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déficit público

18/11/2014

às 17:22 \ Vasto Mundo

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

Publicado originalmente a 17 de junho de 2011

Campeões-de-audiênciaA crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega depois da capital, os serviços de abastecimento de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.


23/08/2013

às 17:45 \ Política & Cia

Sardenberg: Recuperação da economia dos EUA mostra que a boa ação do Estado é a que abre espaço para o funcionamento do mercado

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado (Foto: AP)

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com uma enorme injeção de dinheiro no mercado: mas a recuperação veio pelas empresas e famílias, pelos investimentos e pelo consumo (Foto: AP)

Publicado no jornal O Globo

LEMBRAM-SE? CONSENSO DE WASHINGTON

E essa agora, hein? O motor da economia mundial está de novo nos Estados Unidos. E não porque os EUA abandonaram a prática do seu capitalismo, mas, ao contrário, porque a energia do mercado funcionou amplamente.

Ora, mas isso é óbvio, poderiam dizer. A recuperação do capitalismo só poderia vir da principal economia capitalista.

Pois é, mas não era essa a história que se contava, com ampla aceitação, há poucos quatro anos.

Lembram-se? A crise financeira de 2008/09, criação dos EUA, seria o muro de Berlim do capitalismo; a Zona do Euro desabaria com suas políticas de ajuste; os Estados Unidos seriam superados pela China; e os emergentes triunfariam com suas próprias forças, independentemente da liderança e da vontade dos ricos.

Dirigentes chineses diziam, entre irônicos e sérios: agora nós é que daremos lições ao Ocidente, inclusive na organização política. Líderes dos emergentes, Lula à frente, celebravam a política de intervenção estatal como a “nova economia”.

Analistas resumiam: sai o Consenso de Washington, entra o Consenso de Beijing.

O panorama visto hoje é o contrário disso. Começa pela recuperação dos EUA. Sim, o governo Obama gastou dinheiro público para impedir a quebradeira de bancos e grandes empresas. E o Federal Reserve, o banco central deles, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado.

Mas impedir o desastre não garante a retomada. Esta veio do ajuste feito pelas empresas e famílias, reduzindo endividamento, saneando finanças, renovando investimentos e consumo. Privados, sobretudo no setor imobiliário. E com inovações, como o extraordinário evento do gás de xisto – um resultado acabado da economia de mercado.

George Mitchell, engenheiro e geólogo, acadêmico e empreendedor no negócio de petróleo, desenvolveu, durante anos de pesquisa e experimentos, uma nova tecnologia de extração do gás de xisto.

Investiu dinheiro e conhecimento para simplesmente revolucionar o setor de energia. Quando o sistema finalmente funcionou, as imensas reservas no xisto tornaram-se economicamente viáveis e o preço do gás desabou nos EUA. Isso barateou investimentos em toda a indústria, especialmente na petroquímica, e reduziu gastos das famílias.

Tudo pelo mercado, não por políticas públicas. Mitchell teve espaço institucional para desenvolver sua livre iniciativa.

Isso foi um marco, mas é o conjunto da economia americana que se move. Bancos e empresas que foram salvos pelo governo estão recomprando ações e devolvendo o dinheiro público. E até o ajuste das contas públicas está sendo feito antes do esperado. Saiu atrapalhado por conflitos políticos, Obama reclamou de cortes de gastos que foi obrigado a fazer, mas quando foram ver, o déficit público despencava e a economia continuava andando com as pernas do setor privado.

Dizem que poderia ter andado mais se mantidos os gastos do governo. Pode ser, mas também é verdade que o arranjo das contas federais melhora o ambiente para os próximos meses.

Olhem agora para o outro lado. A China desacelera e começa a mudança de modelo. Qual mudança? Mais salário, mais consumo, e uma boa reforma no amplo setor estatal, de modo a privatizar, com o perdão da palavra, e dar mais eficiência a companhias do governo. Ou seja, mais mercado.

Nos países emergentes, a desaceleração é geral. Parte dela se deve à mudança da política monetária americana, que está levando capitais de volta aos EUA. Todos sofrem com isso, mas alguns sofrem mais.

