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Fones sem fio se popularizam e inauguram novíssimos hábitos

Estudo de Harvard indica que os aparelhos possam ser um dos elementos que levaram à diminuição em até 70% da interação entre colegas de trabalho nos EUA

Tudo o que faz muito sucesso hoje em dia, inaugurando novos mercados, abrindo avenidas, é alvo do humor multiplicado em memes, da graça que apenas confirma o nascer de uma boa ideia, daquelas que cedo viram mania. Nada se perdoa. Foi assim com os fones sem fio da Apple, lançados em 2016. Uma das piadas diz o seguinte, imaginando o diálogo de um casal na cama: “Não vou tirar os AirPods durante o sexo, isso é inegociável”. A brincadeira é reveladora, ao mostrar que os pequenos aparelhinhos brancos já são quase como uma segunda pele, colados em quem os usa.

De início, houve também desconfiança, outro movimento clássico diante de pioneirismos. “Um bom truque para nunca perder seus AirPods é amarrá-los com uma corda e prendê-­la no smartphone”, escreveu o roteirista canadense Jonny Sun, titular da série de comédia BoJack Horseman, da Netflix, em post em seu perfil no Twitter, e que então fez ressoar um primeiro estranhamento diante da inovação. Ressalte-se que esse mesmo incômodo de primeira hora brotou em 2007, quando Steve Jobs, o gênio criativo da Apple, apresentou com estardalhaço o iPhone ao mundo. O resto é história.

 (Microsoft/.)

Surface Earbuds

Marca: Microsoft
Preço: 249 dólares (em torno de 1 000 reais)
Os diferenciais: várias funções, como o volume e o atendimento de ligações, são controladas por comandos de toque. O aparelho é compatível com os principais apps, entre eles o Spotify. Além disso, dispõe de um recurso pelo qual é possível ditar textos (como e-mails)


 

Os AirPods se espalham. Somente no primeiro ano, foram vendidos 16 milhões de unidades do dispositivo, que se tornou o segundo produto da Apple com mais exemplares comercializados na estreia, atrás tão somente do iPad, de 2010. Em 2018, saíram dos estoques outros 28 milhões de pares, e as previsões são otimistas: 55 milhões em 2019 e, em 2020, 80 milhões. O êxito, é claro, atraiu a concorrência (veja acima e no quadro ao lado).

Na disputa pelo mercado surgiram nomes de peso para encarar a Apple. Na última semana de setembro, a Microsoft lançou o Surface e a Amazon, o Echo Buds. O primeiro, de cor branca e formato redondo, pode controlar a passagem de músicas e o volume por toque, tem integração por voz com os programas do pacote Office e será vendido a 249 dólares. O segundo, de cor preta e superfície abaulada, é capaz de acionar, sem depender do smartphone, o aparelho de assistência virtual Alexa — que começou a ser comercializado há duas semanas no Brasil —, e sairá por 130 dólares. Em fevereiro, o gigante sul-coreano Samsung, o principal concorrente da Apple na indústria de celulares, juntou-se à briga pelos, digamos assim, ouvidos dos clientes, com o Galaxy Buds. Todavia, a competição não será fácil: a marca da maçã mordida já domina 85% das vendas.

A onda do sem fio, meio escondido, meio à vista, gera novos hábitos. Nos Estados Unidos, país onde 68% das empresas aboliram as separações com paredes, ou divisórias, nos escritórios, profissionais utilizam os fones para se isolar, criando ambientes menos ruidosos de trabalho. A contrapartida: segundo um recente estudo da Universidade Harvard, estima-se que as singelas traquitanas possam ter sido um dos elementos que levaram à diminuição em até 70% da interação entre colegas. O sociólogo Claude Fischer, da Universidade da Califórnia em Berkeley, chegou a avaliar, em entrevista ao site americano BuzzFeed: “Quando novas coisas surgem, sempre há um período de adequação às novas regras. Quem sabe em cinquenta anos todos vão ter um pequeno chip no crânio. E, quem sabe, poderemos assistir à TV, em nossos olhos”. Soa um tanto distante, talvez seja mesmo — mas os AirPods, que nasceram debaixo de gracejos e acenos para um amanhã improvável, hoje já soam como brincos.

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Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656