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Machistas radicais começam a ganhar espaço no YouTube

Antes cultivados principalmente em fóruns obscuros da internet, ideais misóginos aparecem agora no Brasil em canais veiculados pela plataforma de vídeos

Por André Lopes Atualizado em 16 mar 2020, 18h20 - Publicado em 13 mar 2020, 06h00

Até recentemente, eles se escondiam nas sombras da chamada deep web, a camada da internet preferida por traficantes, hackers, pedófilos e afins. Naqueles obscuros e abissais territórios, glorificavam seus heróis — muitas vezes, criminosos como os do massacre de Suzano, em São Paulo, ocorrido há um ano na Escola Esta­dual Professor Raul Brasil — e professavam toda sorte de radicalismos, entre os quais a defesa da supremacia branca, a homofobia e a misoginia. Nos últimos meses, pelo menos um desses preconceitos, a aversão às mulheres, vem conquistando espaço no Brasil em plena web tradicional, por meio de canais veiculados pelo YouTube.

Com uma vasta produção de ví­deos, esses canais e seus apresentadores têm entre o público uma parcela de homens, adultos em sua maioria, que se dividem em dois grupos: os autoproclamados incels (uma redução da expressão em inglês para “celibatários involuntários”) e os MGTOW (homens seguindo o próprio caminho, na sigla inglesa). Os incels são aqueles que não conseguem ter relações sexuais com mulheres, ainda que anseiem por isso. Já os MGTOW defendem a tese de que os homens devem evitar casamento e união estável com o sexo oposto, bem como relacionamento com mães solteiras, para fugir da armadilha de mulheres que só teriam motivações financeiras. Para ambos os grupos, o feminino é, por assim dizer, a causa de seus tormentos.

Nos conteúdos que divulgam, os youtubers desses estilos de vida se definem, muitas vezes, como membros da “machosfera” — a parte da internet na qual podem antagonizar com as mulheres. Canais como Newman LM, que tem 100 000 inscritos, apresentam aos inscritos o termo hipergamia para avaliar comportamentos femininos. Tal conceito diz que as mulheres são interessadas em homens com privilégios genéticos e econômicos. Esse comportamento faz com que 80% delas busquem sucesso amoroso com apenas 20% dos integrantes do sexo masculino, justamente os que estão no topo da hierarquia do que consideram como “boas características físicas”. No corte mais baixo, dizem os misóginos “virtuais” — mas bem “reais” em suas atua­ções —, ficam os 10% dos homens que nunca terão êxito no amor. “Pode ser uma exceção, mas nós vemos que algumas mulheres, por serem religiosas ou tradicionalista, se relacionam com homens que estão abaixo delas. Não podemos nos limitar, mas ter um conceito como hipergamia para explicar a maioria dos casos é importante”, diz Newman em um vídeo onde avalia as relações amorosas entre homens e mulheres.

VIOLÊNCIA - Atentado em Toronto, em 2018: o autor, um “celibatário involuntário”, atropelou dez pessoas e se matou NurPhoto/Getty Images

Esse modo de interpretar as atitudes das mulheres e a condição masculina levou os machões a criar um vocabulário próprio. Entender o funcionamento das relações entre os sexos sob tal perspectiva, acreditam os misóginos, transforma-os em “homens da pílula vermelha” — uma referência ao filme Matrix (1999), das americanas Lana e Lilly Wachowski. No longa-­metragem, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, ganha duas pílulas e tem de escolher qual delas tomar: a azul, que permite a ele continuar vivendo em um mundo ilusório, e a vermelha, que lhe dará plena consciência da realidade que o cerca. Os integrantes da machosfera estão convencidos de que, na pele de “homens da pílula vermelha”, conseguem enxergar os conflitos criados pelas diferenças de gênero. Quando um representante do sexo masculino admite ideias contemporâneas como a da liberdade feminina e a da igualdade de direitos entre homens e mulheres, ele estaria apenas aceitando uma versão fabricada da realidade — ignorando a tradição de povos antigos que determinavam uma suposta e também natural superioridade do macho. A partir daí, acreditam os misóginos, o indivíduo do sexo masculino se reduz à posição de capacho feminino. No termo machista que aproxima as palavras homem e vagina, torna-se um “mangina”.

  • O youtuber Rodrigo Ferrari, formado em filosofia e conhecido pela alcunha de Platinho — uma alusão ao pensador grego Platão —, congrega cerca de 50 000 fãs no YouTube, em que comanda dois canais que têm como público-alvo homens que se identificam com pensamentos antifeministas. Para se ter uma ideia do conteúdo que Platinho veicula, tome-­se como exemplo um vídeo deste ano em que ele analisa a possibilidade de se tornar aceitável a troca de esposas de carne e osso por bonecas robóticas de silicone. “Ao se despir de todos os tabus, é racional valer-se de um brinquedo desses para se satisfazer”, afirma ele. “No entanto, não é racional assumir isso publicamente”, pondera. Na área de comentários do vídeo, é exaltado pelos seguidores que uma boneca sexual livraria os homens de recaídas em relacionamentos com mulheres reais, e as condenaria — numa inversão de valores — ao status de mero objeto.

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    COMEÇO - O americano Rodger, em 2014: crime, suicídio e fama para os misóginos ./.

    Platinho, todavia, garante que não endossa os comportamentos misóginos que os conteúdos de seus canais alimentam. “O sujeito chega até os vídeos com raiva por causa do que passa na vida e põe isso para fora nesse ambiente.” Na contenção de possíveis discursos de ódio, o youtuber recruta mulheres para moderar os comentários e evitar que as ofensas ao sexo feminino saiam do controle. Os assinantes costumam reclamar da providência.

    Longe do Brasil, os misóginos virtuais começaram a ganhar notoriedade em 2014 — por meio de atos de extrema violência. Naquele ano, o incel Elliot Rodger matou seis pessoas, feriu catorze e depois se suicidou na Califórnia (EUA). Ele reclamava da rejeição feminina e disse que seu sofrimento seria pago com mortes. Quatro anos depois, seu ato foi lembrado por outro celibatário, em um atentado em Toronto, no Canadá. Alek Minassian atropelou dez pedestres. Antes, deixou uma mensagem no Facebook: “A rebelião incel já começou! Em memória do guerreiro Elliot”. A má fama dos incels deu fôlego aos MGTOW. Juntos, os dois grupos misóginos se aproximam do que de mais retrógrado — e perigoso — a internet pode abrigar. E essa não é uma ameaça só às mulheres.

    Publicado em VEJA de 18 de março de 2020, edição nº 2678

     

    Atualização (16/03/2020): Acrescentamos no texto uma declaração de Newman LM. Em um vídeo publicado no YouTube, ele defende que outros fatores podem superar a hipergamia, fazendo com que o conceito não explique todos os relacionamentos entre homens e mulheres.

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