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Corpo a corpo eleitoral pode ocorrer no Twitter, diz executivo

Em visita ao Brasil, o diretor de políticas governamentais da rede dá aula de boas práticas a lideranças partidárias de olho na eleição de outubro

Por Rafael Sbarai 18 Maio 2014, 10h02

“Admitir, por exemplo, quais tuítes são publicados pelo político ou por sua equipe mostra um jogo real em que o usuário é o maior beneficiado.”

Faltando cinco meses para as eleições no Brasil, o Twitter iniciou oficialmente seu trabalho de corpo a corpo junto a políticos para fazer do microblog uma ferramenta de corpo a corpo com os eleitores. Para isso, desembarcou por aqui Adam Sharp, de 36 anos, diretor de políticas governamentais da companhia. Sharp foi um dos responsáveis pela criação, em 2011, do “Twitter Town Hall”, pelo qual o presidente Barack Obama, então candidato à reeleição, participava de uma sessão de perguntas e respostas com usuários do Twitter. A estratégia rendeu frutos e desde então a Casa Branca não larga a rede social. No Brasil, Sharp teve encontros com senadores, deputados, chefes de campanha e também candidatos. Ele se reuniu, por exemplo, com Eduardo Campos, pré-candidato à presidência pelo PSB, e sua virtual vice, Marina Silva (o encontro ocorreu depois da realização da entrevista reproduzida a seguir). “Ofereci recomendações sobre como ampliar o engajamento com o público”, diz o executivo. “A receita do político é universal: olhar no olho do cidadão, cumprimentá-lo, conversar por alguns minutos e, em seguida, pedir seu voto. O Twitter é a ferramenta ideal para iniciar esse diálogo no universo virtual.” Confira a seguir a entrevista que ele concedeu ao site de VEJA:

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Por que vir ao Brasil? Antes de responder a sua pergunta, queria deixar claro: não sou lobista. Minha visita está relacionada a uma prática comum na companhia: ensinar políticos a tirar vantagem do Twitter. Recentemente, visitei Japão, Alemanha e Austrália meses antes das eleições locais para apresentar as melhores práticas da rede. No Brasil, ministrei uma palestra para senadores e deputados em Brasília, além de realizar reuniões com partidos políticos e líderes de campanhas à presidência da República para falar, mas também ouvir questionamentos sobre a participação de cada um no microblog.

Eu e @eduardocampos40 no Twitter Brasil com @AdamS @leostamillo @guilhermerib pic.twitter.com/RII3iyWTDv

– Marina Silva (@silva_marina) 15 maio 2014

Por que um político deve estar no Twitter? A receita do político é universal: olhar no olho do cidadão, cumprimentá-lo, conversar por alguns minutos e, em seguida, pedir seu voto. O Brasil é muito grande para realizar essa tarefa. O Twitter é a ferramenta ideal para iniciar esse diálogo no universo virtual. Queremos que todos tenham o mesmo recurso para debater os assuntos que importam.

Que orientações o senhor forneceu aos políticos brasileiros? Basicamente, ofereci recomendações sobre como ampliar o engajamento com o público. As pessoas na América Latina são apaixonadas por política. Recomendamos manter uma sessão de perguntas e respostas dirigida aos cidadãos. É um recurso que oferece uma porta de entrada para o diálogo com a sociedade. Outra sugestão é usar uma marcação para identificar temas, as conhecidas hashtags. Estudos relativos aos temas políticos mostram que tuítes com a marcação elevam em 30% a interação. Mensagens com fotos também provocam bons resultados: ao tuitar com uma imagem, a chance de ganhar muitos retuítes é de 64%. O poder de concisão também é imprescindível: reunir, em uma frase de até 140 caracteres, números, frases fortes e links abastecem os eleitores de informações e ampliam a discussão no microblog.

O que não pode faltar em um perfil de um candidato? Autenticidade. É preciso ser verdadeiro. Admitir, por exemplo, quais tuítes são publicados pelo político ou por sua equipe mostra um jogo real em que o usuário é o maior beneficiado. Depois de anos e anos de uso da plataforma, cadastrados na plataforma já identificaram quando estão sendo enganados com mensagens artificiais.

