Após anos de esforços erráticos da indústria, chega a vez dos smartphones dobráveis
Eles finalmente cabem na mão e no bolso do consumidor
Por anos, os smartphones dobráveis prometiam muito, mas viraram um grande objeto de frustração para os consumidores. Quando fechados, os primeiros modelos lembravam controles remotos estreitos, nos quais digitar sem erro era quase um milagre. Abertos, revelavam telas internas quadradas que, ao reproduzir vídeos widescreen, eram engolidas por barras pretas. Com esse início desastroso, o negócio parecia ter sido enterrado. Mas as empresas não desistiram e parecem agora ter chegado a uma boa solução. A indústria convergiu para o chamado “formato passaporte” — curto, largo, com dimensões que lembram as do documento de viagem. Mais que tendência estética, o novo padrão resolve o problema de usabilidade que travava a categoria desde o início.
Os primeiros dobráveis apostavam em telas externas compridas e finas — bem mais estreitas que a tela de um celular comum. O design era elegante, mas pouco prático: o teclado espremido gerava erros, obrigando o usuário a abrir o aparelho até para responder a uma mensagem rápida. O apelido que a própria indústria deu ao problema — “ginástica de dedos” — resumia bem o sentimento geral dos usuários indignados.
O formato passaporte ataca esse gargalo por dois lados. Dobrado, o aparelho ganha uma tela de cobertura mais curta e larga, parecida com a de um smartphone comum, o que dá espaço lateral ao teclado e facilita alcançar o topo da tela com o polegar. Desdobrado, sua tela interna deixa de ser quadrada e passa a ter um formato mais retangular, como o de um caderno aberto, com espaço para dois aplicativos lado a lado, sem espremer o conteúdo. Para o entretenimento, o formato reduz o impacto das barras pretas em vídeos; para a leitura, a diagramação remete a um livro de papel.
A mudança ganhou peso simbólico quando a Samsung dividiu a família Galaxy Z Fold8 em duas apostas (ambas já disponíveis no país). O modelo padrão adotou a estética passaporte, com tela externa de 5,5 polegadas, no formato compacto de um smartphone comum, e tela interna de 7,6 polegadas, num formato mais quadrado, como um pequeno tablet pesando apenas 201 gramas. Já o Z Fold8 Ultra manteve o corpo estreito e alongado — mais parecido com aquele ao estilo controle remoto de antes. O mercado respondeu com clareza: pesquisas de intenção de compra registraram 59% de preferência pelo modelo em formato passaporte, contra apenas 26% para a versão Ultra — resultado que a própria pesquisa credita à busca por praticidade no dia a dia, e não à estética tradicional.
A Motorola entrou na disputa com o Razr Fold, trazendo tela externa de 6,6 polegadas, num formato longo e estreito, e interna de 8,1 polegadas, num design quase quadrado, além de bateria de silício-carbono e um sistema triplo de câmeras. O aparelho, também já à venda por aqui, se consolidou como rival de peso pela combinação de tela larga e autonomia acima da média. No caso do outro player forte desse nicho, o Google, o formato passaporte não é exatamente novo — foi invenção da empresa. O primeiro Pixel Fold, de 2023, trazia tela externa curta e larga, parecida com a de um smartphone comum, e a interna compacta e retangular, ideal para multitarefa e leitura; a crítica chegou a compará-lo a um passaporte de verdade. O Google abandonou a aposta um ano depois, mas agora volta à origem com seu Pixel 11 Pro Fold, ainda não lançado no Brasil.
O momento é estratégico: enquanto o mercado tradicional de smartphones enfrenta estagnação, a categoria dobrável emerge como filão de alta rentabilidade. O mercado global de telas flexíveis, avaliado em 36,43 bilhões de dólares em 2025, deve atingir 115,86 bilhões de dólares até 2034. Ao se impor como proporção capaz de popularizar os dobráveis, o formato passaporte sinaliza que a categoria amadureceu, deixando a fase experimental por um celular funcional — embora ainda custe caro: os modelos vão de 9 199 a quase 17 000 reais. Após anos pedindo ao consumidor que se adaptasse, a indústria começa, enfim, a se dobrar ao consumidor.
Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010







