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“Aqui no Vale do Silício é fácil empreender, tudo anda. Não é como no Brasil”

Diz Marcelo Do Rio, que fundou e vendeu a cervejaria brasileira Devassa antes de se mudar para a Califórnia e lá criar a Graava, startup que fabrica uma câmera capaz de editar automaticamente os vídeos registrados

Três brasileiros ambicionam bater a GoPro, famosa fabricante americana de câmeras portáteis, com uma startup fundada no Vale do Silício. Mais que vencer a rival, querem até melhorar os produtos da concorrência. Essa é a meta do trio Bruno Gregory, Marcio Saito e Marcelo do Rio, que há um ano abriu as portas da startup Graava, sediada nas redondezas de São Francisco, na Califórnia.

A Graava criou uma câmera, de mesmo nome, que, além de registrar os arredores, é munida de um algoritmo capaz de realizar a edição automática dos vídeos. As vendas online tiveram início, por 399 ou 249 dólares (se comprada antes de 1º de setembro), e ela chega ao mercado em fevereiro de 2016. Como funciona: se o usuário deixa o aparelho filmando uma festa de aniversário durante 2 horas, por exemplo, e depois escolhe que precisará apenas de 15 minutos de imagens, o dispositivo corta o restante, agrupando no resultado-final só o que é tido como mais relevante da gravação – como os momentos nos quais foram dados presentes ao aniversariante.

“Todas as outras câmeras só trazem o problema da edição, que costuma demorar uma hora para cada minuto de vídeo”, pontua Marcelo Do Rio, um dos fundadores. “Nós trouxemos uma solução própria para o mundo digitalizado e que poderá depois ser acoplada mesmo pelas câmeras concorrentes, como a GoPro”, acrescenta.

Antes de rumar para o Vale do Silício, Do Rio ganhou reconhecimento ao fundar a cervejaria Devassa, em 2007 adquirida pela Schincariol. Após a venda, ele se tornou mentor de empreendedores novatos e investidor de startups. “Nisso, comecei a mergulhar no mundo da inovação. O que me despertou uma inquietude. Comecei a querer saber mais desse universo da tecnologia e há dois anos resolvi mergulhar de vez no Vale do Silício”, conta.

Em entrevista ao site de VEJA, ele fala da Graava e de como é muito mais fácil fazer negócios no Vale do Silício, mesmo para um brasileiro, do que no Brasil.

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De onde surgiu a ideia da câmera? É aquela história da maçã que caiu na cabeça e fez surgir a ideia. Um de meus sócios passou por um acidente de trânsito, atropelado em sua bicicleta por um carro. O motorista fugiu por imaginar que não estava sendo filmado. Mas ele estava, e o “pegamos”. Aliás, se soubesse que estava sendo filmado, provavelmente ele teria medo de se esquivar. Então, veio a pergunta “por que as pessoas não filmam tudo na vida?”. Descobrimos que havia um problema. Com outras câmeras, as pessoas gastam mais tempo editando os vídeos que fazem do que gravando. Demora uma hora, em média, para tratar um minuto de vídeo. É uma perda de tempo que desmotiva as pessoas a gravar suas vidas. Foi aí que surgiu a Graava. Uma plataforma que consegue fazer sozinha a edição das imagens para as pessoas.

Como é feito isso? A Graava emula a forma como o cérebro cria e lembra memórias. Nossa mente associa experiências a pequenos flashs do passado, coisas que vemos e ouvimos e que nos marcaram. A câmera faz o mesmo. O que nos ajudou a possibilitar isso foi a popularização dos sensores, como o GPS e os acelerômetros. Com o crescimento da internet das coisas, agora há esses sensores em tudo, em óculos, relógios, ou mesmo em meias computadorizadas. É tudo barato e fácil de conseguir. São esses dispositivos que fazem a câmera notar, como nosso cérebro, o que é importante dentre o que grava.

Como é na prática? O registro em vídeo é como em uma câmera comum. Nosso diferencial é o software, não o hardware. É o que tem dentro, não fora. Suponha que um usuário dará um passeio de moto de 30 minutos. Com a câmera, grava tudo. Aí, o GPS acoplado consegue identificar momentos de mudanças no trajeto. Por exemplo, se há uma freada brusca. Ou se o piloto acelera de 60 para 100 quilômetros por hora. Esses momentos são registrados pelo algoritmo como importantes, e a eles são dados, automaticamente, pesos de importância. As informações do GPS então são combinadas à proveniente de outros sensores, como o acelerômetro. Em resumo, a Graava consegue saber, por exemplo, quando se faz uma curva mais fechada. Ou quando pessoas aparecem em frente à moto. É possível ainda, com comandos de voz, dizer à câmera quando uma situação é importante. Tudo isso é organizado pelo algoritmo, que então destacará o que se passou de mais bacana nessa viagem de moto. O usuário pode selecionar, por exemplo, se quer uma edição de 5, 10 ou 15 minutos. A câmera proporciona isso automaticamente, compilando o que registrou de mais excitante nessa viagem. Por isso, até, apelidamos esse processo de “excitômetro”.

