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Ah, não, outra rede: Clubhouse vira mania — resta saber se vai sobreviver

A nova plataforma é um misto de clube privado, sala de bate-papo e programa de rádio

Por Sabrina Brito Atualizado em 12 fev 2021, 10h13 - Publicado em 12 fev 2021, 06h00

Quando se pensava que não haveria nada de novo tão cedo em termos de redes sociais, uma vez que Facebook, Instagram, Twitter e Reddit, com alguns derivados e cópias, têm presença hegemônica na internet, eis que surge uma sensação que está tomando de assalto os jovens adultos que adoram ouvir a conversa dos outros e até se meter nela. Trata-se do aplicativo Clubhouse, uma tendência entre famosos, curiosidade do momento e tentação irresistível para quem teme perder as novidades.

Ao contrário de seus rivais pela atenção de usuários, o Clubhouse não foi feito para a publicação de fotos, vídeos e textos. A interface é sutil, ainda mais simplificada que a da maioria dos aplicativos, e permite apenas interação por voz. Assim, a rede se organiza em salas de bate-papo para os mais diversos temas — literatura, cinema, viagens, negócios, sexo —, dos mais amenos aos mais picantes, conforme a preferência do usuário.

De acordo com as predileções, o aplicativo sugere salas de bate-papo adequadas ao gosto do indivíduo. Dentro da conversa, cada pessoa adota a postura que preferir, seja apenas de ouvinte ou participando efetivamente do debate — mas ela só pode falar se o moderador permitir, já que ficaria impraticável 5 000 participantes (o limite por sala) falando ao mesmo tempo. As conversas podem ser informais, entre amigos, ou estruturadas, na forma de conferências. Não raro, por exemplo, um famoso é convidado a ser palestrante no grupo.

Lançado em abril do ano passado por um executivo e um engenheiro do Vale do Silício, Clubhouse virou assunto da hora quando Elon Musk, bilionário da Tesla e da SpaceX, comentou que teve uma conversa pelo app com Vlad Tenev, CEO da Robinhood, corretora protagonista na valorização inédita das ações da empresa de videogames GameStop. Em maio, a rede social tinha 1 500 usuários e valia cerca de 100 milhões de dólares. Agora, tem 6 milhões de inscritos e valor de mercado estimado em 1 bilhão de dólares, o que a instala no seleto grupo dos supervalorizados unicórnios digitais.

arte Clubhouse

Seletividade, a propósito, é o termo apropriado para o aplicativo. Ele é exclusivo para convidados e cada usuário tem direito de convidar só duas pessoas. Além disso, só há versão para iPhone — donos de smartphones Android estão barrados no baile, pelo menos por enquanto. Além de Musk, estão na rede social o diretor da Globo, Boninho, e o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, entre outras celebridades. Outro diferencial é o fato de que nenhuma conversa fica registrada na plataforma, ainda que qualquer um possa gravar o bate-­papo por outro dispositivo — a conversa de Musk, por exemplo, foi transmitida no YouTube.

A liberdade de expressão oferecida pelo Clubhouse mostrou-se atraente, mas não permanente. Quando chineses começaram a comentar assuntos polêmicos, como os protestos em Hong Kong, o governo tratou de tirar logo a plataforma do ar. Quanto à exclusividade, aqueles que têm boa memória devem lembrar que, em 2011, o Google tentou criar sua própria rede social, o Google+, que funcionava por meio de convite. Apesar do alvoroço inicial, desidratou-se até ser desativado. Alguns anos antes, o próprio Facebook exigia que o convite para ingressar partisse de um usuário (ainda que sem limite de envios), política que acabou abandonada.

A exclusividade desse clube, porém, está com os dias contados. Se a empresa quiser mesmo ganhar dinheiro com sua plataforma, ela precisará ser abrangente, oferecendo mais convites e a versão para Android, sistema operacional predominante no mundo. No entanto, até que a festa seja aberta para todos, já tem gente disposta a pagar quase 300 reais por um convite no Mercado Livre. Isso faz com que analistas do setor fiquem empolgados com o futuro da nova plataforma. Só no Brasil, os programas de áudio chamados podcasts tem mais de 28 milhões de ouvintes, indicativo do potencial a ser explorado: “Tem tudo para ser um sucesso, pode ser um companheiro em tempos de home office”, diz Edney Soares de Souza, da Digital House Brasil. Já os mais céticos se perguntam para que ter mais uma rede social na vida, em um ambiente tecnológico que, em vez de ampliar o tempo livre, parece estrangular cada vez mais os momentos de lazer e aprendizado. Como diria Groucho Marx (1890-1977), o mais irônico da velha guarda de comediantes, “não quero fazer parte de nenhum clube que me aceite como sócio”.

Publicado em VEJA de 17 de fevereiro de 2021, edição nº 2725

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