em seus castelos com hora marcada. Na Borgonha, os donos estão nos vinhedos com seus funcionários e usam jeans e camisas surradas. Eles nos recebem sem a mínima cerimônia e deixam à vontade para provar, ali no campo mesmo, suas joias líquidas .

Deve ser um custo alto se tornar master of wine?
Sim, o curso custou 15 mil libras por ano (cerca de 48 500 reais), com a inclusão das despesas com a viagem. Esse valor foi pago por mim e pela empresa que trabalho.

Como é esse processo?
As provas são feitas em cinco dias, a parte prática pela manhã e a teórica à tarde. No total, são doze vinhos degustados às cegas a cada dia. As perguntas que tinha de responder eram relacionadas ao clima, tipo de solo e até o nome das florestas de onde eram oriundas as madeiras usadas nos barris de envelhecimento dos vinhos. Por exemplo, a Borgonha é uma das regiões mais inconsistentes e confusas do mundo. Existem vários motivos para essa confusão, entre as quais a geografia e clima: a região é cheia de declives e as condições meteorológicas sofrem influência de correntes de ar vindas do Atlântico, do Mediterrâneo e até do Báltico.

Como é seu trabalho na importadora inglesa Coe Vinters?
Estou nesta empresa desde 1998. Comecei como vendedor e, depois de quatro anos, fui promovido a comprador de vinhos. Hoje sou um dos diretores. Quando  ingressei na Coe Vinters , tínhamos uma carta de 250 rótulos. Agora, são 1 500 etiquetas, que custam entre 5 e 3 000 dólares.

O Brasil tem um consumo per capita de 2  litros de vinho por habitante ao ano, um número muito pequeno se comparado, por exemplo, com a média argentina, que é de 30 litros per capita. O senhor acredita que teremos demanda para ampliar essa marca?
Nosso país tem potencial de consumo grande, considerando que o brasileiro ainda não considera o vinho como uma bebida para o dia-a-dia. Muitas pessoas acreditam que é uma  bebida para a elite. Felizmente, esse ponto de vista tem mudado com o aumento de cursos, feiras e degustações. Acredito que em um futuro próximo chegaremos  à metade do patamar argentino.

Quais são os rótulos nacionais que mais lhe agradam?
A maioria dos experts internacionais não leva os vinhos brasileiros a sério, mas o país já produz rótulos de boa qualidade. O meu favorito é o Miolo Merlot Terroir 2005. A Salton também tem mostrado uma melhoria em sua produção, os exemplos são o Talento e Desejo, ambos safra 2005.



Por Roberto Gerosa - 19:09 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)


EXPOVINIS
Acompanhe a degustação do Top Ten

Terei o prazer de conhecer pessoalmente o master of wine brasileiro, Dirceu Vianna Jr, neste fim de semana dos dias 2 e 3 de maio, quando junto a um time de craques participaremos da degustação do Top Ten da Expovinis– é..., no meio do feriadão, por amor à causa. Esta prova às cegas antecede a feira e todos os anos seleciona os melhores vinhos da feira em dez categorias. Os resultados só são divulgados no primeiro dia do evento, na terça-feira, dia 5. Nem o corpo de jurados fica sabendo os vencedores antes. No twitter do Blog do Vinho farei pequenos comentários sobre a degustação que acontece no sábado e no domingo.

A festa do vinho
A Expovinis está em sua 13ª edição. Maior evento do gênero na América Latina, a feira deve receber 15 000 visitantes. São profissionais da área e pessoas curiosas em descobrir novidades entre os cerca de 5 000 rótulos apresentados por 270 empresas de mais de vinte países. Outra oportunidade é de provar, no mesmo local, vinhos brasileiros de várias regiões e de pequenos e grandes produtores. Fato raro, pois as outras grandes feiras que acontecem nas capitais geralmente são promovidas por importadoras, o que exclui o tinto e branco verde-amarelo. Trata-se ainda do primeiro ano da feira pós-Lei Seca. Recomenda-se ir e voltar de táxi.

Serviço
Expovinis Brasil 2009. Transamérica Expo Center, Avenida Doutor Mário Vilas Boas Rodrigues, 387, Santo Amaro. Inscrições pelo tel. 3141-9444 ou pelo site www.expovinisbrasil.com.br. Terça (5), 14h ás 22h (só para profissionais do setor); Quarta (6) e quinta (7), 14h às 19h (só para profissionais do setor), e das 19 às 22h (aberto para o público em geral. R$ 40,00 (com direito a taça) e R$ 30,00.



Por Roberto Gerosa - 19:06 | Enviar Comentário

 28 de abril de 2009

FRANÇA - Borgonha
Dominique Laurent: o doceiro que virou vinho


Para vender, Borgonha com gougères
Para comprar, Borgonha com pão
(ditado dos négociants da região)

Provar um vinho bem elaborado da Borgonha é um experiência única. O que é melhor, então, do que um bom Borgonha na taça? É um bom Borgonha acompanhado de receitas típicas desta região situada no leste da França. Dá para melhorar este cenário? Sim, se você puder contar com a presença do négociant que elaborou o vinho à mesa e desfrutar das histórias sobre seus tintos.

Foi esta a experiência que transformou minha segunda-feira em um sábado de aleluia. Dominique Laurent é o négociant. O chef responsável pela harmonização atende pelo nome de Emmanuel Bassoleil e os vinhos gravados com o nome de Dominique Laurent na etiqueta são: Bourgogne Cuvée “Numero 1”, Chambolle-Musigny Vieilles Vignes 2005 e, para grand finale, Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003, em garrafa magnum, de 1,5 litro, por que o moço não atravessou um oceano para brincar!

Négociant não é atravessador

Um vinhedo da Borgonha é uma colcha de retalhos com inúmeros pequenos produtores: gente simples que por inúmeras razões históricas herdou um pedaço de terra abençoada, de solo calcário, e vende seus cachos de uva para cidadãos que tratam de vinificar, afinar os vinhos, criar uma identidade e por fim vender pelos olhos da cara. São os tais négociants.

Tem gente que pode ter a ideia errada de que o négociant é uma espécie de vampiro dos vinhedos que explora os humildes agricultores e só coloca a etiqueta e fica com a parte do leão. Na verdade este é um sistema tão antigo quanto a Borgonha, criado para resolver o problema de produção e comercialização do vinho em uma região de terrenos tão pulverizados. O négociant não é um atravessador, e sim um facilitador, mas obviamente, como em qualquer cadeia produtiva leva uma grana maior do que quem planta a uva.

Como tudo na vida, porém, há os négociants preocupados em produzir grandes volumes e acabam engarrafando um “pinóquio noir”, um vinho mentiroso, que não traduz o potencial da uva desta região. Outros, ao contrário, resgatam a qualidade desta uva refinada, e até um pouco pedante, com excelentes caldos, de variados níveis. Há mais do primeiro grupo do que do segundo, por isso é sempre necessário conhecer o produtor. Difícil, não é? Por isso, sempre que topar com um Borgonha que seja do agrado e caiba no orçamento é bom anotar o nome diretinho ou fotografar o rótulo pelo celular.

