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Facebook e WhatsApp existirão juntos — e separados

A bilionária aquisição do WhatsApp pelo Facebook mostra que, em rede fechada ou aberta, o negócio de Mark Zuckerberg é um só: conectar pessoas

Na última quarta-feira, o Facebook surpreendeu o mundo ao anunciar a compra do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp por 19 bilhões de dólares. É a maior negociação do mercado de tecnologia desde 2001, quando houve a fusão entre as americanas AOL (America On-line) e Time Warner no valor de 162 bilhões de dólares. Ao arrematar o app, que reúne 450 milhões de usuários ativos, o Facebook transforma em aliado um de seus maiores concorrentes. A aquisição, contudo, impõe uma questão: como dois produtos em essência tão diferentes – enquanto a rede incentiva a exposição pública, o app convida à conversa privada – coexistirão sob o comando de uma mesma empresa? A contradição é aparente: o que o gigante da rede quer é construir um conjunto de aplicações que permita às pessoas se conectar. Não importa o canal: o negócio de Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, é a comunicação.

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O acordo bilionário foi construído em apenas dois encontros, separados por quatro dias. O namoro começou no dia 9 de fevereiro, quando Zuckerberg convidou para um jantar em sua casa, em Palo Alto, na Califórnia, Jan Koum, CEO e cofundador do WhatsApp. O anfitrião fez a oferta. O acordo foi selado no dia 14, data em que se celebra o Dia dos Namorados nos Estados Unidos. “Koum foi a um jantar especial com Zuckerberg e sua mulher, Priscilla Chan”, contou o jornal The New York Times. “Eles acertaram a compra enquanto saboreavam uma sobremesa de morangos com chocolates.” (Zuckerberg curtiu. E Priscilla?) Dias antes, Larry Page, CEO do Google, teria feito a sua proposta: 10 bilhões de dólares. Não levou.

Facebook x Aplicativos de mensagens instantâneas*
Facebook Apps
Mensagens (em bilhões) 10 70

Mensagens enviadas por usuários da rede (1,2 bilhão de pessoas) e dos apps (1,8 bilhão)

* WhatsApp, WeChat, LINE, KAKAO Talk e Viber

Criado em 2009 pelo americano Brian Acton e por Koum – ucraniano que teve uma infância miserável e aprendeu a programar com ajuda de livros emprestados em sebos -, o WhatsApp é o maior símbolo de transformação em curso no mundo virtual: a migração de usuários do SMS, o famoso torpedo, para programas de comunicação instantânea. Estima-se que, em 2012, esses apps tenham comido 23 bilhões de dólares da receita de operadoras de telefonia. No ano passado, cada usuário de celular economizou, em média, 200 reais graças a esses aplicativos. As mensagens trocadas pelo WhatsApp já superam o número de torpedos enviados em todo o planeta. O app ostenta ainda outra marca: registra cinco vezes o número de mensagens trocadas pelo Facebook diariamente. É aí que a trajetória do aplicativo trombou com a da rede social, forçando o gigante a voltar às compras. “O Facebook comprou, sobretudo, uma valiosa carteira de clientes”, diz Jack London, autor do livro Adeus, Facebook, que descreve a natureza volátil do mercado de redes sociais. A notícia da aquisição pegou de surpresa os mais de 6.000 funcionários da rede nos 36 escritórios regionais espalhados pelo planeta. Em alguns, houve comemoração, o que revela que a ascensão dos apps de mensagens instantâneas de fato preocupa.

Para manter a relevância de sua criação frente aos concorrentes, Zuckerberg vem mudando de estratégia. Aquisições passadas da rede decretaram o fim dos produtos comprados, caso do Gowalla. Considerado o maior rival do Foursquare, serviço de avaliação de estabelecimentos com uso de geolocalização, o Gowalla foi comprado em 2011 e, em seguida, incorporado ao Facebook Places – na prática, desapareceu. Com o Instagram, a história começou a mudar. Adquirido por 1 bilhão de dólares, em maio de 2012, o app de edição e compartilhamento de fotos manteve vida própria e incentivo adicional do novo dono. Assim, o número de usuários saltou de 30 milhões para 150 milhões.

