CEO da Epic Games acusa Apple de tentar ‘explodir’ as boas relações entre Brasil e EUA
Tim Sweeney chama as cobranças da Apple de 'taxas inúteis' e diz que a fabricante paga lobistas em Washington para pressionar país
Nesta quinta-feira (30), a Epic Games lançou oficialmente sua loja de aplicativos para iPhones no Brasil, marcando o retorno de Fortnite aos dispositivos da Apple fora da App Store. Em coletiva de imprensa virtual com jornalistas brasileiros, o CEO da Epic, Tim Sweeney, foi direto ao apontar o alvo central da empresa: “A Apple está tentando explodir todas essas boas relações entre nossos países para preservar sua capacidade de violar a lei e extrair taxas ilegais”, disse, referindo-se à pressão que, segundo ele, a fabricante do iPhone exerce sobre o governo dos Estados Unidos para retaliar o Brasil pelas decisões do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O executivo foi além: “Digo isso como americano: sinto profunda vergonha do que a Apple está fazendo através de suas conexões governamentais.”
A abertura do sistema operacional da Apple é resultado de um Termo de Compromisso de Cessação (TCC) homologado pelo Cade em 23 de dezembro de 2025, que encerrou um processo administrativo aberto em dezembro de 2022 a partir de denúncia do Mercado Livre por suposto abuso de posição dominante na distribuição de aplicativos para iOS. Sweeney lembrou que o embate é antigo — “A Epic tem estado contra a Apple desde 2020” — citando vitórias judiciais nos EUA e decisões semelhantes na UE e no Japão. Com o TCC, o Brasil torna-se a terceira jurisdição a receber a Epic Games Store no iOS — mas, segundo o executivo, com uma diferença: a Apple “bloqueia lojas concorrentes como a Epic Games Store no iPad” apenas no Brasil, algo que a Europa já a obrigou a liberar.
As críticas mais duras de Sweeney foram reservadas ao modelo de cobrança. Segundo ele, a Apple cobra 21% sobre compras processadas por sistemas de pagamento concorrentes dentro dos aplicativos: “Serviços de pagamento normais cobram taxas de 2 ou 3%, que é o custo real do processamento de pagamentos. A Apple mais que dobra isso e cobra uma taxa por não fazer absolutamente nada.” Para compras concluídas fora do app, via link externo, a cobrança é de 15% — “uma taxa inútil (…) completamente ridícula e que precisa parar”, disse. Já as lojas alternativas instaladas no aparelho, caso da própria Epic Games Store, pagam 5% sobre todo o faturamento gerado com seus clientes: “Isso torna muito difícil para qualquer loja competir e repassar a economia aos usuários”, resumiu.
A fricção também aparece na instalação: na União Europeia são seis etapas para baixar uma loja alternativa; no Brasil, nove — incluindo, segundo Sweeney, seis telas só para confirmar a instalação da Epic Games Store. “A Apple tem os melhores designers de interface de usuário do mundo, então, quando você vê a Apple criar uma interface ruim, sabe que é intencional”, afirmou. Ele também acusou a fabricante de exigir dos desenvolvedores um mecanismo de rastreamento de transações — “a Apple exige que desenvolvedores incluam um ‘spyware’ de pagamento para monitorar todas as transações digitais feitas pelo usuário” —, o que, segundo ele, afasta estúdios interessados em entrar na loja: “muitos desenvolvedores têm uma objeção moral em permitir que a Apple monitore essas transações em que não deveria estar envolvida.” A Apple nega as acusações e defende que seus processos de aprovação são salvaguardas necessárias para proteger os usuários contra fraudes, golpes e softwares maliciosos.
Por isso, a Epic Games Store estreia no iOS brasileiro apenas com Fortnite e Rocket League Sideswipe, ambos da própria desenvolvedora. Sweeney afirmou que a meta é “alcançar dezenas de milhões de usuários” no curto prazo e, ao longo da década, “centenas de milhões ou bilhões” globalmente, “quando a Apple e o Google estiverem totalmente abertos à concorrência”. Apesar do lançamento, evitou comemorações: “ainda não alcançamos a vitória mundial na luta contra a Apple”, disse, prometendo manter a pressão até que as práticas da Apple “tenham mudado em todo o mundo”.







