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Feudalismo digital

A manipulação das redes nos faz perder inteligência coletiva

Por Fernando Grostein Andrade - Atualizado em 22 mar 2019, 07h01 - Publicado em 22 mar 2019, 07h00

Estou impactado pela leitura de Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais, de Jaron Lanier, um dos pioneiros da internet. Apesar do título exagerado e de soluções um pouco utópicas, o livro desnuda um fenômeno coletivo que está minando nosso livre-arbítrio. Para quem se acha imune, vale pôr a cabeça no travesseiro e conscientizar-se. Afinal, todo viciado sempre diz “posso parar quando eu quiser”. As redes sociais exploram nossas fraquezas mais íntimas, nossa vaidade, vontade de ser aceito, de ter amigos, de ser relevante, o desafio de envelhecer com dignidade ou até da insuportável pressão de existir. Postagens com mais curtidas aguçam nossos instintos como uma droga. Funciona assim: o indivíduo que recebe uma recompensa tende a repetir seus atos para ganhar mais recompensas. Esse mecanismo da psicologia comportamental opera no nível mais básico, como acontece até com ratos e cachorros.

As redes sociais coletam inúmeras informações sobre você — do que você gosta, desgosta, o que comenta, com o que se enerva, suas expressões faciais — e transformam tudo numa base de dados de números imensos, capazes de revelar tendências que podem ser usadas para influenciar. Por meio de iscas, castigos, recompensas e vícios, pouco a pouco as pessoas vão sendo moldadas e influenciadas. Essas informações acabam sendo vendidas a terceiros para não só manipular o comportamento, como também medir os resultados da manipulação (seja para anunciar produtos, seja para moldar opiniões ou fraudar a democracia). Lembro-me de um amigo tão encantado com a chuva de curtidas recebidas que, quando os truques conhecidos do seu repertório se esgotaram, resolveu postar uma foto de suas nádegas.

Quem nunca se entregou a uma discussão inútil no Facebook? A pergunta é: quais os critérios para o usuário receber “prêmio” ou “castigo”, curtida ou descurtida? Quem está definindo isso se preocupa com algo além do lucro dos acionistas dessas empresas? Será que a sociedade não deveria participar mais ativamente? Será que as empresas não deveriam se abrir de forma genuína para essa conversa?

A beleza da democracia é sua capacidade de utilizar a inteligência coletiva de um país para entender a melhor maneira de seguir adiante. É preciso um conjunto de indivíduos pensantes, independentes, com experiências de vida distintas.

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Quando esse processo é infectado por manipulações em massa, perdemos a inteligência coletiva, o potencial criativo e nos reduzimos a um feudalismo digital, inviabilizando o processo político. Há algo estranho em um mundo em que as pessoas parecem viver para ejacular sua existência pelo celular. Segundo Jaron Lanier, as pessoas no Vale do Silício estão arrependidas, mas é ingenuidade achar que vão consertar as coisas sozinhas. A beleza das empresas atreladas às bolsas de valores é que o mercado reage à percepção de valor. Basta uma iniciativa coletiva organizada para fazer encolher essas empresas em virtude de suas práticas ilegítimas. Trata-se de abrir a caixa-­preta que está derrubando o avião das conquistas civilizatórias do pós-guerra.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2019, edição nº 2627

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