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Drones

09/08/2014

às 18:30 \ Vasto Mundo

BARRA PESADA: Empresários brasileiros fora do país precisam enfrentar bandidos e até guerrilheiros para realizar seu trabalho. Conheçam um caso concreto

Mercenários franceses e sérvios em ação na África: elemento comum na paisagem de países conturbados (Foto: Cobris / Sygma)

Mercenários franceses e sérvios em ação na África: elemento comum na paisagem de países conturbados (Foto: Cobris / Sygma)

Publicado originalmente a 14 de abril de 2014

Por razões de família, estou em Barcelona. Aqui, recebi um telefonema de um conhecido, empresário brasileiro há muitos anos atuando no exterior, especialmente — mas não apenas — na África. Queria se encontrar comigo para saber notícias do país.

Fui encontrá-lo no Hotel Rey Juan Carlos I, não novinho em folha, mas ainda muito luxuoso. Estava em conferência com funcionários e assessores e interrompeu para tomarmos um café demorado.

Vejam só a tarefa que ele tem diante de si.

Uma multinacional de petróleo precisa levar um equipamento de alta tecnologia para Cabinda, a região de Angola riquíssima em petróleo, que fica encravada no Congo e separada do restante do país por uma estreita faixa de território congolês.

Ocorre, porém, que o porto de Cabinda não tem calado suficiente para navios de porte.  É, pois, necessário que o material, que sairá do porto de Barcelona, seja descarregado em um determinado porto do Congo — país imenso, riquíssimo em recursos minerais mas com um nível miserável de vida, que se encontra há anos à deriva, com um governo que não controla nada e à mercê de senhores da guerra, bandoleiros e a sanha de variados interesses estrangeiros.

O primeiro problema a resolver, diante disso, foi localizar, encomenda e alugar, na Alemanha, containers especiais para o transporte do material — são containers anti-bomba, capazes de resistir a impactos muito poderosos.

O segundo problema será a viagem a ser feita, por terra, desse porto até o território de Cabinda, atravessando terreno muito perigoso no Congo. Além da desordem que vigora no país, há guerrilheiros por ali — apesar de oficialmente tenham deposto as armas, militantes da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) ainda dão trabalho.

O empresário brasileiro, então, vai precisar de proteção para o transporte da encomenda — e, numa terra de ninguém como aquela, a última coisa em que se pensa é pedir algum tipo de proteção ao caótico governo do presidente Laurent Kabila. Ali, proteção chama-se mercenários. Sim, ex-soldados experientes, dotados de armamento poderoso e dispostos, se necessário, a arriscar a vida e a matar. No caso, mercenários australianos, a cujos serviços ele já precisou recorrer anteriormente, para outra empreitada.

Mercenários são algo inteiramente natural e frequente na paisagem dos países africanos mais convulsionados. A maioria vem da ex-Iugoslávia — sérvios, croatas, bósnios, kosovares, gente que já travou guerras duras nos anos 90 e hoje vende sua expertise nessa área sinistra. Existem, porém, soldados profissionais de outros países, que decidiram deixar seus uniformes, vestir outros, correr mais riscos e ganhar mais dinheiro, e entraram para a carreira. Muitos deles fazem contatos com interessados por meio da revista especializada Soldiers of Fortune.

Mesmo com mercenários, havia, para o empresário brasileiro, muito em risco — o material em questão vale mais de 10 milhões de dólares. Assim sendo, ele preparava, com especialistas, um levantamento da área a ser percorrida em terra por meio de drones, pequenos aviões não tripulados, dotados de câmeras de alta definição.

Quanto nos despedimos, ele dava tratos à bola, além de tudo, sobre quantas viagens fazer com a carga: de uma só vez, correndo o risco — na pior das hipóteses — de perder todo o material? Fazer diversas viagens, correndo, assim, várias vezes o mesmo risco?

Se tudo der certo, a empresa desse brasileiro vai ganhar honorários respeitabilíssimos. Vejam só, porém, o trabalho e o tamanho do stress que a tarefa toda estão requerendo.

14/04/2014

às 9:15 \ Vasto Mundo

VÍDEO SENSACIONAL: Um jato de combate supersônico voando sem piloto

Um jato de combate F-16 sem piloto, controlado do solo, participa de manobras militares (Foto: Boeing)

Um jato de combate F-16 sem piloto, controlado desde sua base na Flórida, participa de manobras militares com outros aviões tripulados sobre o Golfo do México (Foto: Boeing)

Há alguns meses a Boeing anunciou que, num trabalho conjunto com a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), havia convertido jatos de combate supersônicos F-16 aposentados em drones — aviões não tripulados, pilotados de terra.

O vídeo que você vai ver abaixo mostra a primeira vez em que um desses jatos, ainda em uso em diferentes versões por vários países do mundo, inclusive os EUA, decola de uma base aérea na Flórida, navega e aterrissa perfeitamente, com o cockpit vazio.

Inicialmente, os F-16 sem piloto, originalmente construídos por um concorrente da Boeing, a Lockheed Martin,  servirão como alvos no treinamento e aperfeiçoamento de pilotos de caça, mas não se descarta que o futuro reserve outras tarefas para jatos de combate não tripulados.

O Pentágono está feliz com o sucesso da iniciativa e com a possibilidade de progressivamente conferir utilidade a milhares de jatos militares conservados em “cemitérios” de aeronaves, com custos de manutenção de centenas de milhões de dólares anuais.

Os primeiros F-16 transformados em drones vieram, todos, do “cemitério” anexo à base da Força Aérea de Davis-Monahan, no Estado do Arizona. Agora curtam o vídeo, que é narrado em inglês mas cujas imagens falam por si.

27/02/2014

às 15:30 \ Tema Livre

Drones e robôs, os novos reis dos animais

Os reis de uma região conhecida como Serengeti fazem supor que nada os incomoda — nem mesmo a câmera do fotógrafo que os registra (Foto: Michael Nichols / National Geographic Creative)

Os reis da região de Serengeti, entre a Tanzânia e o Quênia, fazem supor que nada os incomoda — nem mesmo a câmera do fotógrafo que os registra (Foto: Michael Nichols / National Geographic Creative)

Reportagem de Raquel Beer, publicada em edição impressa de VEJA

DRONES E ROBÔS, OS NOVOS REIS DOS ANIMAIS

Aparelhos não tripulados semelhantes aos de uso militar reinventam a luta contra a caça ilegal nas reservas da África e da Ásia

O olhar altivo, de elegante beleza, dos três leões da imagem acima, os reis de uma região conhecida como Serengeti, entre o norte da Tanzânia e o sudoeste do Quênia, faz supor que nada os incomoda — nem mesmo a câmera do fotógrafo que os registra.

Na verdade, não há mesmo ninguém diante dos animais. Para flagrá-los, o americano Michael Nichols e seu assistente, contratados pela National Geographic Society, usaram um robô e um drone comandados por wi-fi a partir de um computador.