Dominique Laurent está na linha dos pequenas empresas, grandes negócios & ótimos vinhos. Também representa a simplicidade da região, antípoda em todos os sentidos da nobreza de Bordeuax. Mas é o simples que engana, pois não existe um Borgonha que valha a pena que seja barato. Ele iniciou sua carreira como chef pâtissier – se fosse no interior de Minas, seria chamado de doceiro mesmo -  e em 1987 decidiu fazer o que mais gostava, e se transformou em négociant na subregião de Nuit-Saint-Georges (Cote d’Or, Borgonha), onde selou uma rede de  relacionamentos com os pequenos produtores que lhe garantem a uva para seus quase 60 cuvées anuais. Todas de produção limitada.

E o que os vinhos de Dominique Laurent têm de tão especial?

Vieille Vignes
- vieille vigne aqui não é só uma força de expressão, mas se traduz no tempo em que as raízes do vinhedo estão agarradas ao solo (pardon, terroir). Vinhas antigas são sinônimo de qualidade e de intensidade, na fruta e nos  aromas. O Chambole-Musigny Vieilles Vignes 2005, por exemplo, é resultado da frutas de parreiras de 1902, 1920, 1930 e por aí vai; o Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 tem plantas de 1910.

Barricas mágicas – é reconhecido o trabalho de Laurent com as barricas, que o marketing transformou em "mágicas", mas que o próprio négociant simplificou como "nostálgicas". “Trata-se de um trabalho de recuperar o que era feito no passado, dava certo, e foi esquecido”, resume ele, ao explicar o uso de madeiras com 300 e 400 anos de idade, que levam de 5 a 7 anos para secar. O mosto (o suco de uva) fica em contato com as borras por vários meses, “sem marcar o vinho com a madeira”, como gosta de enfatizar. Cada barril sai por 900 euros, contra 500 a 600 das barricas tradicionais.

Assemblage
– parece estupidez falar de assemblage (mistura de uvas) em um vinho varietal (de uma só variedade de uva). Não custa lembrar aos incautos, Borgonha tinto é da uva pinot noir e c’est fini. Mas é isso que Laurent faz, desde seu vinho mais básico. Ele seleciona uvas de diferentes perfis e parcelas de terreno para compor uma palheta de sabores mais rico para seus vinhos. “Assemblage é um vinho mais de alta-costura onde várias parcelas compõem o perfil de um vinho”, explica.

Outra ousadia do négociant é “rebaixar” seus vinhedos. Explica-se: na cadeia alimentar das regiões e subregiões da Borgonha (um prêmio para quem souber o nome de todas de cor, sua localização no mapa e importância) os terrenos ainda sofrem a divisão de quatro grandes apelações (AOC). São elas: regional (23 apelações, responsáveis por 65% da produção total); comunal ou village (44 AOC, 36%); premier cru (635 climats classé, 10%); grand cru (33 AOC, somente 2% da produção, o crème-de-la-crème). Pois Dominique Laurent, a fim de aportar mais qualidade aos seus pinot noir de classificações inferiores, comete e heresia de usar uvas de premier cru em garrafas que não ostentam esta classificação no rótulo.

Os vinhos

Bourgogne Cuvée Numero 1
2005 (R$ 144,00) – não, não tem número 2, 3 etc. O número 1 aqui é sinônimo de melhor couvée (colheita). Seguindo o preceito de assemblage, trata-se de uma seleção das melhores parcelas criando um Borgonha mais simples - que lá fora tem preço de vinho mais simples mas aqui é preço de gente grande mesmo -, mas já com alguma complexidade e que vai melhorando bastante descansando na taça. Curioso que Laurent prefere bebê-lo mais frio, quase gelado. Perguntei a razão, e ele respondeu: “Por que é assim que se bebe”. Definitivamente, sem frescuras o sujeito.


Chambolle-Musigny 2005 (R$ 368,00) – trata-se da seleção de uvas de diversos terroir. Aqui Laurent “rebaixa” seus premiers crus para aumentar a qualidade dos vinhos. Permanece por 20 meses na barrica e sua palheta aromática inicia com flores, cedro e revela um forte café no fundo da taça. Bastante complexo e intenso. Um vinho respeitável.

Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 (R$ 1.153,00 a magun, R$ 464,00 a garrafa de 750 ml). Année Exceptionnelle. É assim que Dominique Laurent define o vinho em seu rótulo. Aqui vai a mão de mestre do négociant. 2003 foi o ano da canícula que matou os velhinhos na França e rendeu vinhos medíocres na Borgonha, pois as uvas foram colhidas em agosto, antes do tempo, prejudicando a acidez da safra. Dominique Laurent pagou para ver e colheu as uvas somente em setembro. Ok, teve a sorte de ser agraciado por uma mudança no tempo que refrescou a temperatura e permitiu colher uvas de imensa extração de cor, aromas e taninos. Mas foi ousado. Ou seja, ele é uma exceção à regra. A garrafa comprovou sua tese.

Para quem está costumado a um Borgonha de cor mais pálida, este aqui é mais musculoso, como são em geral os Gevrey-Chambertin. Apresenta cor intensa, aromas que lembram um porto, um toque de especiarias e é muito  longo. A boca aveludada tem sabor de frutas (cerejas mais doces), sempre com uma potência mais fina, se é que dá para definir algo desta maneira. Um Borgonha de macho com diploma. Detalhe, Laurent produziu uma edição especial em garrafas de 1,5 litro, magum, só vendida aqui no Brasil e na França.

Para comprar e vender

Bom, Borgonha não é para amadores, mas para amantes. E endinheirados. Mas tudo bem, cabe aqui neste blog uma extravagância de quando em vez, afinal não se discute uma obra pelo seu preço – é uma conseqüência - mas pela capacidade de atingir o seu público. E Dominique Laurent nem é dos mais caros, apesar de estar um degrau acima na alas dos négociants.

O ditado que inicia este texto é recorrente entre négociants da Borgonha. Gougères são uma espécie de pão de queijo da região e sua textura mascara, como todo queijo, alguns defeitos do vinho. Por isso é o melhor acompanhamento no momento da venda, do ponto de vista do négociant. Quem quer provar - e comprar - um autêntico Borgonha, com seus aromas e sabores multifacetados, deve escolher um pedaço de pão, que não engana o palato, mas mostra a verdade do vinho. Os rótulos de Dominique Laurent foram servidos com gougères e fatias de pão.

Saiba mais sobre a Borgonha

Site oficial (em inglês)
(em francês)

Onde comprar:
World Wine



Por Roberto Gerosa - 18:58 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)

 24 de abril de 2009

VINHO NACIONAL
Churchill engarrafado


Estou sempre disposto a aprender,
mas nem sempre gosto que me ensinem.