O que é ser autêntico na rede? É ter um comportamento mais humano. É importante estar em rede para dialogar com a sociedade, mas cidadãos também gostam de conhecer a rotina de uma pessoa pública: saber se pratica esporte, se vai ao cinema… Tenho um exemplo. Em 2011, a população do Estado de Missouri ficaram sabendo de detalhes da vida pessoal da senadora Claire McCaskill por meio de seu perfil pessoal no microblog. Na época, ela havia revelado a seus mais de 60.000 seguidores o desejo de emagrecer. “Estou cansada de olhar e me sentir gorda. Falar sobre esse assunto publicamente talvez me mantenha mais disciplinada”, tuitou a senadora (confira tuítes a seguir). Semanalmente, Claire compartilhava a rotina do seu treinamento, inspirando seguidores a mudarem hábitos. E muitos dos tuítes eram engraçadíssimos: “É oficial: acabo de me divorciar do pão e do macarrão. Espero que algum dia possamos ser amigos novamente.” Cinco meses depois, ela voltou ao perfil para revelar que havia perdido 20 quilos. Isso certamente não vai vencer uma eleição, mas certamente dá um toque pessoal à comunicação na rede e pode aproximar candidatos e eleitores.

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I’m tired of looking and feeling fat. Maybe talking about it publicly will keep me on track as I try to be more disciplined.Off to the gym.

– Claire McCaskill (@clairecmc) 12 maio 2011

It’s official. I have divorced bread and pasta. I’m hoping someday we can be friends again.

– Claire McCaskill (@clairecmc) 9 setembro 2011

GOOAALLLLLLLL!! I did it! Lost 50 lbs. Thank you Team Charles and my new BFF…Mr Treadmill. Healthy food and lots of exercise.

– Claire McCaskill (@clairecmc) 8 outubro 2011

Qual foi seu contato com Barack Obama durante as campanhas presidenciais dos Estados Unidos? O contato com a equipe da Casa Branca e de Obama se intensificou nas vésperas das eleições de 2012, quando ele foi reeleito. Em julho de 2011, ajudei a desenvolver o “Twitter Town Hall”, uma parceria com Obama que previa uma sessão de perguntas e respostas por meio do Twitter. No dia do evento, eu estava apreensivo. A cinco minutos do início, fui surpreendido enquanto trabalhava na Casa Branca: de repente, surge um Obama empolgado diante de mim. “Estou pronto para tuitar. Vamos lá!”, disse para mim e para meu time. Tivemos um resultado extraordinário. Foram publicados mais de 160.000 tuítes relativos ao assunto. Foi um dia especial.

O senhor acredita que a popularidade de um político no Twitter pode garantir uma vitória nas urnas? É uma questão complicada, depende de cada processo eleitoral. Em 2012, o Twitter, em parceria com a empresa de monitoramento de tuítes Topsy, criou o Twindex, ferramenta que analisava em tempo real a aprovação dos usuários da rede aos candidatos Barack Obama e Mitt Romney. Foi nossa primeira grande ferramenta de big data com dados dos usuários. Obama ganhou nas urnas e no Twindex. No Brasil, podemos voltar a conversar em janeiro, quando teremos condições de analisar os dados e chegar a alguma conclusão.

Recentemente, a presidente Dilma voltou a usar o Twitter, após três anos de abandono do perfil. Qual é sua opinião sobre o retorno dela ao microblog? Não compartilho opiniões de estratégias de cada partido. É bom tê-la de volta. Seu time de comunicação percebeu a importância de usar o Twitter e temos ótimos resultados desde seu retorno.

A prática do astroturfing – que tem o objetivo de passar a impressão de que existe uma multidão a animar uma causa, quando na verdade o número de envolvidos é bem menor – preocupa o Twitter? Estamos cientes desse fenômeno, mas devemos lembrar que ele não é novo: só foi intensificado com os recursos tecnológicos. Nós temos políticas claras para combater algumas questões e tenho certeza de que o Twitter está pronto para evitar qualquer problema que fere os termos de uso do serviço.

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E quanto ao exército de robôs, perfis forjados para ajudar na propagação de uma mensagem na rede? Recentemente, o Twitter aperfeiçoou o sistema para evitar fraudes na rede. Posso garantir que as regras estão mais rígidas e vamos combater esse abuso com maior facilidade.

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