NÃO CHEGA A SER UMA SELFIE -- Mas é quase isso — e os leões da região de Serengeti mal percebem a presença do robô acoplado a uma câmera (Foto: Michael Nichols / National Geographic Creative)

NÃO CHEGA A SER UMA SELFIE — Mas é quase isso — e os leões da região de Serengeti mal percebem a presença do robô acoplado a uma câmera (Foto: Michael Nichols / National Geographic Creative)

Nos primeiros encontros entre bicho e máquina, os felinos chegaram a se esconder — com o tempo já não estavam nem aí com o robô, de pouco mais de 30 centímetros de altura e 50 centímetros de diâmetro na base.

Leões são animais que sabem guardar a energia para as presas que realmente interessam. Fosse uma manada de elefantes, estariam todos alvoroçados. “Leões são mais contemplativos e confiantes, não veem robôs e drones como ameaças”, diz Nichols.

É bom que o restante da turma que foi salva por Noé aprenda a conviver com seus pares de alumínio e silício. Na África e na Ásia é cada vez mais frequente o uso de equipamentos não tripulados, terrestres ou aéreos, para combater a caça ilegal. Todos os anos, o comércio irregular de animais selvagens movimenta 19 bilhões de dólares.

Em 2013, pelo menos 1 000 rinocerontes — cujos chifres são muito cobiçados — foram mortos apenas na África do Sul, número recorde desde o início da contagem, nos anos 90. Para caçarem os caçadores, os parques e as reservas têm investido nessas novíssimas tecnologias de rastreamento.

TERRA -- Elefante numa reserva da Indonésia, visto a partir de um drone (Foto: Conservation Drones.org)

TERRA — Elefante numa reserva da Indonésia, visto a partir de um drone (Foto: Conservation Drones.org)

Os objetos eletrônicos, especialmente os voadores, funcionam como os olhos das equipes de vigilância. Há vantagens em relação aos métodos anteriores de patrulha — os jipes de antigamente, helicópteros ou satélites. Nesses casos, ou se assustavam os animais, ou a distância impossibilitava acompanhar detalhes de comportamento da fauna e da ação do homem. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

10/02/2014

às 19:02 \ Tema Livre

VÍDEO: A imponente Madri, ainda mais bela vista de cima, com a ajuda de um drone “do bem”

A Gran Vía, uma das principais avenidas de Madri, vista de cima, com a ajuda de um "drone" (Imagem: reprodução)

A Gran Vía, uma das principais avenidas de Madri, vista de cima, graças às capacidades de um “drone” (Imagem: reprodução)

Se, no contexto bélico, a palavra drone remete a uma máquina militar aérea letal e não tripulada, para os diretores de obras audiovisuais a história pode ser completamente diferente.

É o caso da produtora multidisciplinar madrilenha Cromática 45, que se divide entre trabalhos de vídeo, fotografia, arquitetura e design.

Para realizar o clipe-experimento Madrid Aereal Demo-Reel, a empresa recorreu a uma câmera típica de coberturas de eventos de esportes radicais posicionada em um pequeno drone, que voou por cinco dias sobre Madri. O resultado é um apanhado de imagens belas da imponente capital espanhola, sob um ponto de vista levemente artístico.

Segundo o diretor responsável, Iván Puña, o dispositivo custou cerca de 800 euros (perto de 2.700 reais). Para ele, ainda, o fato de este drone “do bem” ser compacto e leve (um quilo e meio) rende uma ampla gama de possibilidades. Principalmente por facilitar o acesso físico a mais lugares, diferentemente do que acontece com outros veículos aéreos não tripulados ou mesmo com helicópteros.

Ainda assim, as filmagens, realizadas em novembro de 2013, tiveram que ser feitas levando-se em conta uma série de riscos, como o choque das hélices com algum edifício ou a interferência as antenas, que causam a perda do sinal de vídeo.

Entre os cartões postais da linda metrópole presentes no minifilme estão o Arco de la Victoria, a praça de touros de Las Ventas e o Estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid.

24/01/2014

às 18:45 \ Tema Livre

VÍDEO DE ARREPIAR: Imagens de surfe como você nunca viu — filmadas com um drone!

Imagens feitas pro drone revolucionam filmes de surfe

Imagens feitas pro drone revolucionam filmes de surfe

Os drones, aeronaves não tripuladas de diferentes tamanhos — até minúsculas, disfarçadas como pássaros –, estão cada vez mais marcando sua identidade com as imagens, ampliando o espectro de seus objetivos iniciais, de origem militar.

Dessa vez, uma câmera GoPro (indispensável para qualquer aventureiro, por seu tamanho ideal, versatilidade e alta qualidade das imagens,) acoplada a um drone DJI Phantom, revolucionaram as imagens de surfe.

Drone DJI Phantom

O drone DJI Phantom com sua câmera: imagens que nem mesmo com um helicóptero se conseguem

A façanha foi do fotógrafo americano Eric Sterman, especialista em imagens aéreas, que com seu aparato tecnológico produziu este vídeo na praia de Banzai Pipeline, no litoral norte da ilha de Oahu, no Havaí, de uma forma que nem um helicóptero conseguiria.

Pipeline é conhecida por suas ondas tubulares e perigosas, recomendadas apenas a profissionais. No vídeo podemos ver com nitidez a formação e o estouro das ondas, as tentativas frustradas e bem-sucedidas dos surfistas – e muitos arco-íris.

Recém-publicadas, as imagens foram capturadas no final de 2013, ainda durante o ameno inverno do Havaí. A música é Crystallize, de Lindsey Stirling.

Dica do leitor e amigo do blog Bruno Sampaio — mais uma, entre tantas muito legais.

 

LEIAM TAMBÉM:

VÍDEO INCRÍVEL: O Dedo de Deus como você nunca viu

29/12/2013

às 18:30 \ Tema Livre

Vídeo surpreendente: um avião de combate que decola de porta-aviões, reabastece no ar e… não tem piloto!

O X-47B depois de decolar de um porta-aviões, em concepção artística (Ilustração: Northrop Grumman)

Publicado originalmente em 24 de abril de 2012

campeões de audiência 02Admirável, espantoso mundo novo: a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) pretende começar ainda este ano testes para que, até 2015, aviões civis não tripulados — ou melhor, tripulados por controle remoto — possam voar no espaço aéreo norte-americano.

Até 2018, é possível que haja 15.500 drones, como são chamados os aviões pilotados desde terra — sejam do tamanho de um passarinho ou de maior porte –, nos céus americanos. (Já existem milharaes de drones espiões atuando para as Forças Armadas dos EUA no mundo todo).

O prestigioso Massachusetts Institute of Technology (MIT) prevê que ao longo da década podem começar vôos comerciais, de passageiros, com aeronaves pilotadas do chão.

Bem, tudo isso são previsões, mas o incrível X-47B, um jato de combate que voa sozinho e que deverá poder ser reabastecido no ar, pousar e decolar de porta-aviões já está em testes desde o ano passado pelo grande conglomerado industrial bélico Northrop Grumman.