Winston Churchill

Um tinto elaborado com a uva cabernet franc, engarrafado num vasilhame de formato bordalês, etiquetado com um rótulo idêntico ao Romanée-Conti, elaborado por um americano no Brasil e com nome de estadista inglês. Contando assim,  parece mentira. Mas este vinho existe. Trata-se do Churchill Cabernet Franc 2006, um vinho potente,  amadeirado, com um tostado no estilo dos tintos do Napa Valley, da Califórnia, com muita fruta madura e de baixíssima produção (só 600 garrafas).

Propagada de forma viral, a safra de 2006 foi bastante comentada entre os poucos que tomaram seus goles. 2007 não teve. Para 2008 serão cerca de 1500 garrafas. Ainda é um universo pequeno, mas são estes achados que fazem o charme dos caçadores de novidades brancas e tintas. Para quem está sempre aberto a aprender, mas ao contrário do Churchill estadista aceita um sugestão com gosto, é uma boa aposta. Principalmente se o perfil dos tintos californianos for a sua praia.

Para apresentar a criatura, nada melhor do que o criador. O Blog do Vinho, depois de provar o vinho, foi ouvir o produtor. Com a palavra, Mr. Nathan J. Churchill:

Como surgiu a ideia de produzir um vinho no Brasil?
A ideia de investir no vinho brasileiro surgiu pelo contato e amizade com a Valmarino, eles têm um produto excelente, e ofereceram um pouco de seu vinho para eu experimentar com o uso de barricas.

Por que escolheu a uva cabernet franc?
O cabernet franc é uma uva tinta que se dá bem no Brasil, principalmente em Bento Gonçalves e particularmente em Pinto Bandeira, onde fica a vinícola Valmarino, do meu amigo e colaborador Marco Antônio Salton. Tive acesso a este vinho, estava muito bom, e achei que seria diferente. A uva já foi mais comum no Brasil, e acho que deveria ser mais explorada. Os cabernet franc da Valmarino consistentemente recebem as melhores notas no Brasil.

Quantas garrafas você produziu?
Foram produzidas duas barricas de vinho, portanto 600 garrafas. 2006 foi o primeiro ano. Ainda restam umas 200 garrafas (em São Paulo é vendida pela Enoteca Saint VinSaint). 2007 não houve. Para 2008 aumentei a produção para cinco barricas (1500 garrafas). O Churchill 2008 está há dois meses na barrica e está evoluindo bem, com bastante café e toffee. As barricas do 2008 são de 36 meses de secagem enquanto as do 2006 foram de 24 meses. A tostagem foi a mesma. A uva também. A nova vinificação do Marco Antônio, porém, proporcionou mais fruta.

Como funciona sua parceria com a Valmarino?
O Marco Antônio faz o vinho e me cede uma quantidade para elaborar nas minhas barricas. Eu não participo no cultivo. O processo de vinificação é feito na Valmarino. Para a safra 2006 o Marco Antônio adquiriu um novo tipo de tanque fermentador (de alta tecnologia) que dá resultados ainda melhores. Toda esta parte é feito pelo Marco.

O uso da madeira é muito marcante no Churchill. Era esta mesma a intenção?
O vinho Churchill surgiu de duas coisas. A primeira era minha frustração com o uso de barricas pelas vinícolas no Brasil. Minha empresa representa umas das mais conceituadas tonelarias do mundo, a Taransaud, e como vendedor de barricas eu sabia quanto agrega a barrica ao vinho. Em termos simples, a barrica aumenta exponencialmente a complexidade e qualidade do vinho. Por isso, praticamente todos vinhos top a nível mundial passam por barricas novas. Porém, no Brasil a prática de usar barricas novas não é usual - são sempre poucas barricas, misturadas com as de vários usos, para muito vinho. Eu queria ver pessoalmente se a barrica usada de forma "correta" faria também uma grande diferença no vinho brasileiro. Fiquei feliz em comprovar que a barrica faz a sua mágica aqui também.

A segunda coisa que eu queria comprovar ou verificar era o uso do carvalho americano no vinho. A Taransaud tem uma subsidiaria, a Canton, em Kentucky, EUA, que fabrica barricas exclusivamente com carvalho americano. A Canton usa a mesma técnica tradicional de secagem da madeira que a matriz na França (36 meses ao ar livre). O que se descobre é que o carvalho americano, que é mal visto no Brasil, quando bem trabalhado proporciona excelentes resultados (a um custo muito menor, diga-se de passagem).

O senhor esperava a crítica positiva que o vinho teve?
Quando provei a primeira garrafa eu achava que o vinho era bom. Fiquei muito surpreso e feliz com o entusiasmo nas degustações na SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) e depois em outras aonde o Churchill foi considerado o melhor vinho. Tenho muita sorte de trabalhar com o Marco Antônio, que me dá um excepcional vinho base para fazer a élevage nas minhas barricas.

É inegável que o rótulo do Churchill é uma referência à etiqueta do Romanée-Conti (veja fotos acima). Foi proposital?
Pois é... a ideia original era usar uma arte de um designer, porém ele estava com a agenda cheia e não pôde fazer um desenho para mim. Portanto, tive de fazer eu, e como sempre admirei os rótulos da Romanée-Conti, La Tache e seus companheiros (leia entrevista com o produtor Aubert de Villaine ), resolvi fazer algo parecido. Para 2008 o rótulo vai mudar um pouco. Para melhor, espero.

O Churchill é um vinho de  guarda?
Pergunta difícil.  Preparei o vinho para ser guardado. Como eu não sabia se iria vender ou se ficaria com 600 garrafas para meu próprio consumo, utilizei uma rolha especial para vinhos de guarda: a rolha francesa Diam (100% isento de TCA). Gostaria de ter utilizado o screw-cap de alumínio, porém não existem garrafas no Brasil para esta embalagem.
A evolução depois de 15 meses na garrafa tem sido muito positiva. O veredicto sobre a guarda do cabernet franc é dividido. Alguns franceses melhoram, enquanto uns californianos nem tanto. Eu não recomendaria guardar o Churchill por muito tempo em altas temperaturas (fora de uma adega climatizada), porém, a uns 14 graus acredito que vai continuar melhorando até 2012. O tempo dirá. O vinho está muito bom agora. Se fizer um churrasco, recomendo tomar em vez de guardar.

Por que o preço inicial da garrafa, 32 reais, aumentou para cerca de 68 reais?
Gostaria que o preço fosse mais baixo, porém se tivesse deixado no preço original teria vendido todas as 600 garrafas na primeira semana.

