‘EA Sports FC 27’: bonito e divertido, mas ainda desvaloriza o Brasil
Simulador da Electronic Arts mantém principais atributos, porém cobra preço alto por novidades limitadas e continua ignorando boa parte do futebol brasileiro
Uma das tradições mais sólidas do mundo dos videogames é o lançamento anual de um novo game de futebol da Electronic Arts e com ele a dúvida: vale investir seu dinheiro nele?
O jogo que por décadas era conhecido como FIFA e agora se chama EA Sports FC recebe sua atualização periódica e repete os erros e acertos de sempre. Gráficos incríveis, controles gostosos de jogar, alto grau de personalização, modos de jogo de sucesso com mais profundidade e novidades rasas.
E sim, mantém também um descaso gigante em relação ao futebol brasileiro, o que é cada vez mais difícil de entender e aceitar. Ainda que não seja mais um produto licenciado da FIFA, o simulador reforça a visão eurocêntrica da entidade máxima do futebol e retrata com glamour as competições e clubes da Europa, assim como uma visão plastificada do futebol como estilo de vida que parece mais repetir os comerciais exagerados de marcas de material esportivo do que a realidade variada e plural do futebol pelo mundo.
A excelente narração em português segue no comando de Gustavo Villani e comentários de Caio Ribeiro, mas novamente, não temos nenhuma divisão do Campeonato Brasileiro no game. Da mesma forma, nenhum estádio do Brasil está disponível no EA Sports FC 27.
Times brasileiros até aparecem, mas apenas em modos de jogo específicos que permitem usar os clubes participantes das edições atuais da Libertadores e da Sul-Americana e mesmo assim quase todos com jogadores genéricos – por exemplo, Neymar virou Rochelinhas equanto Memphis Depay virou Neves.
A única exceção nas competições sul-americanas é o Botafogo, que aparece com seu elenco retratado com jogadores reais. Outra bem vinda exceção também é o Bahia, esse sim disponível em qualquer modo de partida e com seu elenco real.
Ainda assim, é difícil aceitar com tranquilidade o fato de que o maior game de futebol do planeta tem tanta dificuldade em retratar o cenário brasileiro, sendo que o rival eFootball, da Konami, mesmo sem ter o mesmo prestígio e popularidade da época em que se chamava Pro Evolution Soccer, traz a Série A e a Série B do Brasileirão, com times e elencos licenciados e uma ampla seleção de estádios nacionais.
Dentre as principais novidades do game está o The Grounds, uma espécie de mundo aberto para explorar com diversos modos simples de partida online e a possibilidade de personalizar o visual de um avatar. A ideia é boa e tem potencial para evoluir, especialmente por esse tipo de ‘jogo de mundo aberto’ ser algo popular na indústria e outros games esportivos já terem feito isso com sucesso, em especial a série de basquete NBA 2K, mas no FIFA soa ainda como amplo potencial desperdiçado.
O The Grounds não traz incentivo para explorar o mapa e parece um menu de luxo para diferentes minigames, como partidas de 3 contra 3, uma mistura de futebol com basquete e outros mais. Até exista uma vaga tentativa de construir uma narrativa conduzida por encontros com jogadores famosos como Kylian Mbappé e até figuras fictícias marcantes do universo do game, mas é muito pouco – e no passado já foi feito de forma muito melhor com o modo A Jornada, que apareceu em FIFA 17, 18 e 19.
No lançamento, os controles respondem bem e parecem ter menos assistência da inteligência artificial do game do que de costume, possibilitando estratégias mais complexas. Cruzamentos funcionam de forma diferente, assim como as corridas de alguns jogadores e o comportamento de zagueiros, mas tudo isso pode ser profundamente personalizado e atualizações online ao longo dos meses feita pelos desenvolvedores também costumam acontecer e mudar a experiência.
Quem é fã do modo carreira e gosta de gerenciar tudo nos mínimos detalhes pode apreciar negociações mais complexas do que de costume também, enquanto o modo FUT volta sem grandes novidades e o game mantém a opção de jogar futebol feminino, algo infelizmente ainda raro de se ver em videogames – inclusive, o EA Sports FC 27 traz uma versão do time feminino fictício do AFC Richmond, da série Ted Lasso.
Por fim, visualmente continua sendo uma experiência exuberante, com animações fluidas e recriações detalhadas de estádios, atletas, uniformes e outros elementos do espetáculo da bola. Claro que alguns momentos podem parecer estranhos, o tal efeito do ‘vale da estranheza’, e há inevitáveis e hilários bugs de animação, mas é daquelas situações em que pessoas desavisadas vendo de longe podem achar que se trata de uma transmissão real de partida.
Em resumo, o game reforça pontos fortes da edição anterior, mas não justifica o alto preço cobrado, ainda mais considerando que o antecessor EA Sports FC 26 já pode ser encontrado em promoções muito generosas e tem a opção de jogar uma recriação quase completa da Copa do Mundo de 2026.