Veja como foi seu primeiro voo, partindo da base aérea de Edwards, na Califórnia:

23/10/2013

às 19:16 \ Tema Livre

VÍDEO IMPERDÍVEL: Manaus, sua diversidade, suas cores — e a poderosa floresta ao redor em timelapse — e filmada por drones

"Amazônia Manaura", linda, selvagem e indecifrável

“Amazônia Manaura”, linda, selvagem e indecifrável

Por Rita de Sousa

Qual será o segredo de uma cidade que, de uma só vez é cosmopolita a ponto de ter um dos mais emblemáticos teatros de ópera do mundo; é selvagem, incluindo em seu território, intacta, parte da mais poderosa floresta do mundo e sua fauna; é tradicional, com seu povo cultivando o folclore, as festas populares, os mercados à antiga; é plural e enorme, a ponto de nela se circular com carros, bicicletas, ônibus, caminhões, barcos, navios, canoas, tudo junto — e misturado?

Não foi para responder isso que a produtora carioca Image Moov criou este belo vídeo, o Amazônia Manauara, que utiliza timelapses, hyperlapses e imagens aéreas produzidas com Drones.

A direção e fotografia é de Marcos Michael e Gustavo Pellizzon, e a trilha original chama-se Promisse Land.

07/09/2013

às 18:00 \ Tema Livre

Os drones — que os EUA usam como arma de guerra — se espalham por São Paulo para xeretar lugares e pessoas

Drone sobrevoa o Viaduto do Chá: alcance de 350 metros de altura (Foto: Mario Rodrigues )

Drone sobrevoa o Viaduto do Chá: alcance de 350 metros de altura (Foto: Mario Rodrigues )

Reportagem de Angela Pinho, publicada em edição impressa de VEJA São Paulo

Cada vez mais baratos e fáceis de operar, os robozinhos voadores equipados com câmeras já são usados em vídeos profissionais, projetos de engenharia e, claro, para bisbilhotar o quintal alheio

Com ao menos 1,5 milhão de câmeras de vigilância espalhadas por São Paulo, circular anônimo pela multidão da metrópole há tempos é um privilégio em extinção. Na década passada, as imagens de satélite disponíveis no Google Earth revelaram as dimensões dos imóveis de qualquer bairro, com suas piscinas e jardins, e logo o Google Street View começou a flagrar nossas idas de moletom à padaria.

Eis que, quando a expressão “big brother” parecia surrada, um novo tipo de olhar eletrônico está se disseminando pela capital. São os drones, robozinhos voadores, quase sempre dotados de filmadoras, que conseguem chegar a palmos de distância das janelas mais altas da Avenida Paulista e, segundos depois, dar rasantes pela mesma via, mirando os joelhos dos pedestres.

Eles têm preços cada vez menores, são fáceis de operar e sobrevoam desde ruas movimentadas até recantos mais pacatos. Em breve poderão entrar em sua casa para vasculhar o seu quintal — ou será que isso já aconteceu?

O termo drone, ou “zangão” em inglês (ouça o zumbido chatinho da máquina e você vai entender), designa equipamentos aéreos comandados por um piloto a distância.

Os maiores, que pesam mais de 30 quilos e decolam carregados de armamentos, viraram objeto de uma grande polêmica ao ser usados em missões militares para atacar inimigos sem pôr em risco a vida dos soldados. Nos últimos tempos, foram levados com esse objetivo ao Afeganistão e ao Iêmen pelo governo americano.

Na versão civil, pesam por vezes menos de 1 quilo.

Em São Paulo, estão à venda tanto em redes como Ponto Frio e Walmart quanto em lojinhas da Rua Santa Ifigênia, no centro, com preços que vão de 380 reais a mais de 10.000 reais. Os modelos mais em conta são dotados de estrutura simples: em geral, uma bateria, um sensor no miolo e no mínimo quatro hélices nas pontas.

André Visconti e Guimarães pilotam drone no Viaduto do Chá: alcance de 350 metros de altura (Foto: Mario Rodrigues )

André Visconti e Guimarães pilotam drone no Viaduto do Chá: alcance de 350 metros de altura (Foto: Mario Rodrigues )

Essas engenhocas viraram presença comum nas mãos de amadores no Parque do Ibirapuera, tornaram-se trunfo de corretores de imóveis que os utilizam para exibir aos clientes a vista que teriam em determinado andar, sobrevoam cartões-postais como a Sala São Paulo para a realização de vídeos institucionais e fazem tomadas cinematográficas em casamentos (o do jogador Paulo Henrique Ganso, em maio, na cidade de Caraguatatuba, no Litoral Norte, contou com o efeito especial).

Na mídia, são o recurso da vez.

O Fantástico, da Rede Globo, lançou mão do aparelho para retratar o quintal da família Pesseghini, morta no início de agosto em chacina na Vila Brasilândia, na Zona Norte.

O jornal Folha de S.Paulo sobrevoou milhares de manifestantes em rotas como o Largo da Batata na cobertura dos protestos que tomaram a capital em junho.

No humorístico Pânico na Band, transformaram-se em ferramenta de piadas. No último dia 18, um deles “invadiu” a casa do apresentador Otavio Mesquita, no Morumbi. Para mostrar do que a parafernália é capaz, a produção do programa filmou uma modelo de seu elenco de lingerie pelas janelas de um apartamento. “Olhe o que pode acontecer com você que está em um momento íntimo”, avisou o apresentador Daniel Peixoto, que pilotou a brincadeira.

A traquinagem de maior repercussão, porém, foi levada ao ar no dia 11, mostrando o aviãozinho da trupe, dotado de câmera e alto-falante, sobre a zona rural de Itu, onde é gravado o reality show A Fazenda, da concorrente Rede Record.

Objetivo: fazer imagens e dedurar para a então confinada Scheila Carvalho que ela havia sido traída pelo marido, o que iniciou uma disputa entre as emissoras. Ao completar a espionagem, o equipamento caiu no local. Os apelos para sua devolução rendem até hoje mais assunto para o Pânico.

Reduzir a geringonça, no entanto, a mera bisbilhoteira ou produtora de cenas hollywoodianas seria subestimar uma revolução em curso. Fruto de uma tecnologia que se aperfeiçoou bastante nas últimas décadas, ela atua hoje a serviço de órgãos como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), do governo do Estado de São Paulo. Ali, a meta é a elaboração de mapas detalhados.

Os primeiros trabalhos estão sendo feitos desde julho em Embu-Guaçu e Itapevi, na região metropolitana. “Se derem certo, poderemos usar os drones para vistoriar rios sem ter de levar equipes completas em barcos”, exemplifica o engenheiro Caio Cavalhieri.

Na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), está em estudo sua implantação para monitorar reservatórios.

O fotógrafo Edmilson Mendonça, em clique do próprio drone: antes, as imagens eram feitas em balão (Foto: 2TDrone)

O fotógrafo Edmilson Mendonça, em clique do próprio drone: antes, as imagens eram feitas em balão (Foto: 2TDrone)

É só o começo. No exterior, os propósitos são mais criativos.

