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Modelo de IA em escala é caro e extrativista, mas tem alternativas, diz especialista

Autora de 'O Império da IA', lançado no Brasil pela Rocco, jornalista americana Karen Hao fala sobre modelo de ferramenta imposto pelo pioneirismo da OpenAI

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 jul 2026, 20h00 | Atualizado em 15 jul 2026, 15h01
Modelo de IA em escala é caro e extrativista, mas tem alternativas, diz especialista Priorizar nos meus resultados Google

A inteligência artificial generativa esconde uma engrenagem voraz por trás de suas inovações. Essa realidade é exposta pela premiada jornalista investigativa Karen Hao no livro O império da IA, recém-lançado no Brasil pela Editora Rocco. Eleita pela Time como uma das pessoas mais influentes no setor, Hao investigou de perto a OpenAI e as ambições de seu líder, Sam Altman. Na obra, a autora documenta como a atual corrida tecnológica exige altos custos ambientais e a exploração de trabalhadores precarizados para concentrar poder e lucros nas mãos de gigantes multinacionais. A seguir, os principais trechos da entrevista com a autora para VEJA.

Como você avalia o desenvolvimento recente da inteligência artificial, especialmente com a explosão das tecnologias generativas e de agentes autônomos dos últimos anos? O que vimos recentemente não muda a tese central do meu livro: o desenvolvimento atual da IA é profundamente imperialista, e as empresas na vanguarda operam como novas formas de império. A razão para isso é que elas baseiam sua abordagem tecnológica em uma escala massiva de dados, poder computacional, recursos e dinheiro. Essa busca desenfreada por escala exige extração, e os recursos são tirados de indivíduos, criadores, da força de trabalho e de comunidades, afetando especialmente o Sul Global.

Diante de toda essa extração, você diria que a tecnologia da IA em si é boa ou ruim? Eu não penso nesses termos porque a IA é, na verdade, uma coleção de diversas tecnologias. Dizer que a IA é apenas uma “ferramenta” neutra, que ganha sentido apenas pelo modo como é usada, é uma visão extremamente limitada. Ela já impacta a sociedade duramente em seu próprio processo de produção. Existe toda uma economia política, uma reconfiguração da Terra e até a perturbação de sistemas educacionais para viabilizar as demandas dessas empresas.

É como discutir se “todo meio de transporte é bom ou ruim”. Obviamente, há transportes com um impacto mais positivo, e nós preferimos investir em veículos elétricos do que em caminhões que consomem quantidades absurdas de combustível para levar coisas de um ponto a outro. Os modelos gigantescos de IA generativa com os quais o setor está obcecado no momento representam uma relação custo-benefício péssima, enquanto há alternativas e abordagens melhores que cumprem funções semelhantes.

Você mencionou que os grandes modelos de linguagem têm uma relação custo-benefício péssima diante de alternativas melhores. Há alternativas para que a IA exista sem causar danos?

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Com certeza. Os problemas são consequências diretas da abordagem focada em “escala” que as gigantes adotaram na corrida para construir sistemas o mais rápido possível. Para crescer o banco de dados depressa, as empresas diminuem a qualidade da curadoria e raspam os cantos mais obscuros da internet. Como resultado, precisam de trabalhadores precarizados para atuar como escudos humanos revisando esse conteúdo tóxico, o que devasta a saúde mental e a vida dessas pessoas. Com os data centers, ocorre a mesma força bruta motivada pelo excesso de dinheiro. Porém, nós não precisamos escalar freneticamente os modelos para ter benefícios. Ferramentas de código aberto, como o modelo chinês DeepSeek, mostraram que é possível alcançar as mesmas capacidades com uma quantidade significativamente menor de recursos. A diferença é que isso exige pesquisa real e inovações técnicas, o que leva mais tempo do que simplesmente jogar dinheiro na estrutura. A alternativa é mudar o método de produção; assim como desenvolvemos painéis solares para nos libertar da extração de combustíveis fósseis, podemos desenvolver a IA livre de exploração.

Diante desse cenário de danos ambientais e exploração trabalhista, o que nós, como sociedade, podemos fazer para barrar os excessos e o acúmulo desproporcional de dinheiro e poder desses empresários?

