A empresa brasileira que protege do Pix às comunicações das Forças Armadas
Nascida de uma pesquisa acadêmica, a Kryptus desenvolve tecnologias e avança em um mercado estratégico para a soberania dos países
A criptografia digital faz parte da vida de qualquer cidadão, embora quase sempre permaneça longe dos olhos. Mais do que impedir que uma senha ou o número de um cartão caiam em mãos erradas, ela funciona como uma das principais barreiras contra invasões aos sistemas que sustentam governos, Forças Armadas, órgãos de segurança, grandes corporações, bancos, instituições de Justiça e saúde e centros de pesquisa. No Brasil, uma empresa vem ganhando destaque nesse universo de códigos, dados e estruturas críticas. Trata-se da Kryptus, desenvolvedora de hardwares e softwares de criptografia presentes em sistemas digitais dos mais sensíveis do país. Suas tecnologias ajudam a proteger o Pix contra invasões, integram a arquitetura digital do Tribunal Superior Eleitoral e das próprias urnas eletrônicas e equipam o Link-BR2, rede de comunicação tática da Força Aérea Brasileira que permite a troca, em tempo real, de imagens e dados de radares entre aeronaves e bases terrestres.
A Kryptus teve origem na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2002, dois alunos, Roberto Gallo, de computação, e Henrique Kawakami, de engenharia elétrica, desenvolveram uma solução de segurança para caixas eletrônicos. Desse projeto nasceu uma placa criptográfica destinada a proteger chaves digitais, que se tornou o primeiro produto da Kryptus, formalmente criada pela dupla em Campinas em 2003. A relação com a universidade seguiu cultivada: a Kryptus manteve projetos de pesquisa em criptografia com o Instituto de Computação, participou do desenvolvimento de patentes com pesquisadores da instituição e é classificada até hoje pela Unicamp como uma “empresa-filha”.
Um salto ocorreu em 2020, quando o negócio recebeu aporte de 20 milhões de reais do FIP Aeroespacial, fundo que reunia recursos de Embraer, BNDES, Finep e Desenvolve SP. Certificações internacionais vieram atestar a resistência de seus equipamentos a tentativas de invasão. Entre elas está a FIPS 140 Nível 3, padrão internacional de segurança para módulos criptográficos que exige mecanismos capazes de destruir os circuitos do equipamento caso alguém tente violá-lo. Em 2022, lançou o primeiro dispositivo portátil brasileiro com criptografia pós-quântica, tecnologia criada para resistir à capacidade de processamento dos computadores quânticos em desenvolvimento. No ano seguinte, recebeu a certificação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para participar de licitações das Forças Armadas da aliança e foi autorizada pela Força Aérea Brasileira a desenvolver sistemas de segurança digital embarcados em aeronaves. “A trajetória levou a empresa a um território antes restrito a grandes fornecedores internacionais”, afirma Roberto Gallo, que preside a empresa.
De acordo com Gallo, o faturamento da Kryptus crescerá quase 70% nos próximos dois anos, superando 500 milhões de reais. O avanço resulta tanto da expansão dos contratos quanto do amadurecimento de soluções desenvolvidas ao longo de anos. Nesse mercado, o intervalo entre a criação de um software e sua adoção por um cliente pode ultrapassar uma década, sobretudo quando estão envolvidos sistemas militares, financeiros ou governamentais. Antes de chegar ao mercado, cada solução passa por longos ciclos de pesquisa, testes, certificações e validações de segurança, muitas vezes realizados em ambientes nos quais uma única falha pode comprometer operações inteiras.
A empresa precisa, portanto, investir muito antes de saber quando — ou mesmo se — determinada tecnologia será vendida. O retorno tampouco depende necessariamente da venda de um único produto, mas da capacidade de transformar o conhecimento acumulado em soluções que possam ser incorporadas a diferentes sistemas e contratos. “É um modelo de negócio em que pesquisa, segurança e tempo de desenvolvimento são tão importantes quanto a própria capacidade de vender”, afirma Marcos Simplicio, professor do Departamento de Engenharia da Computação da Escola Politécnica da USP.
A criptografia funciona como uma espécie de cofre digital. Por meio de códigos e fórmulas matemáticas, uma informação é convertida em uma sequência de dados sem sentido para quem não tem autorização de acesso. Para recuperar o conteúdo original, é necessária uma chave criptográfica, conjunto de informações matemáticas que permite ao sistema fazer o caminho inverso. Dependendo do método empregado, a mesma chave pode proteger e liberar os dados, ou podem ser utilizadas duas chaves relacionadas, uma pública e outra privada. A segurança depende tanto dos algoritmos quanto da proteção das chaves, que não podem cair em mãos erradas.
Nos sistemas mais sofisticados, elas são trocadas automaticamente em questão de segundos, o que dificulta as tentativas de acesso indevido. A criptografia também permite verificar se uma mensagem foi alterada durante o percurso e confirmar a identidade de quem a enviou. “Criptografia não é apenas confidencialidade, é confiança”, afirma Gustavo de Camargo, diretor de cibersegurança da Avanade Brasil, empresa de soluções digitais. “Seu objetivo é garantir que um dado não seja lido ou interceptado por quem não deveria e que sua autenticidade possa ser comprovada.”
A conta do crime cibernético tem crescido. A empresa americana de pesquisa Cybersecurity Ventures estima que os prejuízos com crimes digitais tenham alcançado 10,5 trilhões de dólares em 2025. A cifra inclui não apenas o dinheiro roubado ou desviado, mas também perdas de destruição de dados, interrupção de operações e roubo de propriedade intelectual, entre outras. Em setores como saúde, finanças e gestão pública, o prejuízo tende a ser maior devido à sensibilidade das informações expostas. Proteger os sistemas, portanto, não significa só evitar perdas financeiras, mas garantir operações e preservar dados cujo vazamento seria devastador.
Em um cenário marcado pela rivalidade entre potências, por restrições comerciais e pela preocupação dos governos com a proteção de dados, controlar a tecnologia usada para guardar informações sensíveis virou questão de soberania. A empresa já leva suas soluções a mais de vinte países da África, do Sudeste Asiático e do Oriente Médio, regiões onde governos e instituições financeiras procuram alternativas aos fornecedores sujeitos às jurisdições das grandes potências. A expansão também inclui projetos em Peru, Colômbia, México e Panamá. O movimento ajuda a explicar como uma empresa nascida de uma pesquisa acadêmica passou a disputar um mercado global concorrido. No fim, a mesma lógica sustenta ações cotidianas, como usar um celular, fazer um Pix ou votar na urna eletrônica. Para quem domina a tecnologia, porém, a criptografia deixa de ser apenas uma camada invisível de proteção. Torna-se o instrumento que estabelece quem pode acessar uma determinada informação, quem consegue transmiti-la com segurança e, sobretudo, quais segredos permanecerão protegidos.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30