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23/02/2012

às 15:00 \ Vasto Mundo

IMPERDÍVEL: repórter de VEJA conta o que viu na ultrapolêmica prisão americana em Guantánamo, Cuba

CHAGA INTACTA -- Presos em Guantánamo, nos dias iniciais da penitenciária: muita coisa mudou de lá para cá, mas o problema essencial - manter prisioneiros por tempo indefinido - segue intacto (Foto: AP / U.S. Navy)

Um primor de jornalismo que faço questão de oferecer aos leitores: a matéria sólida, bem escrita, objetiva e equilibrada feita pelo correspondente de VEJA em Nova York, André Petry, sobre a controvertida e superpolêmica prisão para acusados de terrorismo que os Estados Unidos mantêm em sua base naval de Guantánamo.

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Guantánamo, a hora da verdade

Começa a fase decisiva dos julgamentos dos chefes do terror islâmico, e o mundo espera que o tribunal militar americano concilie justiça com segurança

 

A cena tinha aquela desproporção comum nos julgamentos quando o réu, não importa o grau de periculosidade, depois de muito tempo no cárcere, parece uma figura ínfima, inofensiva, subjugada pelo aparato judicial.

Assim pareceu Abd al-Rahim al-Nashiri, 47 anos, saudita, ex-milionário em Meca, quando entrou no tribunal militar dos Estados Unidos instalado na Baía de Guantánamo, no sul da ilha de Cuba.

Estava cercado por dez policiais militares, todos mais altos e robustos que ele. Com 1,60 metro de altura e alguns quilos a mais, Al-Nashiri estava com o cabelo bem aparado e não tinha o bigode nem o cavanhaque da foto que o tornou conhecido no mundo todo como um terrorista.

Ele usava um uniforme branco, que identifica os presos de bom comportamento. Caminhou até sua cadeira. Sentou-se ao lado do tradutor e colocou o fone de ouvido para acompanhar a tradução do inglês para o árabe.

Nas duas horas e meia seguintes, não teve reações de satisfação com os acertos de sua defesa nem de desagrado com os golpes da acusação. Apenas ouviu a discussão. Remexeu-se na cadeira várias vezes, parecendo impaciente com o debate. O debate era sobre as regras do julgamento que pode terminar com sua condenação à pena de morte.

Pena Capital Al-Nashiri, ainda de bigode e cavanhaque (à esquerda) e o megaterrorista Khalid Sheikh Mohammed, mentor confesso dos atentados de 11 de setembro: fortes candidatos à condenação à pena capital pelo tribunal militar de Guantánamo

PENA CAPITAL -- Al-Nashiri, ainda de bigode e cavanhaque (à esquerda) e o megaterrorista Khalid Sheikh Mohammed, mentor confesso dos atentados de 11 de setembro: fortes candidatos à condenação à pena capital pelo tribunal militar de Guantánamo

Julgamento de réus considerados de “alto valor”

A audiência foi o ato inaugural do tribunal militar de Guantánamo em 2012 – o ano em que se sentarão no banco dos réus os acusados classificados como de “alto valor”.

Além de Al-Nashiri, serão julgados Khalid Sheikh Mohammed, mentor confesso dos atentados de 11 de setembro, e seus quatro comparsas.

Desde o Tribunal de Nuremberg, que processou 22 líderes da Alemanha nazista logo depois da II Guerra Mundial, não há uma corte militar que tenha atraído tanta atenção do mundo. Ao contrário dos outros tribunais militares, é a primeira vez que um país julga réus de outros países que, no entanto, não representam um estado nem estão numa guerra oficialmente declarada – que, por isso mesmo, jamais terá armistício ou acordo de paz.

A principal acusação contra Al-Nashiri, frequente interlocutor do terrorista Osama bin Laden, morto no ano passado por comandos americanos no Paquistão, é ter chefiado o atentado ao destróier USS Cole, em 2000.

O navio abastecia os tanques no porto de Aden, no Iêmen, quando dois terroristas suicidas se aproximaram em um pequeno barco com 300 quilos de explosivos. A explosão deixou dezessete americanos mortos e 39 feridos.

O destróier americano "USS Cole", com rombo no casco, atacado por Al-Nashiri no Iêmen: dezessete mortos e 39 feridos (Foto: Dimitri Messinis / AP)

Epicentro de controvérsias legais e morais dentro e fora dos EUA

Até agora, seis terroristas foram julgados em Guantánamo.

Quatro fizeram confissões em troca de penas mais leves. O quinto serviu os cinco anos e meio a que foi condenado. O sexto, Ali Hamza al Bahlul, secretário pessoal de Osama bin Laden, recebeu a pena de prisão perpétua, que cumpre desde 2008.

Criado especialmente para julgar terroristas, o tribunal é o epicentro de controvérsias legais e morais dentro e fora dos Estados Unidos. Por suas circunstâncias especiais, quando se colocam na mesa as muitas e amplas oportunidades de defesa que os réus teriam nas cortes convencionais dos Estados Unidos, Guantánamo é um simulacro de justiça.

O governo americano sustenta que, para enfrentar uma realidade única, foi preciso criar um tribunal também único, mas herdeiro das melhores tradições jurídicas.

Cobrindo o julgamento do terrorista Al-Nashiri

Na terceira semana de janeiro, o Pentágono levou a Guantánamo um grupo de jornalistas para cobrir as sessões do julgamento de Al-Nashiri.

No grupo, havia representantes de uma emissora de rádio russa, uma TV paquistanesa, três jornais (um americano e dois coreanos), quatro agências de notícias (saudita, inglesa, francesa e espanhola) e VEJA. Em quase dez horas de debate, defesa e acusação discutiram o direito de defesa do acusado:

A defesa alegou que uma norma baixada havia duas semanas pela maior autoridade de Guantánamo, o almirante David Woods, comprometia a confidencialidade da correspondência de Al-Nashiri.

A edição da norma provocara uma rebelião dos advogados dos presos, que, em protesto, cortaram a comunicação com seus clientes. A acusação de Al-Nashiri disse que a norma previa apenas o exame físico da correspondência – grampos, clipes, lâminas, qualquer material que ofereça risco -, mas não do conteúdo.

O juiz do tribunal, coronel do Exército James Pohl, chamou o comandante de Guantánamo para depor e explicar suas intenções ao baixar a nova norma. Ao final, o juiz pediu à defesa que propusesse, por escrito, uma norma nos termos que considere justos. Depois disso, o juiz tomará uma decisão. Até lá, continuam suspensas as comunicações entre os defensores e os presos de Guantánamo.

A defesa reclamou da falta de acesso à íntegra daquelas informações sobre seu cliente que o Pentágono considera confidenciais.

A acusação, composta de uma equipe de advogados do Departamento de Justiça e do próprio Pentágono, alegou que abrir segredos a um acusado de terrorismo compromete a segurança nacional. Por isso, a defesa deveria ter acesso apenas a um resumo do material confidencial.

