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No Brasil, Baidu terá desafio: ser relevante fora da China

Buscador se prepara para oferecer serviço no país, onde terá de superar a fidelidade dos usuários ao Google e principalmente suas próprias limitações

Por Rafael Sbarai e Renata Honorato 25 fev 2012, 14h10

Baidu em números
Baidu em números VEJA

Soberano no mercado brasileiro de buscas, o Google deverá ganhar em breve mais um competidor. O chinês Baidu é também um gigante, avaliado em 45 bilhões de dólares: no mundo, o número de pessoas que recorrem a páginas do serviço, criado em 2000 pelo segundo homem mais rico da China, Robin Li, já chega a um quarto do registrado pelo Google. Em 2011, cresceu a uma taxa quase três vezes superior à do rival, quando considerados os números de visitantes únicos (confira os números do setor). A ambição da companhia é resumida pelas palavras de seu porta-voz, Kaiser Kuo, em entrevista a VEJA: “Queremos abraçar o mercado mundial.” Kuo não confirma nem desmente a informação de que o serviço irá aportar no Brasil. No mercado de internet, contudo, o fato é dado como certo. Indício disso é que a companhia já designou um brasileiro – Wesley Barbosa, de 25 anos, ex-executivo de uma desenvolvedora de games para redes sociais – como gerente de negócios para o Brasil.

O país será o quinto território a contar com os serviços do Baidu – que, segundo um poema em mandarim feito há 800 anos, significa “busca da perfeição”. Até agora, além da China, ele só tem páginas dedicadas a pesquisas no Japão, Egito e Tailândia. Relevante mesmo, contudo, ele só é na China, onde responde por 78% das buscas feitas por 513 milhões de usuários de web, a se confiar nos dados da CNNIC (China Internet Network Information Centre), órgão do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação – afinal, ditaduras não primam pela transparência. Seu desafio é tornar-se relevante fora da terra natal e em um território (o Brasil) onde a concorrência e a expressão são livres. Continue a ler a reportagem

A primeira missão do Baidu por aqui é minar os laços de fidelidade que únem usuários brasileiros e Google, preferido por nove em cada dez pessoas. A Microsoft pode dar seu testemunho sobre a dificuldade de fazer esses usuários procurarem outro parceiro. Em 2009, a gigante do software fez uma campanha vultosa para apresentar seu buscador, o Bing, ao mercado local. “Três anos depois, o resultado é pífio”, diz Walter Teixeira Lima Junior, professor da Universidade Metodista de São Paulo e especialista em tecnologia e comunicação. Os números de 2011 são eloquentes a respeito desse fracasso. No período, as empresas andaram em sentidos opostos: o número de usuários que visitaram a página do Google cresceu 18%, batendo em 44,4 milhões de pessoas em dezembro, ante a queda de 26% do Bing, mostram dados da empresa de medição on-line comScore. O tamanho do abismo entre os dois praticamente dobrou, e agora o Google é quase seis vezes maior do que o rival. “É comum ver gente trocando de redes sociais e serviços de e-mail, mas não de buscador: isso não acontece”, afirma Ricardo Almeida, diretor-geral do i-Group, empresa especializada em estratégias web.

Fidelidade ao buscador é uma questão de hábito, mas também de qualidade, é claro. Essa será provavelmente a maior barreira para o Baidu no Brasil. Em outubro de 2010, o Google aprimorou o seu já bem-sucedido sistema de indexação de conteúdo – processo pelo qual os buscadores armazenam páginas da web em seus servidores, identificando ali as informações úteis a futuras pesquisas de usuários. O sistema Caffeine, como é conhecida a indexação do Google, investiga todas as páginas da web e identifica mais de 200 fatores relacionados a elas. O objetivo é garantir que as páginas consideradas mais relevantes pelos sistema ganhem destaque em resposta a uma busca. Bing e Baidu não contam com tal refinamento técnico. “Raramente encontro o que estou procurando no Baidu, nem mesmo quando realizo uma busca em mandarim”, afirma a brasileira Érica Benites Manssour, especialista em mídias digitais que vive na China há quatro anos. Para crescer no Brasil ou em outro mercado, o Baidu terá de aprimorar seu mecanismo de pesquisa, diz Fábio Ricotta, especialista em SEO (search engine optimization), técnica de otimização de pesquisas na web. “A empresa terá de programar um sistema de autocorreção na ferramenta para fazer frente aos algoritmos desenvolvidos pelo Google, que combinam dados com mais eficiência.”

Para alcançar a liderança na China, o Baidu se aproveitou de uma mescla de fatores. Isso inclui entendimento profundo dos gostos e necessidades locais, mas também cooperação com os esforços de Pequim para controlar a internet. Lá, o governo mantém um poderoso sistema de filtros, chamado Grande Muralha de Fogo (Great Firewall), uma alusão à construção milenar. O Google não concordou com as limitações impostas pelo governo e, desde março de 2010, redireciona sua página chinesa aos servidores de Hong Kong, uma tentativa de evitar a censura. O Baidu ganhou ainda mais terreno no país. A empresa tem uma resposta protocolar para tratar do assunto: “Nenhuma outra empresa faz mais que o Baidu na tentativa de expandir os horizontes de informação dos usuários de internet chineses. Nossa missão é fornecer a melhor e mais justa resposta às pessoas que buscam na internet”, diz seu porta-voz. Érica Manssour, contudo, relata o que se passa na vida de um usuário que faz buscas no serviço a partir da China. “Se a busca tem qualquer conotação política, os resultados são amenos e favoráveis ao governo”, diz.

Gigantes de busca
Gigantes de busca VEJA
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