🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!

Levante contra a IA ganha contornos radicais, em vã tentativa de frear o progresso

Movimentos envolvem desde sabotagem até protestos contra o impacto ecológico dos gigantescos data centers

Por Alessandro Giannini Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 10h45
Levante contra a IA ganha contornos radicais, em vã tentativa de frear o progresso Priorizar nos meus resultados Google

Nas ruas dos Estados Unidos e de outras partes do mundo, uma nova forma de ativismo vem ganhando força nos últimos tempos. Os protestos crescentes não miram líderes políticos ou a carestia, mas um novo e desafiador inimigo: a inteligência artificial (IA). Enquanto alguns carregam bandeiras denunciando a suposta ameaça aos empregos e à saúde do planeta por empresas do setor como a OpenAI, dona do ChatGPT, outros formam brigadas devotadas ao nightshade, a recém-disseminada prática de “envenenamento” de dados, com o objetivo de sabotar ferramentas de IA. À medida que a revolução dos chatbots generativos se espalha, enfim, cresce um efeito colateral ruidoso: a resistência global a esse avanço. Uma reação que a história ensina ser mais do que compreensível e esperada diante de saltos como o que vivemos hoje — mas absolutamente inútil.

Infográfico Relação Dividida sobre inteligência artificial. Um cérebro dividido ao meio, com um lado em tons de azul e verde e outro em tons de amarelo e vermelho, ambos com circuitos eletrônicos. O texto apresenta dados sobre o uso e a percepção da IA: 66% usaram IA, 50% sentem receio, 35% temem perder o emprego, 47% acreditam que a IA piora a desinformação, e 80% defendem que empresas avisem sobre o uso de IA. Fonte: Google/Ipsos

Quanto mais a IA se torna indissociável de nossas vidas, das tarefas no trabalho às questões pessoais, mais as angústias diante dela se multiplicam. Segundo o estudo Ipsos AI Monitor 2026, em parceria com o Google — que ouviu 23 532 pessoas entre 17 e 74 anos em 32 países —, as ferramentas de IA já são usadas por 66% da população mundial. Mas o sentimento nutrido por elas é ambivalente: há entusiasmo, mas 50% relatam receio. Se por décadas ela era uma possibilidade remota que despertava medos difusos tão bem explorados pela ficção científica, agora é uma força real — e, como tal, traz preocupações concretas. Um terço dos trabalhadores teme perder o emprego para a IA, quase metade dos entrevistados acredita que a tecnologia vai piorar a desinformação on-line — e apenas 15% acham que vai melhorá-la (leia o quadro).

NAS RUAS - Protesto recente no Vale do Silício: palavras de ordem contra as empresas que criaram os robôs
NAS RUAS - Protesto recente no Vale do Silício: palavras de ordem contra as empresas que criaram os robôs (Jason Henry/Bloomberg/Getty Images)

Parte relevante dessas reações é canalizada para um novo ativismo digital. Seu principal alvo tornou-se a infraestrutura física que sustenta a chamada “nuvem” — os cada vez mais mastodônticos data centers, necessários para atender à demanda por tanto big data. A jornalista Karen Hao, autora de O Império da IA (Rocco), descreve o setor como uma forma de extrativismo de dados e recursos naturais. “Modelos de IA generativa são monstruosidades construídas a partir de recursos inconcebíveis”, diz ela.

Continua após a publicidade

Esse tipo de visão já gera conflitos concretos. Militantes ambientais protestaram contra um treinamento do GPT-4 que fez servidores da Microsoft em Iowa consumirem 43 milhões de litros de água em plena seca americana. No Chile, um tribunal bloqueou o uso de água por um data center do Google em Cerrillos, obrigando a empresa a adotar outra forma de refrigeração. Dos recursos de mananciais à poluição sonora causada pelos servidores, o impacto desses grandes centros realmente merece atenção. Errôneo, porém, é achar que o melhor modo de lidar com eventuais problemas é bloquear sua expansão.

IMPACTO - Construção de data center: novos inimigos dos ativistas ambientais
IMPACTO - Construção de data center: novos inimigos dos ativistas ambientais (Mario Tama/Getty Images)

A resistência também avança na área da criação artística. No Brasil, ganhou força a campanha Dublagem Viva, contra a substituição de dubladores humanos por vozes sintéticas geradas por IA — um movimento que une defesa de empregos e preocupação com conteúdos padronizados, sem a marca pessoal de cada voz. Esse medo de que o trabalho intelectual perca valor diante da eficiência dos chatbots já vem atormentando há tempos os roteiristas e diretores de Hollywood, que em 2023 fizeram longa greve que mirava, entre outras coisas, a ameaça da IA a seus ofícios.

