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‘Eu vi Steve Jobs’

Por anos, correu o boato de que o executivo exercia uma influência quase incontrolável sobre plateias em suas apresentações. É pura verdade

Fui a minha primeira Macworld em 2008, em San Francisco, na Califórnia. Foi a última vez que Steve Jobs apresentou o principal evento dedicado a usuários de produtos Apple do planeta. A estrela daquela edição foi a primeira versão do MacBook Air, o notebook mais fino já produzido até então. Devo admitir logo: estar ali, próximo ao palco e a poucos metros de Jobs, foi uma experiência incomum.

Depois que as apresentações de Jobs se tornaram frequentes, passou a ser lugar-comum dizer que seu carisma criava um “campo de distorção da realidade”. Ou seja, tudo o que ele falava ou mostrava seria apreendido pelos sentidos da plateia de forma alterada – na prática, de maneira encantada. Devo admitir novamente: foi exatamente essa a sensação que tive.

A plateia ficava em estado de êxtase cada vez que o executivo repetia uma frase, claramente um recurso retórico que pretendia valorizar seus produtos: “One more thing…” (Tem mais uma coisa). Gritos e assovios explodiam entre os ouvintes. Ninguém consegue fazer isso no universo da tecnologia. Cada palavra, cada gesto, todos ensaiados à exaustão, atraíam ainda mais a audiência, que sequer piscava a certa altura.

Aficionados pela Apple, fanáticos por Jobs, os fãs pareciam ter a impressão de que assistiam à transformação do mundo diante de seus olhos. O curioso é que nem tudo o que se via era de fato novidade – o que revela o quão magnético era Jobs. Um exemplo: durante a apresentação, Jobs mostrou uma atualização do iOS, na época ainda a versão 1.1.3, que tinha vazado na internet semanas antes. Contudo, a cada frase de Jobs sobre o produto, a cada imagem do sistema exibida, ouvia-se um “Oh!” crescente da plateia, seguido de aplausos. Ou seja, o público reagia como se visse algo inédito. Não era.

O show começara antes, com o lançamento de um novo produto, o Time Capsule: colocar um roteador Wi-Fi com um disco rígido para fazer backups. Trata-se de uma ideia incrivelmente simples, mas que ninguém havia proposto àquela altura. O projeto, como de costume, vinha embalado por um design elegante. Devo admitir mais uma vez: no exato momento em que Jobs apresentava o Time Capsule, tive a absoluta certeza de que precisava de um.

E o que dizer da entrada em cena do MacBook Air? Quando Jobs retirou o finíssimo notebook de um envelope pardo… foi o ápice do evento. Especialmente porque – eis mais um truque do executivo – o envelope ficara à vista de todos durante toda a apresentação: abandonado sobre a mesa, onde também estava a garrafa de água que Jobs sempre carregava consigo. Quem poderia pensar naquilo além de Jobs?

Deixamos todos o evento com a sensação de que a Apple é a maior, a melhor, a mais inventiva empresa de tecnologia do munto. Saímos também dispostos a gastar o que fosse preciso para adquirir um de seus produtos – e usufruir de suas vantagens. Devo admitir pela última vez: eu vi meu mundo mudar naquele dia.