Qual sua avaliação do vinho nacional?
O Brasil é um lugar ideal para produzir vinhos excepcionais e únicos, exatamente por ser fora da rota de exportação de vinhos globalizados.  Como nós não exportamos muito, não temos sofrido pressão para fazer um vinho que agrada ao consumidor americano, inglês ou holandês. É um dos poucos lugares aonde ainda existem vinhos autênticos. E temos também o nosso terroir. O produtores brasileiros são verdadeiros heróis, pois os insumos custam o dobro do preço mundial, fora outras complicações de todo tipo.
Há excelentes vinhos aqui, principalmente aqueles de Bento Gonçalves e da serra Santa Catarinense. Gosto dos vinhos da Valmarino, Salton, Villa Francioni. Acho que o 130 da Valduga é o melhor espumante nacional.

O espumante é mesmo o melhor vinho brasileiro?
O Brasil tem uma vocação natural para espumantes. O clima favorece tanto a produção das uvas como o consumo do vinho em si. A meu ver, os espumantes do Brasil só perdem para os franceses (champagne). É uma oportunidade fantástica. O espumante pode ser tomado no calor que é muito refrescante, e já existe o hábito do balde de gelo à mesa com a cerveja.Com um pouco de marketing tem tudo para crescer muito.

E os tintos verde-amarelos?
Quanto aos tintos, não é fácil. Algumas safras são boas e outras mais complicadas. As boas estão se tornando mais comuns, talvez pelas mudanças climáticas.

Conte-me um pouco sobre o senhor.
Sou norte-americano e resido continuamente no Brasil desde 1987. O nome Churchill vem da Inglaterra, porém minha família está há 13 gerações nos EUA. Antes de chegarem na Inglaterra, os Churchills vieram da França. Conheço razoavelmente bem Napa (Califórnia) devido a alguns projetos que tive lá.  Admiro muito o vinho americano. Embora caro, a qualidade é alta.

Seu amigos americanos já provaram o Churchill?
Sim, meus amigos e família já provaram o Churchill.  Quase todos gostaram, com a exceção da minha mãe. 
(Nota deste blog: espero que a safra 2008 agrade a mãe de Nathan Churchill: crítica negativa de mãe ninguém merece, não é não?)



Por Roberto Gerosa - 20:28 | Enviar Comentário | Ler Comentários (8)

 16 de abril de 2009

TESTE
Você conhece vinho do Porto?

O vinho do Porto é uma instituição. Sinônimo de vinho português pelo mundo teve uma presença marcante no Brasil durante o Império e a República. Até meados do século passado, era comum finalizar ou iniciar as refeições com um cálice desta bebida.

Elaborado com uvas típicas da região do Douro, e armazenado nas adegas de Vila Nova de Gaia (foto), ficou conhecido como Vinho do Porto a partir da segunda metade do século XVII por ser exportado a partir da cidade portuária de mesmo nome.

Certamente, o leitor deste blog já bebeu algum Porto na vida, se é que não dá suas talagadas eventuais. A propósito, o Brasil é, hoje, o 11º maior mercado do Porto em todo o planeta. Mas o quanto você sabe sobre este fortificado único? O Blog do Vinho elaborou mais um teste para tentar, de uma forma divertida e despretensiosa, avaliar seu conhecimento.

1 - Para começar, um pouco de história. O vinho do Porto é a mais antiga denominação de origem controlada do mundo. Ela foi estabelecida pelo Marquês de Pombal em:
1756
1788
1808

2 - Qual das afirmações abaixo é verdadeira?
Todo porto é tinto
Todo porto tinto passa por madeira
A madeira utilizada para amadurecimento do Porto é sempre nova

3 - Por que o vinho do Porto é doce?
Porque é adicionado açúcar durante a fermentação que junto ao açúcar natural da uva dá esta sensação adocicada à bebida.
Porque é adicionado álcool vínico durante a fermentação, o que interrompe o processo e o açúcar que não se transformou em álcool até então adoça a bebida.
Porque as uvas são colhidas muito maduras e passificadas, com alto teor de açúcar natural, e a fermentação é mais prolongada, elevando assim o potencial de doçura do vinho

4 - O que é um Porto Ruby?
Um vinho mais jovem, frutado, de cor mais vermelha. É amadurecido em enormes barris (balseiros), e devem ser consumidos logo
Um Porto que fica de cinco a sete anos na madeira, de melhor qualidade, e com data da colheita declarada
O único vinho do Porto que não leva adição de álcool vínico, por isso é menos doce, mais claro (daí o ruby do nome).

5 - A Região Demarcada do Douro (RDD) localiza-se no nordeste de Portugal. A área cultivada, assim como na Borgonha, é composta de um mosaico de pequenos produtores, com seus vinhedos pendurados em belíssimos terraços que margeiam o Rio Douro. Quantos produtores existem na região?
Mais de 10 mil
Mais de 20 mil
Mais de 40 mil

6 - São exportadas, atualmente, mais de 10 milhões de caixas (de 12 garrafas) de vinho do Porto pelo planeta. Qual o principal mercado do vinho de Porto, tanto em volume como valor?
Reino Unido
Estados Unidos
França

7 - A legislação do Douro só permite produzir vinhos fortificados do Porto?
Sim, pela rígida legislação só é possível vinificar tintos fortificados
Não, há grandes vinhos de mesa no Douro, brancos e tintos
Não, o Douro é famoso também por seus vinhos verdes

8 - O que significam as letras LBV no rótulo de um Porto?
Late Bottled Vintage
Late Britain Vintage
Longest Bottled Vintage

9 - O que vem a ser a Lei do Terço?
Os exportadores do Porto só podem vender a cada ano o equivalente a um terço dos seus estoques
Os produtores só podem usar um terço de suas uvas para elaboração do Porto
Um terço da produção de Porto deve ser obrigatoriamente comercializada em Portugal

10 - Das seguintes uvas tintas nativas portuguesas uma não entra na receita do vinho do Porto, qual é?
Touriga nacional
Touriga franca
Baga

11 - O que significa a indicação Tawny de 20 anos no rótulo?
Que a safra é de 20 anos atrás
Que a média de idade dos vinhos misturados indica a idade declarada no rótulo
Que todo o vinho ficou descansando 20 anos em balseiros antes de ser engarrafado

12 - Em alguns Portos mais especiais os cachos das uvas são pisados em lagares. O que são os lagares?
É um mecanismo do século XVI, com o chão formado de ripas de madeira e com um tanque no subsolo. Eqüinos são presos a uma roda e em movimentos circulares seus cascos vão esmagando as uvas despejadas a cada 30 minutos no local. Este processo permite uma altíssima extração do mosto (suco) das uvas
É uma prática usada desde o Império Romano. Um lagar é um tanque retangular baixo, de vários tamanhos, geralmente de granito onde é feita a pisa manual, por humanos, e onde também o mosto (suco) da uva fermenta
São enormes estrados ao ar livre onde as uvas são colocadas logo após a colheita para secar ao sol e com isso concentrar o açúcar, processo fundamental para o vinho do Porto. Depois de transformadas em passas, as uvas são pisadas por filhos dos colonos, para uma extração suave, prática que atualmente gera problemas com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