Continua após a publicidade
IMPRENSA - No século XV, a prensa de tipos móveis de Gutenberg trouxe uma revolução ao baratear e democratizar o acesso à informação. Os copistas de livros e a Igreja, porém, moveram uma guerra contra a invenção.
IMPRENSA – No século XV, a prensa de tipos móveis de Gutenberg trouxe uma revolução ao baratear e democratizar o acesso à informação. Os copistas de livros e a Igreja, porém, moveram uma guerra contra a invenção. (Roger Viollet/Getty Images)

As batalhas para impedir ou congelar a dinâmica do progresso impõem, no entanto, ceticismo: no passado, as tentativas de deter inovações tecnológicas quase sempre se revelaram fátuas (leia no quadro). A prensa de Gutenberg, no século XV, incomodou copistas temerosos pelo ofício e setores da Igreja preocupados em perder o controle sobre o conhecimento — mas seus inimigos não conseguiram impedir a revolução que trouxe ao espalhar informação por meio dos livros e da imprensa. O cinema, no início do século XX, foi visto como entretenimento vulgar e moralmente perigoso, acusação repetida décadas depois contra a televisão. Nos anos 1980, o grupo francês CLODO atacou computadores corporativos e incendiou sedes de empresas de tecnologia.

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL - Quando as fábricas surgiram na Inglaterra, no século XIX, a reação veio por meio dos luditas, que destruíam teares por temer o fim dos empregos. Mas a inovação trouxe riqueza e menos exploração da mão de obra.
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL – Quando as fábricas surgiram na Inglaterra, no século XIX, a reação veio por meio dos luditas, que destruíam teares por temer o fim dos empregos. Mas a inovação trouxe riqueza e menos exploração da mão de obra. (API/Gamma-Rapho/Getty Images)
Continua após a publicidade

Para o pesquisador Thomas Dekeyser, autor do recém-lançado Techno-Negative: a Long History of Refusing the Machine (Tecno-negativo: uma longa história de rejeição à máquina), a tecnologia sempre foi um campo de disputa política. O caso mais célebre é o dos luditas. No século XIX, tecelões ingleses sabotavam teares mecânicos que, temiam, roubariam empregos, reduziriam salários e empobreceriam famílias. O movimento assinava cartas de ameaça a donos de fábrica em nome de Ned Ludd, tecelão que deu nome ao movimento. O tempo mostrou que o alarme foi exagerado: a industrialização trouxe mais respeito à mão de obra, o fim do trabalho infantil e mais riqueza, em desejado passo da livre iniciativa.

TELEVISÃO - Ao surgir, nos anos 1940, ela despertou desconfianças múltiplas: a telinha acabaria com o cinema e destruiria as famílias. A TV se revelou, no fim, uma poderosa forma de entreter e democratizar a informação.
TELEVISÃO – Ao surgir, nos anos 1940, ela despertou desconfianças múltiplas: a telinha acabaria com o cinema e destruiria as famílias. A TV se revelou, no fim, uma poderosa forma de entreter e democratizar a informação. (Camerique/Getty Images)

Por enquanto, a força dos movimentos de reação à IA se revela limitada. Para Benjamin Rosenthal, professor de marketing digital da FGV, eles se concentram em nichos com pouca capacidade de mobilização e capilaridade social. Rosenthal aponta ainda uma diferença essencial em relação ao ludismo do século XIX: “Hoje, esses luditas têm a fábrica na mão deles”, diz, referindo-se ao celular e ao computador pessoal.

Continua após a publicidade
INTERNET - O computador e a internet redefiniram o século XX ao interconectar máquinas e pessoas. A era digital de fato justificou temores como a explosão da desinformação on-line — ainda assim, mudou o mundo para melhor.
INTERNET – O computador e a internet redefiniram o século XX ao interconectar máquinas e pessoas. A era digital de fato justificou temores como a explosão da desinformação on-line — ainda assim, mudou o mundo para melhor. (Prykhodov/Getty Images)

De qualquer forma, no lugar de embrenhar-se numa histeria apocalíptica como a de outros séculos, mais vale encarar a nova tecnologia com serenidade — e a devida firmeza contra abusos, claro. “Não se trata de ser a favor ou contra a IA”, diz a historiadora Tatiana Roque, autora do livro A Máquina e Nós (Todavia). “É o caso de partir do princípio de que é possível mudar a maneira como essas ferramentas são desenvolvidas.” Nessa leitura, a tecnologia não é um trem desgovernado, mas um processo que ainda pode ser moldado por governança e regulação baseadas em risco e proteção ao trabalho. Uma pauta que atravessa o debate sobre o PL 2338/2023, marco regulatório brasileiro da IA, no Congresso Nacional. Em vez de parar as máquinas, mostra a história, é melhor botá-las para trabalhar a favor da humanidade.

Com reportagem de Lorenzo Souza

Continua após a publicidade

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).