Normalmente, é mais difícil fazer hardware do que software para startups, por ser mais caro, exigir fábricas e projetos complexos de distribuição. Principalmente quando já se tem que competir com empresas estabelecidas, como no seu caso, que rivalizará com a GoPro, que faz a famosa câmera portátil de mesmo nome. Qual é o plano para superar esses problemas? Podíamos ter lançado só um aplicativo que possibilitaria a edição de vídeos. Mas não achei que isso chamaria atenção. Pode parecer inusitado, mas tirei isso de minha experiência com a cervejaria Devassa, que fundei no Brasil. Com a marca, lá no início, podíamos ter vendido apenas o chope, para barris. Seria mais fácil e prático. Mas decidimos engarrafar, criar um produto, um selo, para ter em mercados. Ou seja, passamos do software, o chope, para o hardware, o engarrafamento. Com isso, ganhamos muito mais em divulgação e em número de clientes. É o mesmo com a Graava. Ter feito um produto acabado, a câmera pronta, não só o software, nos dá maior visibilidade. Além disso, também proporciona ao comprador uma experiência mais completa, do jeito que queremos que ele tenha. Só conseguimos fazer tamanho barulho em torno do lançamento, com gente falando da Graava em todo o mundo, por ser esse produto acabado. Quanto aos desafios, escolhemos criar tudo com poucas pessoas no Vale do Silício. Mas a fabricação será com parceiras, donas de fábricas gigantes na Ásia. Essa foi a maneira de podermos garantir a produção em larga escala, mesmo sendo uma startup.

Será o suficiente para competir com a GoPro, inicialmente seu rival direto? Sim, conseguimos produzir o necessário para isso. Porém, é importante ressaltar que não queremos rivalizar com ninguém. Ocorre que nosso produto é único, incomparável com uma GoPro. Criamos não uma câmera, mas um software capaz de resolver o problema de qualquer câmera, o de editar facilmente e automaticamente os vídeos, sem que quem grave gaste tempo com isso. Aliás, nosso plano é ter nosso software em todas as câmeras, incluindo a GoPro. Quem quiser o nosso produto, pronto, poderá comprar conosco. Mas em breve ambicionamos também estar na dita concorrência. Se alguém quiser o produto de outra empresa, mas com nossa tecnologia de edição, poderá ter.

Como é diferente fazer negócios no Vale do Silício em comparação com o Brasil? Aqui a competição é absurda, mas as coisas andam de forma como nunca imaginei. Estou impressionado. Em menos de uma semana, abre-se uma empresa complexa na Califórnia. Às vezes leva um dia. Para fazer a Graava, eu e meu sócio assinamos virtualmente o documento, em locais diferentes, enviamos para o advogado, que resolveu tudo online. Não tivemos de ir em cartórios, pegar filas, encarar a infinita burocracia típica do Brasil, e que só tem ficado cada vez pior. Em nosso país, o empreendedor perde mais tempo, até meses ou anos, se dispersando com tudo isso do que com seu trabalho, em si. Gasta muito mais resolvendo empecilhos de nossa burocracia aracaica do que criando, fazendo negócios. Além disso, o ecossistema no Vale é muito mais aprimorado do que no Brasil. É fácil, por exemplo, encontrar especialistas no teu negócio, como um advogado expert apenas em startups de tecnologia com foco em produtos fabricados na Ásia. O mesmo vale para investidores, aqui fáceis de conseguir. Até pelo contexto. No Brasil, o investidor entra como sócio na startup, sendo responsável até por problemas trabalhísticos, mesmo que não tenha voz ativa no comando da companhia. No Vale, o investidor entra com dinheiro, e se arrisca com isso, e ponto. Não precisa se curvar, por exemplo, diante de questões burocráticas que surgem. Tenho certezaq eu veríamos muito mais inovação no Brasil se não houvessem tantos problemas burocráticos sem sentido no meio do caminho.