Precisamos atuar em duas frentes conjuntas para desmantelar esse “império” sem deixar de colher os benefícios da IA: aplicar pressão contra essas empresas e investir em modelos alternativos de desenvolvimento. Na primeira frente, a resistência de base já está acontecendo: enormes protestos paralisaram a construção de mais de 150 bilhões de dólares em projetos de data centers em 2025. Vemos também uma grande onda de processos judiciais, organização da força de trabalho para barrar o uso irresponsável da tecnologia, sindicatos dentro das próprias big techs e pessoas pressionando políticos locais. Na segunda frente, é vital que governos, empreendedores e investidores redirecionem capital e talentos para o desenvolvimento da inovação pautada no interesse público. Foi assim que indústrias como as de moda e de café conseguiram focar em cadeias de suprimentos mais sustentáveis e éticas no passado.

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Entender tudo isso pode ser um desafio enorme até para jornalistas de tecnologia. O que as pessoas devem fazer para se conscientizar sobre a gravidade dessas mudanças, que vão muito além dos nossos empregos?

As pessoas precisam se educar sobre o funcionamento dessa tecnologia, bem como sobre suas origens de produção e formas de implementação. Quando comecei a cobrir IA em 2018, ninguém se importava com o tema; hoje, esse é o assunto principal em qualquer roda de conversa. Isso é incrível, pois demonstra que as pessoas desejam entender a força que está moldando suas vidas para poderem moldá-la ativamente. Jornalistas têm um papel imenso em fornecer informações de alta qualidade sobre os bastidores dessa indústria, mas educadores, pesquisadores acadêmicos e os próprios trabalhadores do setor também devem se engajar na educação pública.

Falando em jornalismo, no seu livro você foca a narrativa na OpenAI e no Sam Altman. Por que ele, e não outros grandes nomes do Vale do Silício, como Elon Musk ou líderes do Google?

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Porque a concepção que a humanidade tem hoje de IA se baseia totalmente no ChatGPT, que foi criado pela OpenAI. O foco nos Grandes Modelos de Linguagem, o abuso da escala, os imensos data centers e a exploração do trabalho se cristalizaram depois que Elon Musk se afastou e Sam Altman assumiu a liderança integral da empresa. Não é coincidência que Altman não seja um cientista ou pesquisador de IA, mas sim um homem de negócios com um talento ímpar para arrecadar montantes extraordinários de dinheiro. Ele foi o responsável pela escolha de um caminho de desenvolvimento tecnológico totalmente pautado pelo capital.

Com tudo isso em mente, o que você acha do uso dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs)? Existe uma forma saudável de usá-los no nosso dia a dia, ou mesmo no jornalismo?

Sim, nós não precisamos descartá-los por completo, e os modelos de código aberto são um grande salto adiante em relação aos sistemas fechados das grandes empresas. Como os desenvolvedores open-source operam com menos dinheiro, as cadeias de suprimento da tecnologia acabam sendo mais eficientes, o que é menos extrativista e impede que nossos dados retroalimentem grandes corporações monopolistas. Sobre usá-los, depende totalmente do objetivo. Eu não uso geração de texto no meu trabalho jornalístico porque dependo de narrativas profundas e entrevistas qualitativas com fontes, mas, ironicamente, recorro bastante a ferramentas de IA para realizar as minhas transcrições de áudio. O segredo é ter estratégia: cada um deve se questionar criticamente sobre o que está tentando resolver. Se um grande modelo de linguagem não for a melhor solução para o seu problema específico, escolha um sistema focado diferente, ou não use IA.

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Para encerrarmos a nossa conversa: o que você espera que aconteça a seguir? Acredita que veremos uma regulação palpável em cima dessas companhias?

O que vem a seguir depende das nossas decisões coletivas, mas estou muito otimista. Neste último ano, acompanhamos o público exigindo um lugar à mesa e decidindo ativamente como quer que a tecnologia se comporte na sociedade, seja por meio de protestos ou na Justiça. Eu acredito que essa base de organização social e resistência finalmente levará a um cenário de forte legislação e regulação governamental. Nos Estados Unidos, legisladores que não defendem o interesse da população contra os abusos da IA já começaram a ser varridos de seus cargos por eleitores, e não tenho dúvidas de que essa cobrança pela responsabilidade das big techs chegará a muitos países, inclusive ao Brasil.

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