Cuidado: você pode estar debatendo política com um robô criado por IA
Perfis falsos criados por inteligência artificial são usados para convencer o eleitor a votar ou a rejeitar candidatos
Um levantamento feito por especialistas em inteligência artificial mostra que robôs digitais, ou ‘neurobots’, estão influenciando os eleitores.
Segundo o sociólogo e estrategista político Marcelo Senise, uma boa parte dos dos personagens que hoje aparecem atuantes em comentários nas redes sociais não são seres humanos.
Senise é titular do Instituto Brasileiro de Regulamentação da Inteligência Artificial, entidade privada que acompanha as redes sociais. O trabalho finalizado pelo instituto nesta semana analisou mais de 33 mil contas ligadas a partidos e candidatos.
O sociólogo explica que a IA cria personagens e diálogos. “Muitas vezes o eleitor está trocando mensagens em redes sociais com um personagem fictício, criado por IA”, diz. “Em períodos eleitorais, os neurobots servem para incentivar o voto em alguém ou até para desestimular o eleitor a votar”.
O levantamento mostrou que 24% das contas analisadas são ‘prováveis’ neurobots. Este seria o chamado ‘índice de contaminação’ pela IA observado pelos especialistas.
O levantamento foi feito com base na plataforma Sentinela Eleitoral/Polijetro, tecnologia usada para detectar robôs em redes sociais. Senise ressalta que eleitor muitas vezes vê a foto de uma mulher atraente, por exemplo, mas ela não existe. Os perfis simulam interação humana e chegam a ‘namorar”. “Eles manipulam a percepção”, ressalta.
A criação de perfis por IA atinge todas as campanhas políticas. Os percentuais individuais de ‘contaminação’ por IA medido pelo instituto foram de 34% no PL Nacional, 31% no PT Brasil, 29% nas contas relacionadas a Flávio Bolsonaro, 22% em Lula, 21% em Romeu Zema, 18% em Ronaldo Caiado, 16% em Renan Santos e 14% em Augusto Cury.
Isso não significa que os candidatos estejam pagando alguém para produzir desinformação, alerta Senise. “O neurobot pode ser criado por terceiros. São mensagens manipulativas, para votar a favor ou contra o candidato. Trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana, se multiplicam”.
Os especialistas alertam que o uso de IA nas eleições torna-se uma discussão urgente. O tema é alvo de regulamentação do TSE. “A Justiça Eleitoral avançou corretamente na tentativa de reduzir a interferência algorítmica das plataformas e disciplinar sistemas de inteligência artificial”, diz o estudo.
Para o instituto, quanto maior se torna o peso da circulação realizada por pessoas, apoiadores, influenciadores e redes de terceiros, maior também se torna a necessidade de diferenciar mobilização legítima de simulação artificial. “O desafio não é impedir que cidadãos façam política. Ao contrário: é proteger precisamente o espaço da participação humana para que ele não seja progressivamente ocupado por infraestruturas capazes de parecer cidadãos”, destaca o estudo.