O juiz concordou com o argumento da segurança nacional, mas deu à defesa o direito de contestar o resumo, caso julgue necessário.

O desafio para a defesa será contestar o resumo de um material cuja íntegra desconhece.

O ex-buraco obscuro já foi visitado mais de 80 vezes pela Cruz Vermelha

Guantánamo já foi um buraco obscuro, com presos em macacão cor de laranja, amarrados e vendados, enjaulados em gaiolas de arame farpado e submetidos a torturas. Sem direito a habeas corpus, dezenas de suspeitos depois declarados inocentes, um deles de 14 anos de idade, ficaram anos encarcerados.

“É o Gulag do nosso tempo”, acusou a Anistia Internacional, com o exagero atroz que se tornou a regra quando o objetivo é atacar os Estados Unidos, e não descrever uma situação real.

(Só para refrescar a memória, os gulags foram os campos de concentração, trabalhos forçados e extermínio da antiga União Soviética por onde passaram quase 30 milhões de condenados pelo simples crime de discordar do comunismo. Destes, pelo menos 3 milhões morreram de fome, maus-tratos e doença.)

A prisão e o tribunal de Guantánamo se abriram à imprensa e às organizações de direitos humanos. Só o Comitê Internacional da Cruz Vermelha fez mais de oitenta visitas à base. Nos campos de detenção, há prédios novos. Os presos, acusados de ações terroristas, podem ler o Corão, ter aulas de inglês, conviver uns com os outros em áreas abertas. Até detentos de mau comportamento têm direito a quatro horas semanais de TV, com 22 canais, inclusive a Al-Jazira em inglês.

Os réus de Guantánamo terão a mesma oportunidade de defesa oferecida aos nazistas em Nuremberg?

Muito mais. Os nazistas não tiveram direito de recorrer nem de questionar os juízes. Podiam ser julgados à revelia, e os que se sentaram no banco dos réus não contaram com advogados caros nem com a defesa de entidades de direitos humanos.

Falha dramática que compromete o sistema

Os réus de Guantánamo têm tudo isso. Uma falha dramática, porém, compromete o sistema: nem todo réu considerado inocente será libertado.

“Essa diferença é essencial”, diz Richard Kammen, especialista em casos que envolvem pena de morte e que lidera os defensores de Al-Nashiri. “Em um sistema que consideramos justo, os inocentes ficam livres e vão para casa.”

Al-Nashiri continuará preso, mesmo que absolvido. Desse modo, o objetivo da defesa é apenas livrá-lo da pena capital.

Entre os 171 detidos em Guantánamo, 46 estão na categoria de “presos por tempo indeterminado”. Ficarão sem acusação formal e não vão ser levados a julgamento. São presos que o governo americano considera muito perigosos, mas as provas contra eles não se qualificam como evidências, mesmo perante um tribunal militar.

Ou seja, as provas são confissões obtidas sob tortura.

A dificuldade fulcral de conciliar a justiça com a segurança nacional

O escritor William Shaw­cross, autor de Justice and the Enemy (A Justiça e o Inimigo), diz que é nesse ponto que se concentra a dificuldade fulcral de Guantánamo: como conciliar a justiça (a que todo réu tem direito) e a segurança nacional (a que todo povo tem direito).

Libertar terroristas é um crime contra a segurança nacional, mas também é crime manter na cadeia acusados de crimes sem provas.

Como proceder? Robert Jackson, o célebre promotor americano de Nuremberg, deixou uma lição imortal: “Só se pode pôr um homem sob os procedimentos da Justiça quando se está disposto a vê-lo livre, caso sua culpa não seja provada”.

Nuremberg sentenciou sete nazistas à prisão, condenou doze à morte por enforcamento e absolveu três – que, livres, voltaram para casa.

Tudo ao contrário Protesto pelo fechamento da prisão e do tribunal de Guantánamo, em frente à Casa Branca: em campanha, Obama prometeu as duas coisas, mas, no governo, fez o contrário - manteve a prisão e reabriu o tribunal

TUDO AO CONTRÁRIO -- Protesto pelo fechamento da prisão e do tribunal de Guantánamo, em frente à Casa Branca: em campanha, Obama prometeu as duas coisas, mas, no governo, fez o contrário - manteve a prisão e reabriu o tribunal (Foto: Gary Cameron / Reuters)

Um enorme vácuo legal

Como o terrorismo na escala atual é um ineditismo na história humana, há um enorme vácuo legal.

A Al Qaeda não é um estado, mas uma organização internacional. Pode-se declarar guerra contra um não Estado? Como a Al Qaeda não respeita as leis internacionais de guerra, seus membros têm direito a ser tratados como prisioneiros de guerra?

Os americanos acham que não, pois quem não segue as leis da guerra não pode se beneficiar delas. Mas a maioria dos países europeus tem outro entendimento. Eles dizem que os EUA só têm o direito de capturar um terrorista de outra nacionalidade e em outro país em função das leis de guerra – e, portanto, precisariam dar aos capturados os benefícios da Convenção de Genebra.

Alegam que, tal como está, os EUA usam o arcabouço jurídico da guerra para ter o direito (prender e julgar terroristas estrangeiros), mas não querem o dever (tratá-los como prisioneiros de guerra).

Obama faz o contrário do que dizia na campanha eleitoral

O presidente Barack Obama assumiu a Casa Branca a bordo de duas promessas que, logo nos primeiros dias, começou a cumprir: deu prazo de um ano para fechar a prisão de Guantánamo e mandou parar os julgamentos militares na base.

A ideia era que os terroristas presos fossem transferidos para o território americano – a proposta era comprar uma prisão de segurança máxima em Illinois – e julgados pela Justiça comum.

Vigorosa, eficiente e dona de uma tradição de mais de 200 anos, a Justiça americana faria o trabalho.

Deu tudo errado. Dois anos depois do prazo, a prisão de Guantánamo segue funcionando, o Congresso proibiu a compra da prisão em Illinois e os acusados serão julgados na base em Cuba.

Agora, depois de dizer o contrário em campanha, Obama afirma que o tribunal militar é superior à corte civil para julgar quem viola leis de guerra. Porque permite a proteção de fontes sensíveis, garante a segurança dos participantes e aceita provas colhidas no campo de batalha.

Dever cumprido O Tribunal de Nuremberg, em 1946, reunido logo depois da II Guerra (Foto: CORBIS / Latinstock)

DEVER CUMPRIDO -- O Tribunal de Nuremberg, em 1946, reunido logo depois da II Guerra Mundial (Foto: CORBIS / Latinstock)

Desde 2008 não chegam presos: terroristas são mortos onde atuam

Desde 2008, não chega preso novo a Guantánamo. Na era Obama, eles [os militantes que os americanos consideram terrorista] são mortos [onde estão atuando]. Em geral, com disparos feitos por aviões sem piloto – os drones.

No início, esses aviões eram usados apenas para vigiar o centro nervoso do terrorismo mundial – a fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Mas, depois, foram transformados em plataformas de lançamento de mísseis.