13 - O Porto é chamado de fortificado por conta de seu alto grau alcoólico obtido pelo acréscimo de aguardente vínica. Para cada 440 litros de mosto são adicionados quantos litros desta aguardente?
220
110
65

14 - Há vários tipos de Porto: ruby, tawny, vintage, colheita e tawny com indicação de idade (10, 20, 30 e 40 anos). O ruby e tawny são responsáveis por ___ do consumo de Porto.
65%
88%
95%

15 -Na cadeia alimentar dos vinhos do Porto, o Vintage é a jóia da coroa. Diz o ditado que o Tawny é uma obra do enólogo e o Vintage uma obra de Deus, já que depende das condições climáticas de um ano para ser declarado como tal. Tem baixíssima produção e safras certificadas pelo IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto). Para finalizar, uma pergunta para entendidos de boa memória. Qual das safras abaixo de Porto não foi declarada como Vintage?
1963
1994
2001

Total: acertos

 

RESULTADO

Mais de 13 acertos
Mais de 13 pontos? Acho que você é Cavaleiro da Confraria do Vinho do Porto, um estudioso do fortificado, um cruzado do Tawny, um apóstolo do Vintage. Ou é sortudo demais...

De 8 a 12 acertos
Muito bom. Você é bebedor de Porto, um apreciador deste ícone lusitano e muito atento à literatura sobre o tema. Merece abrir uma garrafa neste momento para comemorar.

De 4 a 7 acertos
Já está na média. Deve ter provado mais de um estilo e aprecia uma taça no final das refeições e presta um pouco de atenção ao tema. Confira as respostas, lá há um bocado mais de informações para você saber mais.

Até 3 acertos
Você não entende muito de Vinho Porto, mas deve gostar do estilo, se não não fazia o teste. Afinal, não precisa saber nada disso para apreciar a bebida, não é.

 

Confira as respostas

 

Outros testes:
Teste das Uvas
Você entende de vinho, ou só faz pose?
Você sabe qual espumante está bebendo?



Por Roberto Gerosa - 22:04 | Enviar Comentário | Ler Comentários (7)


LIVROS
O Douro, o Porto e as letras

Você fez o teste do Vinho do Porto? De qualquer forma, se você curtiu o aperitivo e quer entender um pouco mais sobre este fermentado fortificado, uma obra essencial é o já citado Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006), do especialista e entusiasmado Carlos Cabral. O livro recupera a história da bebida desde o século XVII com base em mais de vinte viagens que o autor realizou a região e apresenta imagens de cerca de 300 rótulos, incluindo raridades.

Junta-se agora à bibliografia do Porto um livro mais abrangente na temática mas nem por isso menos didático em seu intuito: Os Sabores do Douro e do Minho (Editora Senac), do jornalista Marcelo Copello, que esquadrinha duas importantes regiões vinícolas lusitanas, que produzem dois caldos típicos e únicos: o Porto e o vinho verde. Copello leva pela mão o leitor apresentando a história das regiões, de seus mais importantes produtores e finalmente conta tudo que você precisa saber sobre seus vinhos, elaborados com as curiosas castas típicas das quintas portuguesas. Complementam esta "ementa" editorial receitas que nasceram e cresceram junto a estes vinhos, uma harmonização onde a gastronomia e os tintos, brancos e fortificados, mais do que complementos, são parceiros de vida.



Por Roberto Gerosa - 21:59 | Enviar Comentário

 08 de abril de 2009

PÁSCOA
Vinho e bacalhau: um casamento que dá certo


Para ninguém me acusar de ficar indiferente ao dilema do almoço da sexta-feira Santa ou da Páscoa, aqui vão, de última hora, os meu pitacos para a melhor combinação de vinho com o bacalhau.
Para início de conversa, não existe unanimidade: os portugueses, os artesãos do bacalhau, preferem os tintos. Eu, que só fui apreciar a iguaria há poucos anos e ainda acho a melhor receita a preparada pela minha mulher, prefiro os brancos encorpados, de preferência das uvas chardonnay, arinto ou antão vaz. Mas cai bem também um chardonnay mais untuoso do Chile, da Argentina e mesmo do Brasil

Para satisfazer portugas e brazucas uma lista reduzida de brancos e tintos para acompanhar o baca da Páscoa. Mas só os vinhos da terrinha, até por respeito à sua culinária

Os brancos
Como já disse, minha preferência, de todos os preços.
Esporão Reserva Branco 2007 – Qualimpor

Redoma branco 2007 (Niepoort) – Mistral

Borba Antão Vaz e Arinto Branco 2005  - Adega Alentejana

Paulo Laureano Premium Branco 2006 – Adega Alentejana

Filipa Pato Ensaios Branco – Casa Flora

Luis Pato Vinhas Velhas Branco 2007 – Mistral
 (Filipa e Luiz, pai e filha, os dois com brancos bacanas)

Tintos
Mas se você insiste nos tintos para a ocasião, vá de rubros da Bairrada, como os da linha do Luis Pato, elaborados com a uva baga. Duas escolhas:
Luis Pato Baga 2005 - Mistral

Vinhas Velhas tinto 2005 - Mistral

Ou então a coleção de rótulos do Alentejo do enólogo Paulo Laureano:

Casa de Sabicos Reserva Tinto 2005 – Adega Alentejana

Villa Romannu Tinto 2005 – Interfood

Paulo Laureano Clássico Tinto 2006 – Adega Lentejana

E o chocolate?
Quanto ao chocolate, o ovo de Páscoa e outras surpresas do coelhinho, vamos combinar que:

1. ovo de Páscoa e chocolate é coisa de criança, e não convém criança beber vinho;

2. não precisa combinar vinho com tudo. Abre seu celofane, pegue o bombom mais desejado, ou arrebente a casca do ovo, e deixe derreter na boca, à capela, e curta este momento calórico sem culpas;

3. se mesmo assim você quer fazer o tal casamento, vai de Porto Ruby ou Tawny, os mais simples na cadeia alimentar dos fortificados do Douro. Se você tiver muita grana um Tokay Aszu 6 Puttonyos manda muito bem. Mas aí, minha gente, o Tokay sozinho já é a festa completa.

Boa Páscoa a todos.



Por Roberto Gerosa - 23:45 | Enviar Comentário | Ler Comentários (5)

 07 de abril de 2009

CANADÁ
Icewine: o vinho que veio do frio


Escolha uma das opções. Você já:
a) tomou vinho do Canadá?
b) provou um branco elaborado com a uva vidal?
c) experimentou um icewine?

