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‘Gênio da tradução’, brasileiro ficou milionário no Vale do Silício

Em VEJA desta semana, conheça Otávio Good, que se tornou uma estrela em ascensão depois de vender ao Google o Word Lens, aplicativo que traduz textos em sete línguas sem recorrer à internet

A cena, até há pouco tempo apenas um sonho de consumo para viajantes inveterados e viciados em tecnologia em geral, é cada vez mais comum: aponta-se a câmera do smartphone para um texto em língua estrangeira e, na imagem que seria a da foto, sem necessidade de conexão com a internet, ele aparece traduzido para a língua escolhida. O pequeno milagre, que virou febre desde que surgiu, em dezembro de 2010, é o Word Lens, aplicativo gratuito capaz de converter textos de sete línguas – inglês, português, russo, alemão, espanhol, italiano e francês -, que já teve mais de 10 milhões de downloads e foi encampado pelo Google em maio passado. A invenção, claro, é de um geniozinho do Vale do Silício, na Califórnia – e ele é brasileiro. Otávio (com acento) Good nasceu em Nova Jersey, nos Estados Unidos, mas foi criado com um pé no Brasil pela mãe carioca. Programadora de uma empresa de tecnologia americana numa época em que pouquíssimas mulheres ocupavam a função, Maia apresentou o filho aos computadores – com 7 anos, ele começou a decifrar algoritmos. Vem daí o dom que fez dele, aos 40 anos, não só um milionário, mas também uma das mentes mais criativas do mundo da tecnologia.

Há quinze anos, Good poderia facilmente ser confundido com os milhares de jovens que rumavam para a Califórnia em busca de uma carreira na meca da inovação mundial. Quando adolescente, Tavinho (para os íntimos) morou com parentes por quase um ano no Rio de Janeiro, onde ainda hoje tem uma irmã. Aprendeu a falar português com sotaque e a jogar futebol, que pratica duas vezes por semana. De volta aos Estados Unidos, ainda no colegial passou a criar games que vendia à Sony e à Microsoft. Matriculou-se em ciência da computação na Universidade de Maryland, desistiu no 2º ano (“aprendia mais sozinho”) e partiu para São Francisco. Ali montou a Secret Level, desenvolvedora de games que criou sucessos de público como Star Wars e Karaoke Revolution, e foi vendida, em 2006, à japonesa Sega por 15 milhões de dólares. Milionário aos 32 anos, Good viu a fortuna se multiplicar pelo menos cinco vezes (por alto; o valor exato é secretíssimo) no negócio com o Google.

A invenção que o alçou a um novo patamar começou a nascer de outra mania sua: viajar. De férias na Alemanha, em 2008, ele se frustrou por não entender os títulos em uma livraria e passou a imaginar a ferramenta. Voltou, abandonou o posto na Sega e em três semanas desenvolveu um protótipo. Aí se iniciou o trabalho duro. “Não teve glamour nenhum”, conta. “Fiquei um ano e meio programando sozinho, no sofá de casa. Foi o trabalho mais desafiador que já fiz”, diz. Quando finalmente o concluiu, nem o smartphone mais avançado da época, o iPhone 3, era capaz de processar as informações na velocidade exigida, e o Word Lens teve de esperar o 3S. “Eu antecipei a vinda de novos modelos de hardware”, gaba-se Good. Lançado em inglês e espanhol, ao custo de 10 dólares (“o preço de um burrito”), o Word Lens foi tão acessado que fez o site sair do ar; Good precisou ligar de madrugada para a mãe, na Ucrânia, para pedir ajuda. “Minha família mora em diferentes cantos do mundo, mas é muito unida”, diz. Até o vídeo que apresenta o aplicativo, com milhões de visualizações na internet, é obra de um de seus quatro irmãos.

Good já ganhou diversos prêmios por sua invenção – que não é perfeita (algumas escorregadas ao pé da letra lembram pérolas das traduções automáticas pela internet), mas salva os turistas em emergências. Durante anos, recusou ofertas pela empresa que fundou para comercializar o aplicativo. “Eu e os três programadores que contratei nos divertíamos muito trabalhando sozinhos”, explica. Foram necessários sete meses de negociações, uma eternidade no Vale do Silício, para que sucumbisse ao assédio do Google – no qual trabalha agora na ampliação do Word Lens e em “um projeto que ainda não posso contar”. Em casa, distrai-se com temas que lhe são caros, como o sequenciamento de DNA e a construção de robôs (no casamento ao ar livre com a bióloga russa Zinaida, em 2013, um drone sobrevoou o local e depositou as alianças na sua mão) – isso quando não passa o fim de semana inteiro no sofá, em competições de videogame. O que mostra que, no trabalho e fora dele, sua atividade principal é a mesma: quebrar a cabeça. Com muito gosto.

Byte a byte

Com base em sua experiência, Otávio Good aponta o que não deve faltar na programação de quem quer vencer no Vale do Silício:

Cooperação

“Ninguém constrói sozinho uma empresa bem-sucedida. É essencial refinar as ideias conversando com outras pessoas”

Esforço

“Hollywood fez a vida no Vale do Silício ficar parecendo uma festa atrás da outra. Na verdade, trabalhamos muito aqui”

Atualização

“As mudanças são rapidíssimas e não se pode ficar para trás. Acompanhe e saiba entender as tendências tecnológicas”

Ousadia

“As pessoas que se arriscam saem com vantagem. A possibilidade de perder dinheiro e fazer papel de bobo sempre existe. Aceite-as”

Capacidade

“Tenha uma especialidade. Eu sou especialista em computação gráfica. Isso me faz pensar de um jeito que levou ao Word Lens”

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