O então presidente George W. Bush, escaldado com os protestos de grupos de direitos humanos, pouco usou os aviões para matar terroristas do alto. Obama, o Prêmio Nobel da Paz, usa-os à farta. Entre setembro e outubro de 2010, deu mais ordens de ataque do que Bush durante todo o ano de 2008.

A prisão se esvazia com a saída de preso velho – mas, nesse caso, dentro de caixão. Os dois últimos eram afegãos. Um tinha 48 anos. Morreu no chuveiro, aparentemente de ataque cardíaco, depois de malhar. O outro, 37 anos, enforcou-se com roupas de cama na área de recreação. Foi o sexto caso de suicídio.

Eterno alvo de denúncias

Tanto pela má reputação que adquiriu quanto pelos defeitos que ainda carrega, Guantánamo é um eterno alvo de denúncias.

No aniversário de dez anos da abertura das prisões, os protestos se multiplicaram nos EUA, nos países aliados da Europa e no Oriente Médio.

Nos últimos dias, uma juíza da França pediu ao Pentágono para visitar a prisão numa investigação sobre tortura. Três cidadãos franceses, presos na fronteira entre Afeganistão e Paquistão e transferidos para Guantánamo, afirmam que foram torturados e estuprados na prisão da base americana. Um juiz da Espanha pediu para ouvir militares que serviram em Guantánamo – todos já reformados – no âmbito de uma denúncia de tortura feita por quatro espanhóis.

Na parte do julgamento de Al-Nashiri aberta à imprensa e a observadores, o juiz James Pohl foi rigoroso.

Ele conduziu o júri de soldados americanos que humilharam e torturaram presos em Abu Ghraib, no Iraque.

Faz um esforço genuíno para levar o tribunal de Guantánamo a atender às demandas da Justiça. Não será sua culpa se, decretada a inocência, o réu seguir preso.

No julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, no início dos anos 60, o governo de Israel preparou um show, mas os três juízes, indiferentes à política, cumpriram seu dever à risca.

Quase alheio a tudo isso, Al-Nashiri levanta-se da cadeira ao lado do tradutor, espreguiça-se, balança o corpo para um lado e para o outro e conversa, em pé, com seus advogados. Os seguranças se aproximam. Ele caminha com eles em direção à porta de saída.

Dá um sorriso e, antes de deixar o tribunal, lança um olhar através do vidro de segurança para a assistência – ali estão os familiares devastados pela morte de parentes no atentado ao USS Cole.

 

O tribunal invisível (que VEJA visitou)

A corte militar é uma instalação de segurança máxima. O prédio não pode ser fotografado, está isolado por um alambrado recoberto por uma tela preta com duas camadas de concertina – uma no alto, outra a meia altura. Ninguém pode chegar a menos de 15 metros da cerca.

Na entrada, há um posto de segurança que dá acesso a um corredor ao ar livre, que, por sua vez, desemboca em outro posto de segurança. Em cada posto, exibe-se documento e passa-se por detectores de metal. Não se entra na corte com aparelho eletrônico. Nem com caneta, lápis ou bloco de anotação com espiral. As regras de segurança são mais rígidas do que as dos campos de detenção.

Na sala da corte, no fundo, atrás de uma parede de vidro duplo à prova de som (a segurança não informa se é também à prova de bala), há 43 lugares para a imprensa, observadores de grupos de direitos humanos e convidados. Outras nove cadeiras são destinadas a familiares das vítimas, que podem ficar separados do resto do público por uma cortina azul.

Na primeira semana de trabalho do ano, havia oito familiares e colegas de militares mortos no atentado ao USS Cole. Rentes ao teto da sala, há cinco aparelhos de TV, que transmitem a cena que se vê através do vidro com quarenta segundos de delay, por segurança. Se algo acontece no tribunal que não pode ser divulgado ou registrado, a segurança tem quarenta segundos para deletar a cena e o som antes que cheguem ao circuito interno de TV.

A sala do tribunal, ampla e bem iluminada, tem carpete cinza, paredes brancas e mobília de câmara de vereadores de cidade do interior. As cadeiras são pretas, os móveis imitam a cor do mogno. Além da bancada do juiz e dos doze lugares para os jurados, há trinta cadeiras para a equipe de defesa e nove para a de acusação, metade com notebooks e microfones de mesa.

Há seis câmeras de TV na parede à esquerda do juiz, mais duas na parede às suas costas. É proibido fazer esboços da sala do tribunal, para evitar que se divulgue a localização exata das câmeras.

Na mesa à direita do juiz, há uma luz vermelha, que é acionada quando a corte aborda um tema confidencial. Nesse caso, o julgamento é interrompido. A plateia é removida e o circuito de TV, cortado.

Passada a fase confidencial, tudo volta ao normal. Sobre o uniforme militar branco, o juiz veste toga preta. Quando entra, todos se levantam. Fora isso, não há a solenidade comum aos tribunais. Não há o comando de “silêncio no tribunal”, nem malhete de madeira (a foto à esquerda é do site oficial da corte e apenas ilustrativa).

Se tem sede, o juiz bebe água no bico da garrafa de plástico sobre sua mesa. Nada de garçom com luvas brancas.

É um tribunal despojado, cru – e, a menos que as regras mudem, invisível aos olhos do mundo.

 

A casa dos presos

Há seis campos de detenção em Guantánamo, com 171 presos de 24 países.

Entre eles, nunca houve um brasileiro. São vigiados a intervalos de um a três minutos por 900 guardas.

VEJA visitou os campos V e VI. O campo V é mais antigo, custou 17,5 milhões de dólares, tem 100 celas de 8 metros quadrados e abriga os presos mais rebeldes – que, entre outras indisciplinas, arremessam sobre os guardas “excrementos e fluidos corporais”.

As autoridades não informam quantos presos estão ali, mas dizem que, em geral, 85% têm bom comportamento. O campo VI é mais novo, custou 34 milhões de dólares, tem 140 celas e recebe os presos obedientes.

A casa do presos (Foto: Jim Watson / AFP)

A casa do presos (Foto: Jim Watson / AFP)

Para um preso brasileiro, seria um luxo

Para qualquer preso brasileiro, o campo VI seria um luxo. Limpo e bem iluminado.

Os detentos fazem três refeições diárias, com direito a cardápio que respeita restrições alimentares por questões médicas ou religiosas. Na enfermaria, podem-se fazer até intervenções cirúrgicas. Eles têm direito a dentista, usam equipamentos de ginástica e praticam esportes coletivos – futebol é o preferido.

Podem ficar reunidos em grupos de dez a vinte. Nesses blocos, há uma área ampla, térrea, cercada por celas individuais no andar superior, como um mezanino. Os presos de cada bloco têm acesso à área térrea durante todo o dia. Ali, fazem as refeições em conjunto e circulam livremente.