Se respondeu não a todas as alternativas anteriores não há nada de errado com você, nem com seu conhecimento de vinhas e rótulos. O mundo do vinho é que é variado mesmo, e por isso mesmo é impossível conhecer de tudo. A diversão é esta, quando você tem a oportunidade de conhecer algo novo. Percebeu? Essa é a riqueza desta bebida. Eu, por exemplo, até sábado passado jamais havia provado um vinho da uva vidal.

O icewine é um vinho produzido em países de clima realmente frios, como Alemanha, onde recebe o nome de Eiswein, Áustria e aqui nas bandas do novo mundo fez a fama no Canadá. Antes de serem colhidas congeladas, no mês de dezembro, as uvas derretem e congelam novamente umas oito vezes. Cada vez que se congelam, mais sabores se concentram na fruta. O resultado é um branco doce, de baixo teor alcoólico com aqueles aromas etéreos que os bons vinhos de sobremesa exalam e que qualquer nariz mais cético é capaz de perceber. Na boca costuma vir uma sensação de compotas de frutas brancas ou cítricas, muito mel e certa untuosidade.

O Canadá se esmera em produzir bons icewines pelas razões óbvias. O clima é propício. Recentemente um grande amigo visitou o país e nos trouxe uma garrafa de um icewine da Peller Estates. Era um Icewine Vidal da safra 2007, da região de Niagara-On-the-Lake, da VQA (Vintners Quality Alliance ) de Ontário. VQA é um sistema de apelação canadense que garante que as uvas são provenientes da região de Ontário). É um tipo de vinho que deve ser bebido gelado e acompanha os doces no final da refeição, ou até mesmo substitui a sobremesa tal a riqueza de seus aromas e sabores (um doce de laranja de avó do interior, mel no nariz e no paladar, um toque de manteiga), tudo com enorme frescor – não é enjoativo com alguns vinhos doces muito alcoólicos. A fermentação é feita também a baixas temperaturas para manter a concentração da fruta.

O problema foi a garrafa, de 200 ml – o que é normal para vinhos neste estilo. Para quatro taças foi necessária uma divisão parcimoniosa. Ficou gostinho de quero mais, o que é sempre um sinal de a coisa correu bem. Se tiver algum conhecido que venha de uma viagem ao Canadá, pede um para ele. Aqui nos trópicos, um ice wine vale como uma brisa refrescante e doce no final dos trabalhos.

Se não tiver uma amigo vindo do Canadá, há como se virar. A Casa Flora importa um rótulo de icewine. Trata-se do Cave Spring, 100% riesling. Este eu já provei faz um tempo e tinha uma pegada mais de abacaxi em calda e muito pêssego. 
O preço: 280 reais, mas a garrafinha é mais generosa, de 375 ml.

Assista aqui o belo filme sobre os vinhedos e a colheita do icewine da Peller Estates, de onde retirei as imagens que ilustram este post.



Por Roberto Gerosa - 11:04 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)

 03 de abril de 2009

VINHO NACIONAL
Marco Danielle: da tormenta ao prelúdio


Você conhece Marco Danielle? Quem frequenta a esquina virtual onde os aficionados dos tintos e brancos se encontram, os blogs, fóruns e redes sociais sobre o tema, certamente já ouviu falar dos vinhos Tormentas e Minimus Anima, e de seu autor, Marco Danielle. Desde 2005 ele batalha pela divulgação de seus tintos naturais, de produção reduzida e preço elevado. Danielle defende a baixa intervenção no vinhedo e é refratário a qualquer adição química na vinificação, principalmente de sulfitos.

A novidade é que agora ele está trabalhando um novo rótulo, Prelúdio, um vinho que  mantém o mesmo estilo mas dá uma trégua no preço. Odiado ou amado, o fato é que seu discurso sempre provoca faísca. E Danielle não é muito aderente a críticas, seja lá quais forem, e defende com unhas, dentes, ancinhos e, muita teoria, seus vinhos naturais. Daí a faísca invariavelmente provoca fogo.

Para o músico e ex-colaborador de Veja.com, Ed Motta, o Minimus Anima de 2005, por exemplo, é “o tinto brasileiro de maior personalidade” que já degustou. “No nariz, rara elegância, com uma nota salgada e apimentada que lembra os vinhos do Rhône e Languedoc, na França. Brilhante”, complementa. O enocineasta John Nossiter e os críticos do site Notas de Degustação também se somam aos entusiastas das experiências naturais de Danielle. Já boa parte da crítica tradicional olha desconfiada para o projeto, para seus proclamas e seus caldos. O crítico Marcelo Copello,  atualmente editor da revista Adega, comentando uma degustação às cegas de seus rótulos, disparou o seguinte petardo há alguns anos: “Algumas pessoas realmente não gostaram do vinho, achando-o desagradável”, sentenciou. “Os defeitos principais comentados foram aromas cozidos e concentrados de mais, de uvas excessivamente maduras ou concentradas posteriormente de alguma forma.”

Tudo isso é bossa-nova, tudo é muito natural
Seus vinhos, no entanto, a despeito de qualquer crítica, a favor ou contra, são extratos naturais, como os rios. Há quem goste das águas correntes, há quem prefira a platitude das represas ou o conforto das piscinas, quimicamente tratadas. Gosto é um valor subjetivo.

Provar um dos rubros criados no ateliê de Danielle - é assim que ele chama seu espaço de elaboração de vinhos artesanais - é de fato uma experiência diferente. O perfil dos tintos está mais próximo ao estilo do velho mundo, onde Danielle ganhou o pão como fotógrafo. No lugar da fruta em compota na taça, e do envelhecimento em madeira, a pureza da fruta. Apesar do termo desgastado, diria que é um vinho bossa-nova, que no princípio causa estranheza mas que esconde uma harmonia rica por atrás de sua aparente simplicidade.

Seus tintos não usam conservantes, leveduras industriais ou sofrem qualquer intervenção química na vinificação. O desengace dos cachos é manual e muitos de seus rótulos não contém, ou contém porções reduzidíssimas, de SO2, um conservante muito utilizado na elaboração de vinhos. Os caldos também não são filtrados ou estabilizados artificialmente. Muito  técnico, meio chato, né? Mas e daí, você deve estar se perguntando?

Daí que esta escolha resulta em um vinho diferente no paladar, que explora mais a verdade do vinhedo e a potencialidade da fruta; daí que o sabor, a cor e a palheta de aromas fogem do modelo tradicional - o que nem sempre pode agradar e nem é sinônimo de qualidade. Danielle, claro, acho que dá certo: “Jamais consegui com uma foto de arte arrebatar a emoção de alguém como fiz com alguns dos meus vinhos”, afirma.

Money, money, money
Um dos maiores calcanhares-de-aquiles de seus rótulos é o preço. Seus rubros Tormentas (olha o nome que o sujeito escolhe para o vinho; me diz se ele tem ou não uma propensão à polêmica...) e Minimus Anima são de produção limitadíssima, 1.200 garrafas em uma safra, 700 em outra. A mais extensa até então fora de 2600 ampolas, do Minumus Anima 2007. Os preços variam de 80 a 160 reais na adega. Nas lojas passam de 200 reais fácil.

