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A nova inteligência coletiva da rede

Crescem na web os serviços que selecionam usuários para responder a dúvidas de outros usuários - em conjunto, eles são uma espécie de Wikipédia para assuntos particulares

A Wikipédia, não há dúvida, é um dos melhores frutos da internet. Você quer saber quando nasceu Napoleão ou qual o peso de um átomo de carbono? O conhecimento acumulado em 20 milhões de artigos em 283 línguas, por 100.000 colaboradores, pode ajudá-lo. Não à toa, 365 milhões de pessoas atualmente recorrem a ela. Mas experimente apresentar as seguintes questões à enciclopédia colaborativa: turistas brasileiros precisam de visto para entrar na Islândia? Como fazer o cabelo crescer mais rapidamente? Onde há bons cursos de sommelier na cidade de São Paulo? Você se frustrará. O mesmo pode acontecer ao procurar resposta a essas indagações nos buscadores. Sites como o brasileiro Ledface e o americano Quora, contudo, se esforçam em criar um ambiente propício ao surgimento de respostas adequadas. Embora recorram ao mesmo conceito no qual se apoia a Wikipédia – a chamada inteligência coletiva -, eles têm uma característica diversa daquela da enciclopédia on-line: atendem a demandas extremamente pessoais.

O Ledface, por ora, é quem melhor explora o conceito da “colaboração focada em conhecimento subjetivo”. O serviço, lançado há quatro meses, reúne uma minúscula base, de aproximadamente 4.000 usuários. Mesmo assim, já chamou a atenção de investidores que colocaram 200.000 reais no negócio. Até o fim do ano, mais 500.000 reais devem ser aportados ao serviço.

O sistema mistura inteligência artificial e inteligência coletiva. Por trás da interface, um algoritmo desenvolvido por um grupo de ex-estudantes da Unicamp analisa o perfil dos cadastrados e encaminha a questão para aqueles mais gabaritados a apresentar a solução. Até cinco são convocados: eles formulam a resposta, enviada em seguida ao remetente. No caso da hipotética viagem à gélida Islândia, a incumbência de esclarecer se turistas brasileiros precisam de visto recairia sobre usuários que declararam ter algum grau de intimidade com o assunto – uma viagem ao país europeu ou conhecimento da burocracia internacional, por exemplo. É uma grande diferença em relação a sites que tentaram prestar o mesmo serviço, como o Yahoo! Respostas: nesse caso, não há nenhum tipo de controle sobre quem atende às demandas de usuários.

“O Google consegue nos dizer quem foi Bruce Lee, mas não pode sugerir seus melhores filmes”, explica o engenheiro de produção Horacio Poblete, fundador do Ledface. “Por isso, decidimos desenvolver a plataforma.” A meta é reunir nela ao menos 100.000 usuários. O número, nos cálculos do empresário, deve garantir acurácia ao sistema. Esse é um caso em que quantidade se traduz em excelência. Quanto mais usuários na rede, maior a diversidade de perfis, maior a gama de conhecimentos – e maiores as chances estatísticas de uma resposta ser satisfatória. “Com 100.000 usuários, poderemos, em prazo menor, tratar de temas tão diversos como moda, educação, gastronomia, música ou sustentabilidade”, diz Poblete. Continue a ler a reportagem

O Ledface é inspirado em um serviço americano chamado Aardvark. Comprado pelo Google por 50 milhões de dólares em fevereiro de 2010, o site foi desativado em seguida. A onda de inteligência coletiva que corre na rede, contudo, já faz soprarem rumores no mercado de que o gigante de buscas vai reativá-lo em breve. Por enquanto, o mercado americano é suprido pelo Quora, fundado em 2009 por dois engenheiros do Facebook, Adam D’Angelo e Charlie Cheever. Estima-se que o serviço reúna cerca de 500.000 cadastrados. O número de visitas à página cresceu quase oito vezes em um ano, atingindo a marca de 2 milhões de visitantes únicos em dezembro, de acordo com dados da Comscore. Seu valor de mercado pode chegar a 300 milhões de dólares. A empresa não fala em números: “Não compartilhamos métricas”, diz Marc Bodnick, porta-voz da companhia.

O serviço americano é conhecido por reunir um grupo bastante seleto de profissionais do mercado de tecnologia. A base é composta por engenheiros das principais empresas do setor, como Facebook e Google. O britânico Adisa Nicholson, de 19 anos, estudante de ciências da computação da Universidade Coventry, é colaborador do Quora e vê no site uma chance de acrescentar conhecimento às avançadas – mas limitadas – ferramentas de buscas ou mesmo à Wikipédia. “O Quora permite às pessoas expressarem seus pontos de vista à respeito da vida, do mundo ou mesmo de um tópico muito específico”, diz. “O site acolhe a diversidade de pontos de vista, reúne individuos de todo mundo e estimula o debate de ideias.”

O conceito de inteligência coletiva pode se desenvolver na web, mas é anterior à aparição da rede. Alexandre Campos Silva, professor do departamento de computação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), lembra que empresas já adotavam a mecânica antes de a web se consolidar. “A comunidade de prática, como é conhecido o modelo fora da rede, sempre foi uma maneira das companhias buscarem soluções para problemas complexos. Elas reuniam profissionais, apresentavam o desafio e aguardavam uma resposta coletiva”, diz Silva. “A diferença é que isso acontecia em um ambiente off-line.”

Na internet, o modelo tem, sim, suas limitações. Depende da boa vontade – e da boa-fé – dos usuários. Mas o acadêmico aposta que os serviços baseados na colaboração tendem a crescer. Uma razão para isso é o número crescente de usuários da rede. Outra é esta: nada melhor do que pedir ajuda ao mundo, se você precisa resolver um problema pessoal. “As pessoas têm pressa, querem ser mais produtivas. É natural que recorram a esses sites se ali encontrarem informação confiável”, diz Silva.