Os de bom comportamento têm direito a frequentar a sala de aula, onde podem estudar inglês, ter noções de arte, ler revistas e livros retirados da biblioteca. Além do Corão, entre os livros preferidos está a série do bruxo Harry Potter. A televisão tem 22 canais, incluindo a Al-Jazira, em inglês. Na prateleira de filmes, podem escolher entre quinze títulos. Pelo rádio, podem ouvir onze estações. Têm acesso a PlayStation 3 e Nintendo DS. Mesmo os rebeldes têm direito a quatro horas de TV por semana, que veem numa cela individual, sentados numa poltrona, com os pés presos a algemas acimentadas no chão, de modo que não possam se levantar ou caminhar.

No Campo V, o dos rebeldes, não é permitido ver nenhum dos detidos. No Campo VI, os presos podem ser vistos pelos visitantes, através de um vidro escurecido com visão de um lado só. Esses vidros normalmente ficam cobertos por uma persiana.

Durante a visita de VEJA, havia cinco presos na sala de aula, todos com barba e vestidos de branco, a cor dos presos obedientes. Na área das refeições, apenas um detento, careca e de barba branca, sentado à mesa e, aparentemente, meditando.

Podem-se tirar fotografias, desde que sem o uso de flash, e sem que os detentos possam ser identificados. Se o rosto de um deles ficar quase visível, a segurança deleta as fotos.

Todas as comunicações entre guardas e detentos acontecem através de intérprete. Cada preso custa nada menos que 800 000 dólares por ano.

 

No meio do nada

Os Estados Unidos chegaram à Baía de Guantánamo em 1898, quando tomaram das mãos da Espanha o controle de Cuba.

Nunca mais saíram. Ocupam uma área de 120 quilômetros quadrados, do tamanho da Floresta da Tijuca, no Rio.

Quando tomou o poder, em 1959, Fidel Castro quis a área de volta, os EUA alegaram que o contrato de arrendamento era por tempo indeterminado e só podia ser dissolvido com o consentimento das duas partes.

O governo americano faz o pagamento mensal pela baía até hoje, mas o governo de Cuba não desconta os cheques para não caracterizar a ratificação do contrato que contesta. Há alguns anos, numa entrevista a uma emissora de TV, Fidel mostrou uma gaveta estufada com os cheques.

Baía de Guantánamo, no meio do nada (Mapa: Google Mapas)

Baía de Guantánamo, no meio do nada (Mapa: Google Mapas)

Desde que Fidel cortou água e eletricidade para a base, ela é autossuficiente. Produz a própria energia – em parte, de fonte eólica – e dessaliniza a própria água, abastecendo os mais de 5 000 moradores atuais, civis e militares. Entre eles, há trinta cubanos.

Em torno da base, não há nada além de vegetação. À frente, apenas as águas azuis e mansas do Caribe.

Para visitar a base, há voos de Miami e Fort Lauderdale, na Flórida, e da base aérea de Andrews, perto de Washington. São aviões de carreira convencionais, mas só embarca neles quem tiver autorização prévia do governo americano. Da base aérea de Andrews à base naval de Guantánamo, são três horas a bordo de um avião 757. A passagem, que se paga ao Tesouro americano, custa 400 dólares, ida e volta.

Ali, no meio do nada, os Estados Unidos encontraram o melhor lugar para levar os acusados de terrorismo depois do 11 de Setembro.

“O lugar menos pior”

Nos primeiros embates no Afeganistão dos talibãs, os americanos fizeram milhares de presos e não havia onde colocá-los. Houve grupos levados para um navio no Mar da Arábia. Outros ficaram num forte afegão do século XIX com paredes de barro. Era urgente encontrar mais locais.

Guantánamo foi “o lugar menos pior”, nas palavras do então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Guantánamo era um lugar seguro, afastado e, por ser território estrangeiro, tinha a vantagem de manter os terroristas longe do alcance da Justiça americana.

Os primeiros presos chegaram à base em 11 de janeiro de 2002. Entre eles, havia humildes agricultores afegãos confundidos com terroristas. Levaram anos para ser libertados.

A primeira leva ficou no Campo Raio X, construído no governo de Bill Clinton para abrigar refugiados de Cuba e do Haiti.

Logo nos primeiros dias, o fotógrafo do Pentágono fez o seu trabalho: fotografou os presos, de macacão laranja, vendados com óculos escuros e as mãos amarradas às costas. E as fotos foram inadvertidamente divulgadas.

Foi um escândalo internacional. Era o início e, num certo sentido, era também o próprio fim da aventura de Guantánamo.

(Reportagem publicada na edição impressa de VEJA de 1º de fevereiro passado)

13/02/2012

às 15:27 \ Vasto Mundo

Conheça os “drones”, os bombardeiros (e aviões-espiões) sem tripulação

Implacável: com mísseis guiados por laser, o Predador é o preferido por causar poucos danos colaterais

Implacável: com mísseis guiados por laser, o bombardeiro não tripulado Predador é o preferido por causar poucos dos chamados "danos colaterais" (Foto: Divulgação)

O esconderijo foi pelos ares

Entre identificar e destruir um alvo inimigo dos Estados Unidos mundo afora, a CIA precisava de três dias. Agora, com os aviões não tripulados, os drones, bastam cinco minutos. Há 7 000 deles em operação.

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Um avião sem piloto atuando nos céus do Iraque em 2009

De altitudes que podem chegar a 18.000 metros – quase o dobro da usada pelas aeronaves comerciais -, os bombardeiros não tripulados, os chamados drones, identificam veículos e pessoas no chão em questão de segundos. O que vem em seguida pode ser uma surpresa desagradável. Um disparo preciso, e o inimigo é eliminado.

Por sua eficácia, os drones tornaram-se a arma por excelência da guerra aérea. NO dia 20 de outubro passado, quando o ditador líbio Muamar Kadafi fugia da cidade de Sirte em um comboio, foi um drone Predator, americano, que primeiro disparou um míssil e interceptou os carros.

Em setembro, um drone do mesmo tipo enviou um projétil contra o carro de Anwar al Awlaki, o americano de origem árabe que estimulava ataques terroristas a partir do Iêmen. Ele e mais três morreram. Antes da execução de Osama bin Laden, em maio de 2011, um drone vigiava os passos do superterrorista saudita dentro de sua fortaleza no Paquistão.

Todos esses fatos ocorreram no intervalo de seis meses. Nos últimos dez anos, mais de 2 000 terroristas sentiram o céu cair em sua cabeça por obra da CIA, a agência de inteligência americana. Com 7 000 aparelhos em operação, não há canto no mundo onde eles possam se esconder para sempre.

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Kadafi teve seu comboio interceptado por um drone, ao tentar fugir de Sirte; Anwar al Awlaki foi morto por um Predador, quando voltava de carro de um funeral no Iemên; e Osama Bin Laden teve sua casa no Paquistão vigiada por um drone durante meses

No século XIX, balões lançavam bombas sobre o inimigo

A palavra drone, em inglês, quer dizer zangão. A imagem de um inseto sem ferrão tem pouco em comum com essas aeronaves, equipadas com mísseis e bombas guiadas a laser. O X-47B, um protótipo americano, poderá levar até 2 toneladas de bombas. Não se trata de uma ideia nova.