“O quê? 200 reais por um vinho brasileiro, você tá louco?” É o chavão que se ouve. É complicado. Com certeza não ajuda. Sobre esta questão abro uma aspas para o autor de explicar: “Há produtos de consumo, e outros de paixão. Há produtos em que se vende uma utilidade, e outros em que se vende um conceito ou um sonho. Trata-se do único vinho à venda no mundo feito com desengaço manual. É preciso compreensão profunda do que isso significa. Sem paixão, não dá. Os custos de matéria-prima no padrão de Tormentas são astronômicos.”

A verdade está na taça
Meu primeiro contato com Marco Danielle se deu no final 2005, em função de um artigo sobre o filme Mondovino que eu havia publicado (leia aqui). De lá para cá falamos por telefone (raramente), trocamos inúmeros e-mails (se você acha os textos deste blog longos é por que jamais se correspondeu com  Danielle) e depois nos afastamos. Li seu livro-manifesto e tive a oportunidade de provar  seus primeiros vinhos. 

A primeira vez foi em uma degustação com a presença pouco interessada de meia-dúzia de críticos e enófilos (detesto esta palavra) na Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP). Escrevi para Danielle comentando minhas impressões. O Minimus Anima ainda não estava pronto. Copio minha avaliação, que enviei pessoalmente para Daniele, mas jamais publiquei. Nossa correspondência, diga-se, sempre foi respeitosa.

Minimus Anima 2005 - cabernet sauvignon e alicante bouschet:
"Gostei muito: percebi mais os aromas do alicante (aquela framboesa mais madura muito nítida, perfumada, que vinha da taça e do decanter com grande expressão), eu também achei ali uma ameixa preta. Mas a framboesa é muito marcante.  A cor rubi mais escura que em seus outros vinhos. Na boca outra boa surpresa: corpo médio; confirmavam-se as frutas acima e também uma sensação de terra molhada, húmus, enfim, uma característica mais terrosa mesmo, que eu não soube ao certo descrever, talvez não seja isso, mas que dava um toque de classe e de refinamento. Aliás, o que saltava do vinho era a fruta, na boca e no nariz, o gosto da fruta, a elegância e a persistência do vinho. O tanino acho que precisa um pouco de tempo para ser mais amaciado, mas sem grandes agressões (afinal trata-se de um amostra de  que estará pronta em novembro). Acho que você tem uma boa promessa no tanque."

Tormentas Premium 2006 - pinot noir colheita tardia, tannat e merlot:
“Este me surpreendeu melhor. Agradou a proposta de um vinho de corpo médio mas com aroma bem natural de frutas, na boca mais presente, um estilo realmente que não estamos acostumados no Brasil que privilegia mais a fruta e menos a potência. Uma bela cor na taça. Teve gente que achou que o vinho tinha passado pela barrica, pela maior complexidade aromática do vinho, que vem da vinificação e não da guarda, estou certo?”
 
Recentemente tive a oportunidade de degustar todos os seus rótulos juntos.  Não vou reavaliar a opinião do passado. Fica a primeira impressão. Mas acrescento uma nota para uma safra que eu não conhecia.

Tormentas Premium 2007100% merlot:
Foi o tinto que menos me impressionou, de todos que provei de Danielle. Ainda muito fechado, talvez. Mas não compreendo a lógica de manter o mesmo nome, alterando o grafismo da etiqueta, para um vinho completamente diferente. Trata-se de outro estilo, de outra pegada. Se antes era um blend de três uvas agora é um corte varietal - uma só uva, e que nem fazia parte da composição da safra anterior.  

Prelúdio: o vinho odara para as massas
Neste último contato com a coleção de Danielle a melhor surpresa, no entanto, foi um rótulo de um novo projeto, de maior volume, são17.000 garrafas produzidas. Trata-se do Prelúdio 2007, um vinho natural em versão para as massas, com as uvas merlot (70%), cabernet sauvignon (20%) e cabernet franc (10%). É o primeiro vinho do projeto Vinha Solo, da região de Campos de Cima da Serra, no nordeste do Rio Grande do Sul. A 37 reais a garrafa ele preserva a espinha dorsal de seu sonho: o vinho natural, com baixo uso de SO2 e sem passagem pela madeira. É um tinto com baixo teor alcoólico, 12,7%, cada vez mais uma raridade, com uma fruta franca na boca, agradável. Curioso como todos vinhos de Danielle têm este toque aromático meio animal, meio tostado, mesmo sem ter contato com as barricas de carvalho. Tem boa acidez, para ser bebido jovem.

Conclusão?
Danielle pegou uma estrada mais complicada, mais difícil de atravessar, do tipo que pode levar tanto a caminhos pouco explorados, porém belos, como para o desfiladeiro. A experiência de beber seus vinhos carrega a mesma simbologia, pode ser difícil para quem não está aberto a variações de paladar ou ao desconhecido. Ou então pode ser uma agradável surpresa, uma novidade bem-vinda. Não se fica indiferente A minha proposta aos leitores deste blog é conhecê-los. E depois, julgá-los.

Com o lançamento deste novo empreendimento, Danielle coloca um pouco mais de humor e simplicidade em suas criações, em sua abordagem. Isso é bom. O adagio da tormenta inicial parece que começa a abrir espaço por um prelúdio mais allegro. Há espaço para todos os andamentos no mundo do vinho.

Onde encontrar:
Em São Paulo: Enoteca Vin Saint -
Tormentas – Site Oficial
Leia também: entrevista inédita com Marco Danielle (2006)



Por Roberto Gerosa - 19:01 | Enviar Comentário


ENTREVISTA
Danielle, artista, vinhateiro ou ambos?

Publicitário e fotógrafo com experiência na França, onde conheceu e se apaixonou pelos chamados vinhos naturais, Marco Danielle se tornou vinhateiro na volta ao  Brasil. Começou pequeno, artesanal, mas teve a coragem de enviar sua primeira safra para a crítica internacional inglesa e ganhou seu maior troféu: um parecer favorável do rótulo Tormentas e Minimus Anima, de Steven Spurrier, famoso crítico inglês da  revista britânica Decanter (leia as críticas no final da entrevista).

Marco Danielle intitulava-se artista-vinheteiro no início (fato que critiquei logo de início, aliás). A justificativa do autor: “Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais uma licença poética... Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.” Teorias à parte, eu acho que pega mal. É o vinho que diz sem tem arte ali ou não, e não o autor. Simplificou o slogan para vinhos de autor.

