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‘Steve Jobs é o Henry Ford da tecnologia’

Estudioso da Apple, Leander Kahney afirma que, a exemplo do pai da linha de montagem, o pai da Apple inovou ao levar seu produto a todo consumidor

Leander Kahney é um dos principais especialistas do universo Apple. Seus livros A Cabeça de Steve Jobs, Cult of Mac (Culto do Mac) e Cult of iPod (Culto do iPod) são sucessos de venda em todo o mundo e fizeram de seu autor uma fonte obrigatória quando a tarefa é investigar a trajetória e o sucesso da marca. Para ele, Jobs já tem um lugar garantido na história: “Ele é o Henry Ford da tecnologia.” Não é pouco – e faz sentido. Ford (1863-1947) fundou a montadora que leva seu nome e foi responsável pelo desenvolvimento da chamada linha de montagem, método revolucionário que deu escala à produção (de veículos primeiro; depois, de todos os tipos de produto) e concretizou um sonho do próprio empresário: popularizar seu produto a tal ponto que até os operários que participavam da fabricação dos carros pudessem adquiri-los. “Steve Jobs é o maior inovador na indústria da tecnologia voltada ao consumidor”, diz Kahney, que, por isso, classifica o pai da Apple não como um inventor ou empresário, mas como artista. Confira a seguir, a entrevista que ele concedeu a VEJA a partir de São Francisco, na Califórnia, onde vive.

Steve Jobs é um CEO sem igual. Por quê? Jobs tem valores diferentes dos demais. Muitos na indústria de tecnologia são engenheiros e tem uma mente muito técnica para fazer produtos que podem ser facilmente usados pelo público em geral. Eles começam com a tecnologia e ignoram a experiência de usuário. Jobs se parece mais com um artista, que faz produtos de alta tecnologia para os consumidores. Ele começa com a experiência e faz o caminho inverso até a tecnologia.

Jobs ainda é muito importante para a Apple? Claro que ele é muito importante. Jobs é a Apple e a Apple é Jobs. Mas, por outro lado, ele recriou a empresa à sua imagem, e ela irá continuar bem sem ele por muitos anos.

Biógrafos de Jobs sempre citam o “bom Steve” e o “mau Steve”, em referência à generosidade e ao rigor dele. Qual dessas características foi mais efetiva no trabalho dele á frente da Apple? O “mau Steve’ é muito mais famoso, mas o “bom Steve” é mais importante. A carreira dele é marcada por uma cadeia de colaborações criativas, com Steve Wozniak, Jon Rubinstein, Avadis Tevenian, Jonathan Ive e John Lasseter, entre outros. Você não consegue fazer um grande trabalho com essas pessoas se gritar o tempo todo com elas.

Qual será o legado de Jobs? Steve Jobs é o maior inovador na indústria da tecnologia voltada ao consumidor. Ele é o Henry Ford da tecnologia.

E qual a maior contribuição dele para a Apple? Eu diria que são cinco: o Apple II, primeiro PC voltado ao consumidor comum; o Mac, primeiro PC de para consumidores que fez sucesso; o iPod, primeiro produto de tecnologia com um serviço vertical integrado e um ecossistema de mídia; e o iPhone e o iPad, que são verdadeiramente os primeiros computadores pessoais feitos para consumidores comuns. Eles fazem o Mac parecer primitivo.

Como será a Apple sem Steve Jobs? Acho que a empresa ficará bem sem Jobs, mas não terá a mesma mágica. Ele é insubstituível. Mesmo assim, a Apple sempre foi uma empresa criativa, e sua cultura garantirá sua sobrevivência por muitos anos, talvez até décadas, assim como Disney, Ford, HP e IBM.

Como a empresa se integrará ao futuro da indústria? Interfaces com telas sensíveis ao toque ou por comandos de voz serão, claramente, o futuro. Nós veremos tablets especializados para leitura, para assistir à TV, para comunicações e criatividade. O teclado e o mouse se tornarão dispositivos de nicho. A maioria das pessoas irá interagir com computadores usando os dedos ou voz, até mesmo – ou especialmente – no trabalho. E isso é obra da Apple.

As ações da Apple podem perder valor sem Jobs? Acho que sim, as ações irão cair obviamente. Mas tenho certeza de que a queda não irá durar muito. Os investidores verão que é uma empresa forte e as ações subirão novamente.