Quais? Aqueles que foram apanhados com baixo crescimento, inflação alta, déficit nas contas externas e desarranjo nas contas públicas, circunstâncias que levam a uma desvalorização maior da moeda local – e que devem exigir juros maiores.

Pensaram no Brasil?

Pois é. Mas repararam bem no diagnóstico?

Falharam aqueles que desrespeitaram os fundamentos clássicos: não pode ter inflação (e 6% ao ano é, sim, inflação alta); não se pode aumentar gasto público sem adequado financiamento; as contas externas precisam estar equilibradas; e é preciso criar condições institucionais que estimulem os investimentos privados, especialmente no setor de infraestrutura.

Não é o que o governo Dilma faz, embora seja o que tem prometido. Mas assim de contragosto, porque, sem querer provocar, estão ali as bases do Consenso de Washington. Repararam no que pediram os empresários vencedores do prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras.

Em resumo, fica a lição americana. A boa ação do Estado é aquela que abre espaço para o funcionamento do mercado. E o bom gasto público, financiado sem truques, deve se concentrar em educação, saúde, segurança.

As voltas que a história dá.

09/05/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

Ora, ora, quem diria: a Itália, apresentada muitas vezes como sinal de bagunça e desgoverno, dá exemplo na União Europeia

Ora, ora, ora, quem diria?

Não sei se os amigos do blog prestaram atenção aos dados finalmente consolidados de 2012 sobre a situação das finanças dos países europeus – brutalmente afetados pela crise de 2008 –, a cargo do Eurostat, o organismo da União Europeia responsável por todos os dados oficiais.

Vou ajuda-los.

Há ali surpresas espantosas. Quem diria, por exemplo, que a desgraçada, estraçalhada, humilhada Grécia, com déficit público equivalente a 10% do PIB, estivesse melhor do que a Espanha, com assustadores 10,6% — o maior entre os 27 países-membros da União Europeia?

Sabem o poderoso Reino Unido, orgulhosa sexta maior economia do mundo?

Pois bem amigos, com 6,3% do PIB de déficit público, o país governado pelo primeiro-ministro David Cameron tem resultado i-gual-zinho ao de… Chipre, o pequeno país-ilha de 1 milhão de habitantes cujos bancos precisaram ser socorridos pela União Europeia para não levar a economia local para ao buraco, espalhando efeitos até para a Rússia.

A lista de surpresas é longa – e inclui, por exemplo, a Polônia ex-comunista (déficit de 3,9% do PIB) bem melhor do que a França eterna (4,8%).

A maior de todas, porém, vem da Itália: o país sem governo estável e até sem presidente da República até há poucos dia, agora pilotado pelo jovem primeiro-ministro Enrico Letta à frente de uma complicada e heterogênea coligação, frequentemente citado como sinônimo de desgoverno e bagunça apresenta o MELHOR resultados entre os 17 países cujos dados o Eurostat divulgou: déficit de 3% do PIB, rigorosamente dentro das normas da União Europeia.

Sinal de competência do governo de técnicos do primeiro-ministro Mario Monti, responsável por uma rigorosa e ousada e curta gestão (novembro de 2011 a abril deste ano).

O único dos 27 países da União Europeia a apresentar superávit foi a Alemanha – 0,2% do PIB.

09/12/2011

às 14:12 \ Vasto Mundo

Na Espanha em crise falta muita coisa, inclusive… neve para esquiar

A estação de esqui de La Bonaigua, na Catalunha, Espanha: faltando neve no inverno

A estação de esqui de La Bonaigua, na Catalunha, Espanha: faltando neve no inverno

A atual fase da Espanha realmente não é das melhores.

Falta emprego: há quase 5 milhões de pessoas desempregadas, 23% da população economicamente ativa.

Falta dinheiro: o déficit público bate recordes.

Falta produção: a economia está próxima do crescimento zero.

Agora, falta algo fundamental para as férias de inverno, em que a rede hoteleira especializada e as pistas de esquis nas diversas estações existentes no país estão apostando muito, inclusive quanto à afluência de turistas estrangeiros: neve.

A “seca” dos Pirineus

A zona mais afetada é a dos Pirineus, a linda cadeia de montanhas que ocupa faixa de 415 quilômetros entre os mares Mediterrâneo, ao sul, e Cantábrico, ao norte, predominantemente na divisa da Espanha com a França, e que engloba o principado de Andorra, concorrido destino nos meses mais frios do ano.

Somente na parte da cordilheira circunscrita à comunidade autônoma da Catalunha, o chamado “turismo de neve”, no qual se destaca a atividade do esqui, gera entre 325 e 400 milhões de euros anuais, de acordo com o governo local. Cerca de 28 mil empregos são criados a cada inverno para atender a demanda de visitantes.

Só que a temporada de esqui 2011-2012, que já era para estar aberta há duas semanas, ainda engatinha, com a maior parte das estações de esqui fechadas durante a maior parte do tempo, basicamente porque as temperaturas não baixaram o esperado e, a não ser para quem sobe a mais de 1.900 metros de altitude, simplesmente não é possível encontrar neve suficiente.

Como resultado, nos últimos dias, apenas 30% de toda a rede hoteleira catalã dedicada ao turismo invernal estava ocupada.

A polêmica e irônica solução: máquinas de neve artificial

E para as estações que já abriram, a solução parcial tem sido polêmica e irônica: o uso de máquinas fabricantes de neve. Masella, uma das estações catalãs, por exemplo, só começou a funcionar esta semana graças a esses aparelhos.

Resumidamente, as máquinas de fazer neve copiam o mecanismo que a natureza tem para criá-la. Na forma de um canhão, produzem um jorro de pequenas gotas de água e ar pressurizado.

Máquina de produzir neve em ação em Oberstdirf, na Alemanha: agora, em uso também na Espanha

Máquina de produzir neve em ação em Oberstdirf, na Alemanha: agora, em uso também na Espanha

Em condições propícias de umidade e temperatura (a partir de 1 grau abaixo de zero; se esquentar, nada adianta), esse jato esfria a ponto de se solidificar, formando a neve artificial que, mais seca, pode até ser mais propícia à prática de esqui e snowboarding do que a natural.

Em Candanchú, estação de esporte invernal localizada no pirineu de Huesca, em Aragón, comunidade autônoma vizinha à Catalunha, 23 destes canhões foram encomendados este ano. Trabalhando juntos, são capazes de produzir neve para até 12 hectares.

Muitas vezes as máquinas ajudam a resolver o problema, mas seu uso é, além de bastante irônico por motivos óbvios, contestado por ambientalistas, que apontam aspectos negativos em sua utilização, como a erosão que causa ao solo e seu alto consumo de energia elétrica e de água virgem das montanhas.

Além do mais, para os proprietários das estações de esqui, custa dinheiro, enquanto a neve natural é de graça.

Preços congelados

A tendência é que, conforme o frio europeu avance – se está a duas semanas do início oficial do inverno -, a situação se normalize nas estações do nordeste e norte espanhol, amortizando um pouco as perdas financeiras de quem trabalha nestas regiões.

Mas, mesmo assim, esta temporada não figurará nem de longe entre as melhores da história, inclusive para outros pólos do país, como a Sierra Nevada, na Andalucía, ao sul. Os 24,3 milhões de euros investidos este ano em estações de esqui da Espanha correspondem a 60% a menos do que o gasto em 2010.

O momento de abrupta contenção de despesas fez com que a rede dedicada a esta atividade turística congelasse – sem trocadilho – os preços, elaborando uma série de pacotes econômicos para a temporada que começa. Resta ver se o quanto esta fria – novamente, sem trocadilho – em que se encontra a Espanha repercutirá no setor quando a primavera chegar.

29/11/2011

às 14:40 \ Vasto Mundo

Crise europeia: de feriadões demais a aposentados fantasmas, sempre há gorduras que cortar

Fila de desempregados em Madri: velhos hábitos não mudam (Foto: La Vanguardia)

As economias europeias na alça da mira da crise financeira – Grécia, Portugal, Espanha e, agora, a Itália – têm pela frente o duríssimo desafio de cortar drasticamente despesas para reduzir o déficit público e readquirir a confiança dos credores e investidores e, ao mesmo tempo, dar um jeito de aumentar a receita induzindo o crescimento econômico.

Parece uma meta inalcançável, já que as cifras em jogo são de muitos bilhões de euros e que, com cortes e restrições já feitos, esses países estão no osso.

Cabelereiro, profissão de risco

Aqui e ali, porém, aparecem gorduras inteiramente cortáveis, de diferentes portes. Na Grécia, o governo do socialista Giorgos Papadopoulos, que deixou o poder para um governo de união liderado pelo técnico Lucas Papademos, havia recém-descoberto 5 mil mortos recebendo aposentadorias. Papademos, com enormes tarefas pela frente, vai atacar firme na Previdência Social, cuja legislação permite, além desse tipo de fraudes, trambiques como o de que cabeleireiro seja considerado “profissão de risco” e seus profissionais possam se aposentar com 45 anos.

Em Portugal, o governo conservador do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que assumiu em junho, está adotando uma série de medidas de largo alcance – mas algumas, de pequena monta, também contam: cortou quatro dos 13 feriados nacionais, podando feriadões e dias úteis “matados”.

Cada feriadão, 3 bilhões de euros de perda

O futuro chefe do governo da Espanha, o conservador Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), ainda não divulgou as medidas duras que prometeu durante a campanha eleitoral, entre outras razões porque diz não conhecer em detalhes a situação que vai herdar do governo socialista em fim de mandato a partir da posse, no dia 22 ou 23 de dezembro.

Entre as micromedidas que poderia adotar, com resultados expressivos, porém, está sugestão da Confederação Espanhola das Organizações Empresariais (CEOE) que vai na linha de Portugal: racionalizar, por lei, os feriados, transferindo – como fazem os americanos – para segunda ou sexta-feira os dias festivos.

A CEOE calcula que cada feriadão, ou puente (“ponte”), custe à economia da Espanha nada menos do que 3 bilhões de euros (7,4 bilhões de reais).

E só a comunidade de Madri, onde fica a capital, tem 14 feriadões anuais, sendo que a média geral do país não é diferente.

Fim de semana começa sexta às 14 hs, e há a “siesta”

A CEOE não sugeriu, mas bem que poderia, que a maior parte das empresas não começassem o fim de semana às duas da tarde de sexta-feira. Ou pensar em alguma providência sobre a siesta num país em que, mesmo no auge da temporada turística, durante os meses quentes de julho e agosto, com milhões de visitantes, quase todo o comércio fecha tranquilamente das duas às cinco da tarde, incluindo farmácias e bancas de jornais.

Com crise e tudo, e o país precisando trabalhar e crescer para absorver a massa de desempregados que tem — mais de 21% da população ativa, mais de 5 milhões de pessoas — essas molezas continuam na Espanha. São velhos hábitos que desafiam a crise.

22/10/2011

às 17:00 \ Política & Cia

Armínio Fraga: “Os grandes da economia mundial vivem dias dificílimos. É um quadro assustador. Há muito risco no ar”

Armínio Fraga (Foto: Ricardo Fasanello)

Armínio Fraga, um dos mais brilhantes economistas brasileiros: o país ainda será posto à prova pela crise (Foto: Ricado Fasanello / VEJA)

Amigos, num quadro de incertezas econômicas como o que vive o mundo, e do qual o Brasil não escapa, é muito interessante ouvir a abalizada análise de Armínio Fraga, um dos mais brilhantes economistas brasileiros, com vasta experiência setor público e no mercado financeiro, cuja empresa gere, no momento, ativos de 8 bilhões de dólares de clientes.

Esta entrevista, concedida ao repórter Giuliano Guandalini, está na edição de VEJA atualmente nas bancas.

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O grande teste ainda virá

Para o ex-presidente do Banco Central, o corte na taxa de juros foi um passo arriscado e ousado. Ele prevê tempestades financeiras no mundo e diz que o Brasil será testado

Em três décadas de vivência diária com os mercados financeiros, o economista carioca Armínio Fraga Neto passou por crises de grande magnitude – ora à frente de fundos de investimento, ora em cargos públicos como a presidência do Banco Central, que ele ocupou de 1999 a 2002.

Como teve a missão de preservar patrimônios bilionários durante eventos financeiros cataclísmicos, Fraga está em posição de avaliar o furor da tempestade econômica em gestação no mundo. “O quadro é assustador. Os principais blocos econômicos vivem dias dificílimos” diz.

Nesse cenário, ele acha defensável, ainda que ousada, a decisão do Banco Central brasileiro de reduzir a taxa de juros, mesmo com a inflação anual acima de 7%. Aos 54 anos, Fraga é sócio do Gávea, fundo que administra 8 bilhões de dólares e teve 55% do capital comprado recentemente pelo banco americano J.P. Morgan.

O Banco Central (BC) baixou mesmo a guarda no combate à inflação?

O ano de 2010 foi difícil para o BC. Foi um ano eleitoral, o que tradicionalmente implica forte aumento dos gastos públicos. A economia ficou superaquecida. Claramente, o BC começou o ano de 2011 atrasado no combate à inflação e, diante dessa constatação, passou a elevar os juros básicos, a taxa Selic.

De repente, em agosto, deu um cavalo de pau e diminuiu a Selic. Ora, é claro que a decisão surpreendeu muita gente. Eu a classifico de ousada. Para muitos analistas, foi o que bastou para acenderem o sinal de alerta, temerosos de que aquela decisão sinalizava com clareza que a inflação não entraria mais em trajetória de queda.

Esse é mesmo o papel dos analistas. Mas é verdade também que as circunstâncias mudaram nos últimos meses. Ficou evidente que a economia mundial vem se desacelerando, e tudo leva a crer que esse processo afetará de alguma forma impactante a economia brasileira. Some-se a isso o que parecem ser decisões firmes do governo, primeiro, de conter o avanço nos gastos públicos, pelo menos nos níveis assombrosos do ano passado, e, segundo, de cumprir rigorosamente a meta do superávit primário.

A circunstância externa e as determinações do governo aliviam mesmo a tarefa do Banco Central de conter a demanda, aumentando a taxa de juros. O somatório desses fatos produz um pano de fundo, no atual momento, capaz de justificar o corte na taxa de juros.

(Atualização: nesta quarta, 19, o Copom baixou novamente a taxa de juros, desta vez de 12% para 11,5% ao ano, por decisão unânime de seus integrantes).

É razoável para o BC agir com base em uma conjectura, a de que a crise externa vai nos afetar?

Há riscos, evidentemente. Mas o BC é muito bem informado sobre assuntos internacionais. Seu presidente e seus diretores participam de frequentes reuniões com os presidentes dos principais bancos centrais e autoridades econômicas do mundo.

A portas fechadas, essas pessoas são muito francas em seus prognósticos e análises. Isso torna o BC brasileiro detentor de informações melhores do que as disponíveis para o mercado em geral.

Sem dúvida, mas há a sensação generalizada de que a prioridade da autoridade monetária agora é preservar o crescimento econômico, mesmo que isso signifique tolerar mais inflação…

De fato, chamou atenção a maior proximidade do atual presidente do BC, Alexandre Tombini, com o Ministério da Fazenda e também com a própria presidente Dilma Rousseff. A princípio, não considero isso negativo. Eu vivi situações semelhantes quando fui presidente do Banco Central.

Desde que o BC consiga trabalhar sem pôr em jogo o mandato de perseguir a meta de inflação, a proximidade de que falei acima pode até ser positiva. Mas, se o diagnóstico usado pelo BC para baixar os juros, embora lógico e razoável, não se mostrar acertado e a inflação não cair, a situação mudará radicalmente.

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Enquanto a proximidade de Alexandre Tombini com o Ministério da Fazenda e a própria presidente não colocar em jogo a meta da inflação, ela pode ser positiva, diz Armínio Fraga (Foto: Gustavo Miranda/Agência O Globo )

De que maneira?

O mercado está sempre testando o Banco Central – se ele falhar, terá de reconhecer isso na prática, tirando o pé do acelerador e até mesmo, eventualmente, voltando a aumentar a taxa de juros. Num quadro desses, se o BC fraquejar e não agir, ficará claro que o regime de metas de inflação foi mesmo abandonado.

Portanto, ainda não existem elementos para crucificar o BC e decretar que o regime de metas foi abandonado. Vamos acompanhar os próximos meses com atenção. Aí então saberemos de fato se as suspeitas de abandono da meta procedem ou não.

Quero crer que não.

Sob a proteção do anonimato, altos funcionários do governo dizem que o objetivo é baixar a taxa Selic dos atuais 12% para menos de 10% no próximo ano. Isso é crível?

Se for verdade, estaremos entrando em terreno minado. Mesmo falando em público, acho que o governo brasileiro de modo geral deveria ser bem mais sisudo ao tratar de política econômica. Estão falando demais.Esse ruído atrapalha o trabalho do Banco Central.

Infelizmente não podemos fixar, neste momento, uma meta para a taxa de juros. O que é razoável e desejável é ter compromisso inequívoco com a queda dos juros a longo prazo, sabendo que para chegar lá é preciso construir as condições necessárias. Ao estabelecer uma meta de queda de juros em prazo tão curto, qualquer BC arrisca perder credibilidade. O resultado é previsível. Os investidores ficam com o pé atrás, o risco Brasil – ou seja, a percepção dos perigos de aplicar dinheiro no país – aumenta.

Piora ainda mais o quadro quando os governos tentam capitalizar politicamente as decisões sobre juros dos bancos centrais. Essas atitudes criam ansiedade, abalam as expectativas e atrapalham até mesmo os próprios objetivos dos governos.

Por tudo o que o senhor viu e ouviu de falatório exagerado, o caso brasileiro tem conserto?

Não acho que as autoridades já causaram um dano permanente à credibilidade do Banco Central. Pelos modelos estatísticos do próprio BC, a convergência da taxa de inflação para o centro da meta só ocorreria em 2013, o que justifica uma dose maior de cautela.

Mas não se pode pôr tudo em modelos. Alexandre Tombini tem reafirmado com ênfase sua previsão de que a inflação cairá para 4,5% em 2012. Parece difícil, mas o leque enorme de incertezas na economia mundial tem seu peso. Estamos correndo riscos, sim. Isso não é segredo. O BC vive isso em seu dia a dia.

Quando o BC prioriza o crescimento, a que riscos se sujeita?

Existe um certo consenso de que o crescimento depende, em última instância, de investimentos, eficiência do estado e melhora na educação. O BC consegue, quando muito, não atrapalhar. O BC pode e deve suavizar as oscilações da economia, mas a taxa média de crescimento de longo prazo dependerá daqueles fatores sobre os quais os bancos centrais não têm influência direta.

A principal função do BC é manter a inflação em um patamar baixo e previsível. Em segundo lugar, quando preciso, deve tentar combater os efeitos de uma recessão. O certo é que não há, a princípio, conflito entre combate à inflação e crescimento econômico.

O Brasil está preparado para enfrentar um recrudescimento da crise internacional?

Dentro do possível, acredito que sim, bem mais que no passado. O Brasil é uma economia pouco aberta. Esse é um aspecto negativo, mas neste momento pode ser algo favorável. O câmbio é flutuante, o que reduz a probabilidade de sucesso de eventuais ataques especulativos à moeda. Temos mais de 350 bilhões de dólares em reservas internacionais. Os bancos, de modo geral, estão capitalizados e o sistema financeiro é bem administrado.

Não temos condições de evitar completamente os efeitos de uma deterioração da economia mundial, mas temos condições de amenizar esses efeitos.

Se estamos tão bem, por que a cotação do dólar dispara sempre que há um susto vindo de fora?

O Brasil tem um peso crescente nas carteiras mais especulativas de investimentos. Quando a crise se torna mais aguda, há uma liquidação forçada e o dólar dá suas estilingadas. Além disso, sofremos recentemente – e falo aqui também como presidente do conselho da BM&F Bovespa – com medidas que engessaram o mercado financeiro.

Não sou contra medidas prudenciais para evitar o endividamento externo de curto prazo. Esse foi o tema da minha tese de doutorado, concluída em 1985. Tenho ojeriza a excesso de capital de curto prazo. Mas o governo foi além do necessário. Essa mão pesada não ajuda quando há piora do quadro externo.

O empresário brasileiro precisa ter acesso ao capital mais barato de fora para investir. Não faz sentido penalizar a aplicação de estrangeiros em ações.

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"O protecionismo é um mecanismo que diminui as opções do consumidor, tira dinheiro da população e dá poder excessivo a setores econômicos beneficiados" (Foto: Vanderlei Almeida/AFP)

O governo ampliou seu arsenal de ações contra o aumento das importações, encarecendo carros e bens de consumo importados. O argumento é que outros países também procuram se defender de concorrência desleal, em especial da China. Isso é do jogo?

Pode ser que sim, em um ou outro caso específico. No caso da China, justifica-se uma atitude comercial mais firme. O mundo inteiro sofre com a concorrência dos asiáticos. Isso em boa parte é mérito deles. Mas, no agregado da economia, é negativo.

O protecionismo é um mecanismo que diminui as opções do consumidor, tira dinheiro da população e dá poder excessivo a setores econômicos beneficiados. Recorrer a barreiras mostra uma predileção do governo por favorecer certas empresas em detrimento do cidadão.

Sinto hoje o país acompanhando o pêndulo global e abraçando ainda com mais ardor o capitalismo de Estado – que nunca deixou de existir aqui. É um modelo com ênfase em beneficiar empresas escolhidas, e não em deixar o mercado funcionar. É um mau modelo. Combinado ao protecionismo, é ainda pior.

Ao elegerem Dilma Rousseff, os brasileiros deram seu voto a esse modelo estatal?

Penso que sim. Foi de fato a escolha do eleitor. A própria presidente disse isso em seu discurso de posse. Mas não acredito que precisamos achar que é do interesse geral a existência de um Estado grande e ineficiente. O governo ocupa um lugar enorme, mas não investe no setor privado nem o estimula a assumir riscos.

É um quadro propenso a nos frustrar. Todo mundo quer crescer, mas não existe mágica. É necessário investir mais e melhor, além de educar melhor. Se isso for feito em ritmo lento, o crescimento será lento.

Qual deve ser o papel do governo na economia?

De vez em quando, a curto prazo, o governo pode dar um empurrão. Mas é ilusão achar que isso leva ao crescimento duradouro. Os governos precisam atacar as questões profundas de longo prazo. Os governos precisam assegurar a existência de condições ideais para incentivar investimentos, sem os quais não se cresce sem inflação. Crescer com inflação é ilusório também, porque a economia acaba encolhendo.

No momento, não vejo esse equilíbrio de políticas de curto e longo prazo nem nos Estados Unidos. Os americanos têm a economia mais eficiente, criativa e flexível do mundo, mas precisam fazer reformas. O déficit público é enorme, a dívida pública tem crescido rapidamente e os gastos com saúde estão em trajetória explosiva.

Fachada Banco Central Europeu

"A Europa tem se mostrado incapaz de se antecipar aos fatos e apresentar uma reação convincente" (Photo by Ralph Orlowski/Getty Images)

A Europa está ainda pior?

A Europa tem se mostrado incapaz de se antecipar aos fatos e apresentar uma reação convincente. Já se sabia que a União Europeia passaria por momentos difíceis. A união é incompleta. É monetária e aduaneira, mas não fiscal nem política. As respostas serão de difícil execução e graduais. Os instrumentos de política econômica estão no limite.

Em tese, nos Estados Unidos a recuperação seria mais simples. Mas o país está dividido e polarizado. Não há ambiente político para reformas. Parece só haver chance para isso depois da eleição presidencial do próximo ano.

Até na China há sinais de desgaste. Como o governo chinês não é muito transparente, as análises tendem a convergir para o pior cenário. Os grandes blocos da economia mundial vivem dias dificílimos. É um quadro assustador. Há muito risco no ar.

05/06/2011

às 1:20 \ Vasto Mundo

Eleições: Portugal vota hoje com a corda no pescoço

As eleições em que hoje, domingo, dia 5, 9,6 milhões de portugueses estão convocados para eleger os 230 deputados da Assembleia da República se devem ao que parece uma politicamente incorreta piada de português.

De fato, as eleições só ocorrerão porque, no dia 23 de março passado, a oposição conservadora se opôs aos rigores do Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) do primeiro-ministro socialista José Sócrates – e agora os conservadores, se eleitos, irão colocar em prática um programa ainda mais duro, com base justamente no PEC, aprovado pelo governo em fim de mandato e por eles próprios, e imposto pela União Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI.

Pode-se dizer que Portugal está votando com a corda no pescoço. Leiam a seguir e vejam se não é o caso.

O acordo de ajuste incluiu a oposição

O plano é condição para que os três organismos emprestem 78 bilhões de euros (cerca de 180 bilhões de reais) para evitar a quebra do país, em crise aguda desde a explosão financeira de 2008, com economia paralisada, mais de 12% de desempregados e bancos em situação apertada. O acordo da chamada troika com Portugal foi referendado não apenas por José Sócrates, mas pelos dois principais partidos de oposição, o Social Democrata (PSD), de centro-direita, e o Centro Democrático Social (CDS), à direita do PSD. Os partidos de esquerda, minoritários, recusaram-se a participar dos entendimentos.

Imagine-se o estímulo do eleitor português para votar num pleito em que, seja quem for o eleito – Pedro Passos Coelho, líder do Partido Social Democrata, de centro-direita, que lidera com alguma vantagem as pesquisas de intenção de voto, ou José Sócrates, de centro-esquerda –, o programa mais importante a ser implantado será o mesmo, as obrigações serão idênticas. O precedente mais recente em matéria de entusiasmo eleitoral não é bom: no pleito presidencial de janeiro passado, em que foi reeleito o presidente Aníbal Cavaco Silva (PSD), a abstenção alcançou espantosos 52% do eleitorado.

Passos Coelho e José Sócrates: partidos diferentes, obrigações iguais a cumprir

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21/10/2010

às 14:51 \ Vasto Mundo

O blog errou: Grã-Bretanha vai cortar “só” 490 mil cargos públicos. E quer diminuir o tamanho do estado

Comentamos ontem as medidas de austeridade em curso na Europa para fazer frente à brutal crise financeira de 2008 e incluímos a informãção de que o governo do primeiro-ministro David Cameron iria realizar profundos cortes de gastos que incluiriam a demissão de 600 mil funcionários.

O número finalmente anunciado ficou em 490 mil, ao longo de 4 anos. Cameron está enfrentando corajosamente o maior déficit público da história, que atinge espantosos 220 bilhões de dólares, cerca de 11% do PIB do quinto país mais rico do mundo.

Como os cortes atingirão as Forças Armadas, não se sabe como ficará o comprometimento britânico em paises conflagrados como o Iraque e o Afeganistão, onde os contingentes do Reino Unido só são superados pelos dos Estados Unidos.

A coalizão de governo entre conservadores e liberais-democratas deverá também promover mudanças na Previdência Social, cortar benefícios e tomar outras medidas drásticas.

A oposição trabalhista e grupos de esquerda acusam Cameron de querer reduzir o tamanho do estado — quando este foi, exatamente, um dos propósitos anunciados na campanha eleitoral pela coligação que venceu as eleições.

A redução do gigantismo estatal britânico promovida pela primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher (1979-1990) tirou a Grã-Bretanha da decadência, renovou seu parque industrial, permitiu grande avanço tecnológico, criou empregos e dotou o país de um capitalismo dinâmico e competitivo.

 

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