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Vida sem pulso

Em um procedimento revolucionário, dois cirurgiões americanos substituíram o coração de um paciente por duas turbinas gêmeas. Um documentário recém-lançado registra a proeza médica

Desde que foi promovido à sede das emoções humanas, o coração nunca mais deixou de ser visto como o dono dos sentimentos. Os filósofos da Grécia Antiga, como Platão e Aristóteles, foram os primeiros a colocarem o órgão a cargo do mundo espiritual. Enquanto o cérebro tomava as rédeas do exato, o coração guiava as emoções. O cristianismo, séculos mais tarde, acabou por consolidar essa imagem ao relacioná-lo com a figura de Cristo. Há quem diga ainda que Shakespeare tenha escrito seus sonetos em uma métrica que imitava o pulso. É o batimento cardíaco um dos principais indícios da vida animal – e a medicina se apóia nele até hoje para constatar vida. Dentro de alguns anos, porém, o pulso pode se tornar apenas uma antiga e ultrapassada figura de linguagem.

Há cerca de um ano, o coração do americano Craig Lewis, 55 anos, foi substituído um coração artificial movido por duas turbinas. Elas não bombeiam o sangue, e sim trabalham em um fluxo constante – sem produzir, assim, o pulso cardíaco. Lewis não tinha pulso, não tinha batimento cardíaco, não tinha pressão sanguínea. Mesmo assim continuava vivo – ele viria a morrer cinco semanas mais tarde, mas por outros problemas de saúde não relacionados com o coração turbinado. A história acaba de ser transformada em um documentário em curta-metragem chamado Heart Stop Beating (Coração Para de Bater, em tradução literal), no qual o premiado diretor Jeremiah Zagar registra o procedimento cirúrgico revolucionário, realizado pelos cirurgiões americanos Bud Frazier e Willian Cohn, do Texas Heart Institute. (Veja o documentário abaixo na íntegra, com legendas em português).

Bud Frazier (esq.) e Willian Cohn Bud Frazier (esq.) e Willian Cohn

Bud Frazier (esq.) e Willian Cohn (/)

O segredo do coração metálico que sustentou Lewis é um mecanismo batizado de HeartMate II. Consiste de uma pequena turbina que cria um fluxo constante de sangue dentro de uma câmera de metal conectada às artérias. Ele funciona como o parafuso de Arquimedes: nome dado a um dispositivo no qual um parafuso dentro de um tubo cilíndrico gira incessantemente, transferindo o líquido entre duas extremidades com elevações diferentes. Ele vinha sendo usado desde 2003. A primeira operação para implantá-la no coração foi feita também por Bud Frazier, em um paciente com sérios comprometimentos cardiocirculatórios.

“A turbina é colocada no coração para ajudá-lo, geralmente em pacientes que esperam por um transplante ou que precisam de um reforço até o órgão se recuperar”, diz Noedir Stolf, diretor da Divisão de Cirurgia Cardíaco do Instituto do Coração (Incor), de São Paulo. Nesses casos, portanto, o aparelho não substitui o coração, como em um transplante. “Acredito que desde o primeiro procedimento cerca de 10.000 pacientes já foram beneficiados”, disse Frazier, em entrevista ao site de VEJA.

No transplante realizado em Lewis, os cirurgiões Bud Frazier e Willian Cohn, do Texas Heart Institute, foram além e adaptaram de maneira audaciosa o HeartMate II. Em vez de apenas uma turbina, foi montada uma estrutura com duas – cada uma substituindo um lado do coração. Do lado de fora do corpo fica uma estrutura com duas baterias e os moduladores de frequência (que controlam a velocidade correta do fluxo de sangue), preso na cintura do paciente como um cinto. Como tem poucas partes móveis, em comparação aos demais corações artificiais, acredita-se que o aparelho tenha uma maior durabilidade.

Antes de operar o americano, os cirurgiões já haviam feito testes em mais de 50 bezerros. Segundo os pesquisadores, no dia seguinte à operação, os animais estavam saudáveis, sem alterações na rotina fisiológica do corpo. Craig Lewis, no entanto, morreu cinco semanas após o transplante, em função de doenças decorrentes do seu já grave estado de saúde.

O coração artificial feito com as turbinas gêmeas não está aprovado ainda nos Estados Unidos ou na Europa. Os testes clínicos após a operação com Lewis seguem em ritmo lento. “Houve apenas mais uma cirurgia, mas a paciente já estava muito doente e acabou morrendo durante a operação”, diz Frazier. Para continuar com os estudos nos EUA, é preciso que se dê início a testes clínicos, o que, segundo o cirurgião, só pode ser feito com financiamento. “Enquanto não houver um teste clínico formalizado, não haverá aprovação do FDA (órgão americano similar à Anvisa) para continuar com os procedimentos”, diz. * As legendas do vídeo foram feitas pelo site de VEJA e não têm nenhuma relação com os produtores e patrocinadores do filme.