Em abril de 2006, Danielle me concedeu uma entrevista por e-mail. Muito mosto rolou de lá para  cá, incluindo o lançamento recente do Prelúdio, mas acho que é válida sua publicação hoje, para ver as coisas sob a perspectiva do tempo. E checar se algumas de suas ideias resistiram ou evoluíram com o tempo:

Por que seu vinho é produzido?
Para manter no Brasil parte da riqueza que escoa para o exterior das mãos de uma classe privilegiada com o poder aquisitivo necessário para buscar numa garrafa de vinho, além de um néctar natural, um sonho e uma história.

Quem tem de julgar se o vinho chegou ao status de arte é quem bebe e não quem produz, não concorda?
Respeito esse ponto de vista, sem contudo abrir mão do meu argumento. Já pensou se passássemos pelo crivo da razão tudo que se afirma na publicidade? E o sonho, onde fica? E a luta pela sobrevivência? Melhor, respondo com uma pergunta: uma obra em música erudita pode ser menor, e pode ser grandiloquente. Mas você julgará que uma obra menor não é arte? Para mim há erudição e virtuosidade no vinho. Assim como há sertanejos.

 Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais licença poética... Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.

O que me aborrece sim, confesso, é que alguém como eu, que poliu a alma com Barthes e Pré-vert; que viajou meio mundo atrás do saber; que comunica-se em cinco  línguas - três das quais com fluência; que viveu exclusivamente da arte e da escrita... deva ser tachado de pretensioso por “autointitular-se” artista. Num país como esse! Justo aqui, uma nação faminta onde ladrões se autointitulam políticos, um artista se intitular vinhateiro ou um vinhateiro artista, irrita.

Alguns tintos apresentam cores menos intensas. É proposital?
Amigos enólogos me dizem que aumentaria muito minha profundidade da cor usando enzimas. Mas para quê? Não há preço que pague a magia da natureza pura, em sua expressão mais honesta. Desconfie de vinhos untuosos. A glicerina e a goma-arábica são usadas em larga escala. Mas como disse o Hubert de Montille em Mondovino, “as pessoas gostam de ser enganadas.” Mas a mais das vezes as falhas mais gritantes não vêm da maquiagem. Vêm da matéria-prima ruim. Um vinho pode ser natural e ruim.
Já a merlot, tem se revelado a pérola das viníferas brasileiras. Por quê? Porque atinge o pico de maturação por volta de um mês antes. Portanto, concentremo-nos nos nossos merlot, que permitem desenhar vinhos nos dois estilos.
Ainda assim, desculpe a pretensão, mas devo concordar com o Spurrier que meu Tormentas 2004 representa uma finíssima expressão de cabernet sauvignon. Caso contrário, não o teria lançado. Sinto profundamente que a ocasião, em cômputo geral, não tenha permitido a você compactuar desta mesma impressão.

Você não acha que o preço, 80,00 e 120,00 reais (atualização, agora está em 160 reais), está fora dos padrões do vinho nacional?
Meu vinho também está fora do padrão brasileiro. Basta observar o que temos aqui. Mas até quando limitaremos inexoravelmente qualquer vinho brasileiro a um padrão baixo? Por que o Spurrier acaba de dar nota 18/20 para o meu vinho, e rasgar-se em elogios sobre qualidades que aqui não conseguimos decodificar? O que estaria acontecendo? Seria ele um incauto, ou um amador? Concordo que precisamos baixar preços, e estamos nos organizando para isso. Mas se a predisposição da crítica nacional continuar sendo de depreciar os esforços locais... sinceramente, pouca diferença fará se o preço for R$ 20 ou R$ 120,00, pois sempre parecerá caro. Admito novamente, porém, que ainda há pouquíssimos vinhos tintos brasileiros bons.

O que achou das primeiras críticas aos seus rótulos?
A imprensa e os críticos locais não entenderam a proposta conceitual, fortemente simbólica, de fortalecer, através de um preço alto para um vinho nacional raro, a autoestima do fazer brasileiro. Tormentas Premium foi prejudicado nas únicas duas avaliações anteriores que aconteceram no Brasil. O valor irrita tanto que perde-se o senso da fruição pura e simples deste agradável vinho. Uma pena. Sendo assim, prefiro tirá-lo da oferta para venda. Não tanto pelos clientes, pois ninguém é obrigado a comprar o que não quer. Mas por perturbar tanto a crítica. Há uma dificuldade aparente de entender que um vinho lapidado à mão, um verdadeiro serviço de joalheiro, não pode ser analisado como qualquer outro. Por outro lado, também, de nada me adianta que apenas o Spurrier consiga decodificar seus valores. Se o que está acontecendo continuar se repetindo, em breve não haverá mais qualquer razão para organizar apresentações de imprensa.

Tenho que admitir que prego no deserto, pois ainda temos pouquíssimos bons vinhos. Alguém tinha que começar um dia, servindo de bucha de canhão no primeiro tiro dessa iminente revolução.

Duas críticas do editor da Decanter, Steven Spurrier

Minimus Anima 2005 Cabernet-Sauvignon & Alicante Bouschet:
 “Fina e profunda cor rubi-aveludada, muito jovial e boa viscosidade nos lados da taça. Nariz de frutas vermelhas recém esmagadas, elegante, cheio de fruta sem exuberância excessiva. Maduríssimas frutas vermelhas no palato, bons taninos naturais que dão a impressão de leve uso de carvalho, final firme e fresco, balanceado com a acidez natural. Um vinho muito bem feito; com fina fruta natural e um bom senso de individualidade. Degustado sem setembro de 2007.”

Tormentas Premium 2006 Pinot Noir, Tannat e Merlot
 “Cor de negro rubi-aveludado; rico visual luxuriante com densas pernas  nas paredes da taça. No nariz, finas frutas de bosque maduras e concentradas, dominando cerejas negras combinadas com certa terrosidade natural. No palato, excelente concentração de uvas muito maduras em soberbo balanço com a acidez natural.  Grande densidade geral e pureza de fruta dominada por cerejas negras. Um vinho vivaz, com poder e elegância. São ambos vinhos refinados [Minimus Anima 2005 e Tormentas Premium 2006], feitos com evidente paixão e insistente qualidade.”



Por Roberto Gerosa - 18:58 | Enviar Comentário | Ler Comentários (2)

 01 de abril de 2009

VÍDEO
A boa fase de exportação do vinho argentino

Para nós, brasileiros, vinho argentino não é exatamente uma novidade. Só perde em volume para o Chileno. Até cansa de vez em quando. Mas o mundo cada vez mais percebe a qualidade dos tintos e brancos do nosso vizinho mais ao sul. E o preço competitivo facilita o sucesso de vendas. Em 2008 as exportações aumentaram 34% - abrindo caminho para a produção de 6 milhões e meio de garrafas em 2009.

A reportagem em vídeo abaixo mostra o exemplo do trabalho realizado na Bodega del Fin del Mundo, um nome apropriadíssimo para vinhedos localizados na Patagônia, mais exatamente na província de Neuquén.

Video



Por Roberto Gerosa - 14:16 | Enviar Comentário
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |