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Fim do batuque no celular

Interfaces inteligentes facilitam a dura tarefa de usar os minúsculos teclados virtuais

As interfaces dos aparelhos eletrônicos são o ponto de contato entre o homem e a máquina. Se forem bem projetadas, facilitando a vida de seus usuários na operação de telefones celulares, computadores e tablets, por exemplo, garantem o sucesso de um produto, mas, do contrário, sepultam as melhores tecnologias. No primeiro time, o das interfaces bem-sucedidas, estão os monitores touch-screen, que até pouco tempo pareciam delírio de ficção científica e agora se popularizam nos celulares e tablets como o iPad. Agora, de carona nessa tecnologia, começam a chegar ao mercado aplicativos que permitem usar o teclado virtual do celular para escrever torpedos, e-mails e outros textos sem a necessidade de retirar o dedo da tela: basta escorregar de uma tecla virtual a outra. É o fim da batucada na telinha. Toca-se na primeira letra desejada e arrasta-se o dedo até as seguintes, fazendo uma espécie de ziguezague entre os pontos. Ao retirar a mão do aparelho, a nova palavra é formada. Não há necessidade de tocar exatamente no meio da tecla, basta encostar na sua borda para obter o resultado desejado. Durante a digitação, um dicionário integrado exibe sugestões de palavras, o que pode agilizar a construção das mensagens. Se o programa não reconhecer o termo digitado de imediato, ele oferece a opção de armazenar a nova palavra na memória do aparelho, permitindo sua identificação em textos futuros. O resultado é evidente: mais conforto na hora de operar os exíguos teclados e menos erros de digitação.

O carro-chefe da tecnologia atende pelo nome de Swype, programa disponível para os celulares que utilizam os sistemas Windows Phone, da Microsoft, e Android, do Google. Contudo, ele não funciona como um aplicativo comum, como os baixados nas lojas virtuais Windows Marketplace e Android Market. O Swype já vem integrado de fábrica aos celulares, dependendo apenas de contratos feitos entre a empresa que criou o aplicativo, e que leva seu nome, e os fabricantes dos aparelhos. No Brasil, o único dispositivo com o recurso disponível é o i1, da Motorola, revendido pela operadora Nextel. “O Swype funciona como uma alternativa para os usuários que não conseguem se adaptar aos teclados virtuais tradicionais. Pretendemos levar a tecnologia a outros modelos de smartphones”, afirma Maurício Matsumoto, gerente de produtos da Motorola.

Por ora, os proprietários de iPhone terão de se contentar com um programa similar, mas que não oferece o mesmo nível de integração com o celular da Apple. O ShapeWriter é um aplicativo externo, que pode ser baixado da loja virtual App Store – acessada diretamente pelo dispositivo ou a partir do iTunes. Lá, são oferecidas três versões: a gratuita, a Lite e a Pro. As duas últimas podem ser adquiridas por 2,99 e 7,99 dólares, respectivamente. Infelizmente, o aplicativo pode estar com os dias contados, já que a empresa responsável pelo seu desenvolvimento foi comprada – e a nova proprietária prometeu tirar o programinha de circulação. A esperança, então, recai sobre um acordo em andamento entre a Swype e a Apple, que pode levar o aplicativo para o iPhone.

Seja no caso do Swype ou do ShapeWriter, a posição do teclado influencia muito na hora de escrever. Boa parte dos smartphones permite usar os teclados virtuais tanto no sentido horizontal quanto vertical. Com o celular em pé, o tamanho e o espaçamento entre teclas diminuem, o que, dependendo da largura dos dedos do usuário, pode tornar a tarefa de digitar quase impossível. Os dois programas apresentam ainda um inconveniente: não exibem o texto digitado em tempo real, mas apenas ao final da operação. Aos aficionados em mensagens via celular, vale ainda um alerta médico. “Não é recomendável utilizar os teclados virtuais em longas jornadas de trabalho, pois eles exigem muito da estrutura muscular das mãos. O ideal é digitar apenas textos pequenos. Para trabalhar com mobilidade, deve-se preferir computadores tradicionais”, afirma a doutora Gisele Mussi, assistente técnica do Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital das Clínicas de São Paulo e especialista em ergonomia.

A chegada da tecnologia é, sem dúvida, um avanço na tediosa tarefa de pressionar diversas teclas, repetidas vezes, para construir palavras nos apertados teclados virtuais. Mas é apenas mais um passo no campo das interfaces. O próximo pode ser o controle dos dispositivos eletrônicos a partir do monitoramento dos movimentos da retina. Com o recurso, bastará que o usuário fixe seu olhar no teclado virtual exibido na tela de seu aparelho para escolher as letras e compor um texto. O sucesso da tecnologia dependerá da simplicidade da interface, sem dúvida. Mas também da receptividade e adaptação dos usuários. “Somos seres baseados em hábitos. Quando cultivamos um, só nos damos ao trabalho de trocá-lo se o próximo trouxer benefícios”, diz Marcellus Louroza, diretor de produtos da divisão de Telecom da Samsung.