Os principais apps de mensagens instantâneas
Usuários ativos
WhatsApp 450 milhões
LINE 350 milhões
VIBER 300 milhões
WeChat 272 milhões
Kakao Talk 100 milhões

Com o WhatsApp, a história deve se repetir: o app terá autonomia, apesar da mudança de dono. “O Facebook apoia a manutenção de um ambiente em que pessoas com mentes independentes criem companhias e se foquem no seu crescimento ao mesmo tempo em que se beneficiam da experiência e dos recursos da nossa empresa”, disse, no dia da aquisição do WhatsApp, Zuckerberg, em seu perfil na rede social. É uma boa indicação do que virá. A ideia é criar uma família de aplicações que tem, em seu DNA, a comunicação entre usuários, seja ela alardeada pelo território virtual (via Facebook), seja ela sussurrada em ambiente reservado (WhatsApp).

Com o aplicativo sob seu domínio, o Facebook terá condições de manter o posto de maior repositório de informações pessoais do planeta (a maior rede social do mundo, com 1,23 bilhão de usuários, já possui o maior acervo de imagens). Terá sob seu controle o serviço com o maior fluxo de mensagens já visto – e uma base de 450 milhões de números de telefones móveis, informações que podem ser cruzadas com dados de seu próprio serviço. Não menos importante, Zuckerberg ganha, enfim, a oportunidade de entrar no mercado chinês, de onde seu site foi banido 2009, para brigar pela atenção de mais de 600 milhões de usuários de internet. Lá, terá um rival à altura: o WeChat, da gigante chinesa Tencent, conhecido pelo público brasileiro pelas propagandas na TV com Messi e Neymar. Para unir as duas redes, o Facebook pode em algum momento criar um recurso que integre a troca de mensagens entre usuários do WhatsApp e de seu aplicativo nativo de conteúdos, o Messenger.

Uma funcionalidade em teste no WhatsApp parece já amarrar as duas redes, como um símbolo do que as duas fazem de melhor. Trata-se de um botão de compartilhamento, especialidade do Facebook. Por ora, o recurso é testado com discrição nos aplicativos Shazam, de reconhecimento de música, e BuzzFeed, do site americano homônimo. Com um clique, o usuário pode enviar conteúdos dos dois apps para uma conversa com seus contatos do WhatsApp. O resultado é animador, segundo informou o BuzzFeed: “Há mais tráfego proveniente do WhatsApp do que do Twitter.”

Há outro componente da aquisição bilionária que merece especial atenção: dinheiro, é claro. Por ora, a única fonte de receita do WhatsApp é a taxa de anuidade de 1 dólar que os usuários devem pagar após o primeiro ano de uso. É difícil achar quem já tenha feito o pagamento. A revista americana Forbes estima que, em 2013, esses pagamentos tenham chegado a 20 milhões de dólares. Então, em teoria, o Facebook recuperaria os 19 bilhões da compra no prazo de… 950 anos. É possível que Zuckerberg pense em alternativas mais lucrativas. Uma delas poderia ser a introdução no WhatsApp dos stickers, itens virtuais que representam gestos do mundo off-line. O LINE, rival japonês do app, faturou mais de 50 milhões de dólares no último trimestre de 2013 com a venda dos itens virtuais, o que equilave a mais da metade do lucro da companhia.

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Será especialmente interessante ouvir o que Koum terá a dizer se o WhatsApp levar adiante tais estratégias para fazer mais dinheiro. Isso porque o ucraniano sempre se mostrou um incansável crítico do modelo de publicidade, que sustenta os grandes da internet, incluindo o Facebook: 90% do faturamento da rede vêm de anúncios. “Cresci na União Soviética, em um mundo sem propaganda”, disse Koum à edição britânica da revista de Wired. Na entrevista, realizada dias antes da venda de seu negócio sem publicidade para o rei da publidade, Koum, que também fará parte do conselho executivo do Facebook, disse ainda o seguinte: “As pessoas precisam nos diferenciar de empresas como o Facebook e Yahoo!, que coletam dados dos usuários e mantém essas informações em seus servidores (…) Não somos uma plataforma de publicidade e não precisamos de uma base de dados pessoais.” Dezenove bilhões de dólares depois, é possível que ele tenha mudado de ideia.