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Home Kit pode fazer do iPhone o coração da casa inteligente

Smartphone vai se tornar "controle remoto universal", que comandará luzes, termostatos, fechaduras etc. — um mercado de US$ 50 bilhões ao ano

Ao lado do rival Google, a Apple trabalha para transformar nossas casas. O objetivo é torná-las, no futuro próximo, um “lar inteligente”. O embaixador da empreitada, encarregado de entrar nas residências e colocar o projeto em ação, será, é claro, o iPhone, carro-chefe do faturamento da companhia americana. A partir de uma plataforma chamada Home Kit, apresentada há duas semanas a desenvolvedores durante evento realizado nos Estados Unidos, a empresa de Cupertino vai transformar seu smartphone em um controle remoto universal. Será, então, possível acionar comandos para abrir cortinas, apagar as luzes, trancar as fechaduras e desligar o forno quando a carne estiver no ponto. “Hoje, cada dispositivo de automação residencial disponível no mercado traz seu próprio app, seu próprio protocolo de comunicação e um mecanismo de segurança particular. Vamos acrescentar alguma racionalidade a esse processo”, disse Craig Federighi, vice-presidente de software da Apple, ao apresentar o Home Kit. Home, smart home.

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Na prática, uma variada gama de aparelhos certificados (de termostatos a fechaduras, de campainhas a geladeiras) vai adotar o mesmo padrão eletrônico para se comunicar com o iPhone – os detalhes técnicos dessa operação foram estabelecidos pela documentação que compõe o Home Kit. Além disso, esses aparelhos vão compartilhar práticas de segurança e recursos inovadores do iOS, o sistema operacional de iPhones, iPads e iPods, como o app de assistente pessoal Siri. Ainda não está claro se a Apple terá um app próprio dedicado ao controle da casa conectada ou se os comandos serão direcionados aos dispositivos por meio do próprio iOS, com o uso de voz. Qualquer que seja a escolha, vai simplificar a interação entre o morador e sua casa inteligente: no futuro, o Home Kit exigirá apenas que o usuário diga “Hora de dormir” para que o iPhone desligue todas as luzes, ajuste a temperatura do quarto e verifique se as portas estão trancadas.

O iPhone poderá acionar diferentes funções de um mesmo aparelho, mas também coordenar ações relacionadas a um cômodo da casa, como quarto ou cozinha. “O usuário poderá adicionar cômodos a uma ‘zona’, o que permitirá transmitir comandos como: ‘Siri, acenda todas as luzes do andar de baixo'”, descreve a Apple na documentação técnica do Home Kit. Um único smartphone poderá controlar dispositivos em vários locais: o usuário poderá manter na memória uma configuração de comandos relativos a sua residência principal e outra para a casa de praia. Outra vantagem é criar perfis específicos para diferentes situações, que alteram o status de lâmpadas, sistema de som e temperatura ambiente para festas, um encontro romântico e assim por diante.

“Atualmente, o consumidor não pode comprar dispositivos de automação residencial numa loja sem ajuda de um profissional. É um trabalho complexo. A Apple trabalha para solucionar isso, aproximar esse mundo aparentemente complicado do consumidor comum”, diz José Roberto Muratori, diretor executivo da Associação Brasileira de Automação Residencial (Aureside). Muratori estima que um pacote completo de automação residencial – controle de luzes, cortinas, fechadura biométrica, sistema de som e vídeo e de segurança – custe o equivalente a 1% do valor do imóvel, no mínimo, chegando a 3%. Isso inclui, além de equipamentos “inteligentes”, capazes de obedecer a comandos eletrônicos, o desenvolvimento de uma central de controle.

Sem a necessidade de uma central de controle personalizada, papel que deverá ser assumido pelo Home Kit, o custo da automação residencial deve cair. O preço para se ter um lar inteligente repousará, então, no valor dos dispositivos compatíveis com a tecnologia. Eis o fator determinante para o sucesso da plataforma da Apple. Até agora, a companhia anunciou uma lista de 17 parceiros, como iDevices, Honeywell e Philips. Entre os dispositivos que serão compatíveis com o Home Kit estão lâmpadas, fechaduras, campainhas, termômetros e outros aparelhos.

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Ao entrar no mercado de automação residencial, a Apple tem objetivos de longo prazo. A promessa de ter uma casa inteligente, como a exibida na série de TV americana Os Jetsons, está há décadas no imaginário de muita gente, mas só começou a ganhar força há pouco tempo. No Brasil, segundo estimativa da Aureside, apenas 300.000 dos mais de 67 milhões de domicílios registrados pelo IBGE em 2010 possuem algum tipo de sistema de automação em funcionamento. “Há um potencial para automatizar mais de 1,5 milhão de casas, mas a tecnologia ainda não se tornou acessível aos consumidores”, diz Muratori.

Com o Home Kit também a Apple tenta garantir uma fatia do mercado promissor, que deve atingir um faturamento global de 50 bilhões de dólares já neste ano, dobrando o valor em 2018, segundo projeções da consultoria americana Strategy Analytics. Bill Ablondi, diretor de estratégias para o mercado de casas inteligentes da Strategy, afirma que a estratégia do Home Kit traz consigo uma marca do DNA da Apple: a elegância. Isso se traduzirá na simplicidade do sistema. Ele não demandará uso de dispositivos adicionais de integração. Em matéria de aplicativos, será o contrário: deve haver unificação de apps. “A Apple está disposta a adotar uma postura mais aberta, pela qual não interfere nos dispositivos que não fabrica. É simplificar produtos”, diz Ablondi. Steve Jobs aprovaria.

Ainda assim, Ablondi diz que a empresa enfrentará obstáculos na tarefa de ocupar nossas casas. “A Apple terá que convencer os grandes fabricantes de dispositivos a adaptar os produtos ao Home Kit e certificá-los para funcionar com o iPhone. Isso exigirá grandes investimentos e algumas empresas bem estabelecidas no mercado podem não se interessar.” A expectativa no mercado é de que os primeiros aparelhos compatíveis com o Home Kit sejam apresentados em setembro – o que pode coincidir com o lançamento do iPhone 6 e do iOS 8. Segundo especialistas, mais importante do que gerar mais negócios ainda em 2014, a entrada da Apple e de outras empresas no setor deve despertar o interesse dos consumidores para a casa inteligente. Bom para eles e para a própria Apple. “Ao trazer a automação residencial para dentro do seu próprio ecossistema, a Apple tornará o iPhone ainda mais indispensável na vida dos consumidores”, diz Ablondi.