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Marco DeMello: “Estamos na mira dos hackers”

O empresário especialista em cibersegurança que denunciou o vazamento de dados de milhões de brasileiros explica por que o Brasil é tão vulnerável

Por Sabrina Brito Atualizado em 29 jul 2021, 14h08 - Publicado em 30 jul 2021, 06h00

Por que vazamentos de dados se tornaram tão comuns? A Covid-19 provocou uma intensa migração de pessoas e de empresas para o ambiente on-­line, o que resultou em dez anos de volume de dados despejados na internet em apenas seis meses. Isso gerou um ambiente fértil para o crime organizado, que vai levantar neste ano 6 trilhões de dólares somente nos Estados Unidos.

Como os ataques funcionam? O hacker usa ferramentas de inteligência artificial para aplicar golpes e pedir resgates. O software faz o trabalho sozinho e reporta a ele o que conseguiu coletar. Na deep web, um nível da internet oculto de buscadores como Google, há mais de 17 bilhões de senhas vazadas. Basta o criminoso escolher uma e acessar o banco de dados.

É preciso conhecer muito de programação para aplicar um golpe? Não, pois existem serviços de invasão pelos quais se pode pagar com bitcoin sem precisar dominar o assunto. O criminoso invade quantas empresas quiser e sequestra ou rouba dados a serviço do pagador. No Brasil, é ainda mais fácil.

O que torna o Brasil especialmente vulnerável? A cibersegurança não é considerada vital para o funcionamento das empresas. Quantos CEOs no Brasil discutem o assunto com seus conselhos? Nos Estados Unidos, trata-se de uma pauta obrigatória. É preciso investir na proteção dos dados da mesma forma que se investe para obtê-los.

Quais são os problemas mais comuns? A falta de proteção adequada dos dispositivos. Cerca de 87% das invasões começam por um único computador vulnerável na rede da empresa, e é tudo de que o hacker precisa. Se os criminosos utilizam inteligência artificial, a proteção também precisa usar. Além disso, há descuido com o uso de senhas e falta de autenticação.

Como a pessoa física pode se proteger? A responsabilidade pelos dados de uma pessoa é dela mesma, e começa pela forma como ela trata suas senhas. Não se deve, por exemplo, usar a mesma senha para tudo ou ter um arquivo no celular com todas elas.

O governo brasileiro é melhor ou pior do que empresas no tratamento de dados? Há uma preocupação maior por parte do governo federal, mas o investimento não é suficiente. Os setores público e privado precisam se conscientizar da gravidade da situação. Todos os recordes de vazamentos e cibersequestros foram batidos neste ano. Se a ficha não cair agora, não cai nunca mais. Estamos na mira dos hackers.

Publicado em VEJA de 4 de agosto de 2021, edição nº 2749

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