O primeiro uso de uma aeronave não tripulada carregada com armas letais data de 1849. Nessa época, os austríacos, que controlavam grande parte da Itália, lançaram 200 balões contra Veneza. Cada um levava 15 quilos de explosivos, os quais eram acionados após meia hora, por meio de cronômetros rudimentares.

Soldados empinavam os balões e os soltavam quando sentiam um vento favorável. Como a natureza nem sempre colaborava, alguns voltaram para a Áustria.

A tecnologia foi aprimorada no século passado e virou tendência.

Como parte do esforço para conter o terrorismo islâmico em regiões inacessíveis e perigosas do Iêmen ou do Afeganistão, os drones tornaram-se ferramentas indispensáveis. Com o recurso de um deles, o ataque pode acontecer cinco minutos depois de identificada uma vítima. Na Guerra do Golfo, em 1990, o mesmo processo consumia três dias.

Mesmo sob pressão para diminuir os gastos governamentais e militares, o presidente americano Barack Obama não pretende reduzir o investimento em drones. O Pentágono pediu um orçamento de 5 bilhões de dólares para desenvolver e produzir essas máquinas até o final de 2012. Como os drones não põem a vida de americanos em perigo, a chance de a verba ser aprovada é grande.

A ausência de pilotos e suas vantagens

A ausência de pilotos também traz outros benefícios para quem utiliza os bombardeiros ou aviões-espiões sem tripulação. Como não é preciso reservar espaço para o piloto ou inserir equipamentos de segurança, os drones são muito mais leves. Um caça F-18, como o que estava sendo avaliado para ser comprado pelo governo brasileiro, pesa cinquenta vezes mais que um Predator.

Menores, alguns drones podem ficar dois dias nas nuvens sem ser reabastecidos. As novas exigências feitas aos futuros pilotos sinalizam que essas aeronaves são o futuro da aviação de guerra. A aeronáutica americana hoje treina mais pilotos para dirigir drones em confortáveis poltronas de bases americanas do que para subir em caças de última geração.

O setor de aviões não tripulados é o mais dinâmico da indústria aeroespacial. Em 2011, foram gastos 6 bilhões de dólares com drones. Em 2012, será o dobro, de acordo com a consultoria americana Teal Group.

Há aparelhos de todos os tamanhos e funções. O Aerostat, por exemplo, é um dirigível de 60 metros de comprimento capaz de planar por meses a uma altitude de 4 000 metros preso a um cabo. Atualmente, monitora a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Já o Hummingbird (beija-flor, em inglês) tem 16 centímetros de envergadura e pesa 19 gramas. Pousa em parapeitos de janela e capta imagens com uma minicâmera. Está pronto e deve ser alistado nesta década.

Servem também para checar radioatividade ou auxiliar a polícia. O Brasil os utiliza

Muitos dos que já estão em uso passam longe das casas dos terroristas.

Em junho, um pequeno aparelho sobrevoou a central nuclear de Fukushima, no Japão, para medir o nível de radioatividade. Aparelhos equipados com câmera de visão noturna são acionados rotineiramente para vigiar os mais de 3 200 quilômetros de fronteira entre Estados Unidos e México.

A polícia da Inglaterra já adotou drones em um dos maiores festivais de música do país, o V. O equipamento avisava à polícia quando criminosos tentavam arrombar veículos no estacionamento.

O Brasil também já possui drones em ação. O Exército monitora a Amazônia com eles, enquanto a Polícia Federal os utiliza no combate ao tráfico de drogas pelas fronteiras com a Argentina e com o Paraguai. Um acordo está sendo negociado com a Turquia pela presidente Dilma Rousseff para desenvolver drones nacionais, os “vants”: veículos aéreos não tripulados.

Eles também matam civis inocentes

A principal crítica aos drones é quanto à morte indesejada de civis. Um estudo apontou que uma em cada três vítimas de ataques de Predators no Paquistão entre 2004 e 2010 era civil. O problema, naturalmente, é que distinguir um homem comum de um criminoso ou terrorista sempre representa dificuldade.

Muitas vezes, não é assim. Um vídeo feito por um avião não tripulado e divulgado na internet pela Força Aérea americana, sem data, mostra um carro sendo alvejado por um míssil no Iraque ou no Afeganistão. Em seguida, homens que estavam ao redor correram para a carcaça do automóvel, pegaram as armas dos mortos e as jogaram em um rio. Para o policial que chegasse depois ao local, os ocupantes do veículo seriam considerados civis. Para o drone, não.

A única coisa que os terroristas temem agora é que o céu caia sobre sua cabeça.

Ataque certeiro

O avião bombardeiro não tripulado, drone, recebe ordens de qualquer lugar do globo, por meio de satélites. Armado de mísseis guiados por laser, raramente erra o alvo

1. De uma base militar em território americano, o piloto dá a ordem para iniciar o voo

2. Em um país próximo ao destino, o drone se posiciona na pista. A decolagem é automática

3. Quando o aparelho já está no ar, o piloto assume o comando. Ele se comunica com a aeronave por satélites. Se a conexão cair, o avião retorna à base

4. No destino, as câmeras e os sensores de visão noturna e de movimento passam a ser controlados por um operador dos Estados Unidos. As lentes reconhecem rostos no solo

5. Uma vez identificado um rosto, os sensores rastreiam o indivíduo por 230 metros, automaticamente

6. Com o alvo na mira, o piloto dispara. O míssil mais utilizado é o Hellfire, de 40 quilos. Guiado por laser, ele acerta o alvo em cheio e nem sequer abre crateras no chão

7. Após o ataque, o drone permanece na área, coletando novas imagens. Depois de certificada a conclusão da missão, retorna à base

(Reportagem de Julia Carvalho e Tatiana Gianini publicada na edição impressa de VEJA de 02 de novembro de 2011)

Veja fotos de vários tipos de drones em atividade pelo mundo:

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Aparelhos deste tipo são usados sobretudo no Iraque e no Afeganistão (Joel Saget / AFP)

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"Drone "em base dos EUA: empresas travam batalha para conquistar um mercado bilionário (Foto: Getty Images)

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Outro tipo de aparelho não tripulado usado pelos EUA no Iraque (Getty Images)

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Um dos modelos pequenos e leves, o Shadow 200 UAV (Foto: James B. Smith Jr. / U. S. Army)

Israeli Troops Showcase Rapid Launch Surveillance Drone

Parece um aeromodelo acoplado a um balão, mas é um avião espião não tripulado utilizado pelas Forças Armadas de Israel (Foto: Uriel Sinai/Getty Images)

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Israeli Troops Showcase Rapid Launch Surveillance Drone

Outro modelo de miniavião-espião utilizado por Israel (Foto: Uriel Sinai/Getty Images)

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Homeland Security Begins Using UAV For Border Patrol

O Departamento de Segurança Interna dos EUA utiliza artefatos como o da foto para patrulhar a fronteira com o México (Foto: Elbit Systems / Getty Images)

 

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