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Como a era digital preserva a história da humanidade

O Projeto Mosul é exemplo ao reconstruir artefatos destruídos pelo ISIS. A iniciativa pode ser a arma definitiva para conservar monumentos milenares que usualmente são destruído em meio a guerras e ataques terroristas.

Os mais de 200 000 anos da saga do homem moderno estão inscritos nos documentos, monumentos e artefatos que nossos ancestrais deixaram para trás. A arqueologia se ocupa de fazer sentido daquilo que só subsistiu como fragmento, mas há muito que se perdeu para além da salvação. A computação, mais uma vez, pode mudar essa regra. A possibilidade de digitalizar seja o que for, de documentos históricos ao design de uma estátua milenar, oferece uma nova forma de preservar o que a civilização constrói. E as técnicas de impressão 3D, que evoluem rapidamente, podem até mesmo dar existência material ao que o tempo, ou o homem, destruiu.

É uma transformação tecnológica que vem em boa hora, em um período tenebroso no qual terroristas destroem patrimônio cultural para impor suas crenças radicais. Caso do que faz o Estado Islâmico, que demole tudo o que, na sua interpretação fanática, está em desacordo com o islamismo. Foi esse o destino de inestimáveis artefatos históricos de 3 000 anos do acervo do Museu de Mosul, no Iraque. Para que essas maravilhas milenares não caiam no esquecimento uma equipe de designers, engenheiros, arqueólogos e arquitetos se reuniu para digitalizar cada uma das relíquias vandalizadas. O resultado é impressionante e, mais que isso, inspirador.

O Projeto Mosul – nome dado em homenagem ao museu assaltado pelo EI – é criação dos arqueólogos americanos Matthew Vincent e Chance Coughenour. Ao site de VEJA eles explicaram que “logo que o lançamos, pessoas de diferentes formações, como desenvolvedores de games e estudantes de ciência da computação, demonstraram interesse em ajudar. O vídeo da destruição do EI, muito gráfico e claro, foi o gatilho para entendermos o quão precária é a conservação histórica nessas áreas conflagradas”. Para dar início ao trabalho em fevereiro deste ano, o grupo começou a garimpar voluntários dispostos a correr o mundo atrás de fotografias, ou qualquer tipo de registro, dos objetos e monumentos atacados.

Mesmo com o que consideram ser pouco material de base, o Projeto Mosul já reconstituiu virtualmente quinze dos objetos destruídos no Museu de Mosul, como a estátua iraquiana de um leão. Mas esse é apenas o início. A ideia é reconstituir todo o edifício e as obras que ele abrigava. Quando concluído, será possível navegar pela versão digital de Mosul como se fosse um jogo de computador, ou um dos museus digitalizados pelo Google em sua iniciativa Art Project. Após isso, a meta é utilizar impressoras em 3D para fabricar modelos reais (mas em miniatura) de todo o patrimônio histórico atacado. A longo prazo, ter o design virtual de cada uma das peças ainda poderá ajudar na restauração completa dos monumentos.

É enorme, porém, o desafio a ser encarado. O ataque ao Museu de Mosul é o que ganhou maior repercussão. Isso porque o EI divulgou em fevereiro um vídeo no qual exibia terroristas derrubando estátuas do acervo com as mãos, ou até com marretas. Obras dos Impérios Assírio e Otomano foram os primeiros alvos da destruição. Um funcionário do museu relatou que os extremistas islâmicos ainda queimaram coleções de livros e manuscritos raros, num total de 100 000 documentos incinerados. A justifica do EI para tamanha estupidez? “O profeta Maomé pediu que destruíssemos as obras de adoração a outros deuses que não Alá”, falou um de seus porta-vozes.

Mas o ISIS não parou em Mosul. Assaltou também o antigo sítio arqueológico assírio de Nimrud, no Iraque. O local foi escavado em 1840 pelo britânico Austen Henry Layard, que descobriu lá estátuas de touros guardiões com asas, enviados depois para o British Museum, na Inglaterra. Depois, outro vídeo confirmou que os terroristas destruíram a cidade de Hatra, de mais de 2 000 anos, e considerada um patrimônio mundial pela Unesco.

Os ataques deixam claro que a “guerra santa” propagada pelo exército de lunáticos não é só contra indivíduos de carne e osso. Como forma de impor sua visão de mundo, tentam extinguir vestígios de culturas milenares. Nesta semana surgiu mais uma péssima notícia: o ISIS já domina as ruínas de Palmira. Eles prometeram, de forma que parece quase jocosa, preservar a cidade histórica e, repetindo palavras dos extremistas, destruir só o que representa tradições politeístas. Mas é insensato confiar nas de fanáticos e assassinos.

O esforço em digitalizar, e assim preservar, o que o EI toca e destrói é apenas um alento em meio ao cenário de caos criado pelos terroristas. Mas quando se volta o olhar para o passado é possível dimensionar a importância de tal iniciativa. Das sete maravilhas do mundo antigo selecionadas na Antiguidade Clássica pelo poeta grego Antípatro de Sídon, apenas uma sobreviveu ao tempo: a pirâmide egípcia de Quéops, construída há 4 600 anos. Como se extinguiram as outras seis? Ou em intempéries climáticas, como terremotos, ou em guerras, invasões e saques. A destruição do patrimônio histórico é elemento comum na maioria dos grandes conflitos. Durante a II Guerra Mundial, 1 500 quadros avaliados em 1,5 bilhão de dólares desapareceram. Na época, o conjunto de obras foi considerado “arte degenerada” pelos nazistas.

Ao longo dos séculos, relatos, desenhos, pinturas ou fotografias impediram que objetos preciosos do passado se perdessem completamente no esquecimento. A era digital promete ir além, ao permitir que se produzam réplicas fiéis ao originais. Quando se joga o monumento virtual na internet ele vai para o que se conhece como nuvem, armazenado em centenas de milhares de servidores espalhados pelo planeta. Ali, ao menos como uma sequência binária de zeros e uns, ele estará sempre a salvo para o conhecimento futuro.