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Um país desigual: as diferentes curvas da Covid-19 nos estados brasileiros

Números de casos e mortes variam de região para região — e exigem olhar cuidadoso no caminho da flexibilização da quarentena

Por Giulia Vidale, Alexandre Senechal Atualizado em 3 jul 2020, 22h12 - Publicado em 3 jul 2020, 06h00

É preciso puxar pela memória, ir e voltar nos desvãos da mente, para lembrar como era o mundo e o Brasil há exatos seis meses. Desde que as autoridades da China anunciaram a eclosão de um vírus que provocava sintomas semelhantes à pneumonia, em 31 de dezembro de 2019, tudo mudou — no trabalho, na escola, nas relações pessoais, na política. A vida é outra. O novo coronavírus, o vetor da Covid-19, infectou mais de 11 milhões de pessoas em todo o mundo, com 520 000 mortes. No Brasil, os quatro meses da doença — ela desembarcou por aqui no final de fevereiro — resultaram em mais de 1,4 milhão de casos e 60 000 mortes, instalando o país em incômodo segundo lugar em ambos os quesitos, atrás apenas dos Estados Unidos. Houve, há e haverá drama. Até aonde a vista alcança, a crise econômica global é a pior desde a quebradeira de 1929. Do ponto de vista da saúde pública, apenas a gripe espanhola de 1918 foi mais aterradora. Não há nada para comemorar, sensação ruim multiplicada pelo descaso do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a tratar o surto como mera “gripezinha”. Não era. E, no entanto, o aprendizado — para os epidemiologistas, para os médicos, para a toda a sociedade — pede agora um freio de arrumação, um olhar mais atento e calmo ao que a estatística revela, de ruim, muito ruim, mas também de esperançoso.

EMERGÊNCIA - Em Porto Alegre, houve alguma piora em uma semana: atenção nas UTIs. Diego Vara/Reuters

Convém enxergar as cifras, que deságuam cotidianamente, de um modo mais detalhado, mais acurado e minucioso — em outras palavras, mais científico. Há uma variedade de curvas, algumas que sobem, outras que descem, e poucos países no mundo merecem mais zelo, nesse aspecto, que o Brasil, o imenso Brasil. A desigualdade social é vergonhosa, os avanços e recuos de cada região são notórios, há cantos mais ricos, outros mais pobres. O vírus, evidentemente, não saberia vencer as discrepâncias, os distintos ritmos. Em resumo: também na lida com o Sars-CoV-2 o Brasil é desigual, e talvez essa seja a lição mais duradoura dessa temporada já demasiadamente prolongada. Com o apoio de especialistas, VEJA se debruçou nos levantamentos feitos pelo Ministério da Saúde para comprovar, na ponta do lápis, esse vaivém dos estados (acompanhe os dados ao longo desta reportagem). Nenhum tem comportamento igual ao outro. Por isso seria irresponsável tratar a manutenção ou a interrupção da quarentena de modo uníssono. “As dimensões continentais do país fazem com que cada região tenha sua própria característica e reaja em momentos diferentes”, diz o infectologista e epidemiologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. Há um quê de obviedade nessa constatação, mas há também a inteligência das ideias simples, e da simplicidade faz-se luz.

EFICÁCIA - Na Ilha de Marajó, no Pará: barcos-ambulâncias ajudam na boa virada da curva epidêmica Ueslei Marcelino/Reuters

Um passeio pelas informações consolidadas é tradução da diversidade de humores — e a matemática, que para muitos soa aborrecida, é reveladora. Na aritmética total, o país tem uma taxa de 667 infectados para cada grupo de 100 000 habitantes e 28 mortos diante de igual contingente. Na última semana, houve crescimento de 15% em testes positivos, mas 6% de queda em fatalidades. Na lupa, brotam as distâncias. No Estado de São Paulo, as mortes recuaram ainda mais, em torno de 12%. Na capital, palco dos primeiros casos, epicentro da pandemia no Brasil, celebrou-se nos últimos dias — ainda que celebração soe um tanto exagerado — o encerramento de atividades do hospital de campanha do Estádio do Pacaembu, que se tornara símbolo de dias difíceis. Foi uma vitória. O local, que deu alta para mais de 1 000 pacientes, tinha apenas cinco internados nos dias que antecederam o fechamento. A Região Norte, também entre as pioneiras no mapa da doença e com a maior taxa de incidência (1 423 infectados por 100 000 habitantes), apresentou nesta semana queda de 18,9% no número de novos casos e de 24% nas mortes. Contudo, como retrato das contradições, o cenário nas regiões Sul e Centro-Oeste pedem atenção: há nelas, agora, crescimento de registros de Covid-19 e fatalidades. O Estado de Goiás vive uma das situações mais dramáticas. Apenas na última semana apresentou nada mais nada menos que 74,7% de aumento no número de mortes. No Paraná, os óbitos mais que triplicaram neste mês, saltando de 182 para 649. Em Santa Catarina, já são 341 mortos, ante 143 no fim de maio, e o número de pessoas contaminadas pulou de 9 037 para 26 354. Estado da região com maior número absoluto de casos, 26 941 confirmados, o Rio Grande do Sul viu o número de óbitos saltar de 224 em maio para 614 em junho. Dentro das regiões e dos próprios estados há diferenças gritantes. São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, têm queda de óbitos e infecções nas capitais, mas aumento no interior. No Nordeste, alguns estados, que foram mais atingidos pela epidemia no início, como Ceará, agora apresentam estabilização ou redução da epidemia, enquanto outros, como Bahia e Rio Grande do Norte, vivem aumento exponencial.

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O vírus chegou ao Brasil nos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, e ganhou tração, dada a densidade populacional. Começa a refluir em virtude da passagem do tempo, sem dúvida, do número de pessoas infectadas que se tornaram imunes, mas sobretudo dos protocolos de distanciamento social que, apesar de frágeis, ajudaram a frear a disseminação do microrganismo — em São Paulo, por exemplo, houve congelamento cotidiano na casa dos 60%, em algumas semanas. O ideal seria ao menos 70%, mas ainda assim houve bons resultados. A decisão de radicalizar ou flexibilizar a quarentena, tema de acaloradas discussões, sabe-se agora, foi antessala do que viria, e veio, depois. Tome-se o caso do Estado de Goiás. Ali, houve algum desleixo. E o governador Ronaldo Caiado (DEM), médico de formação, e que chegou a bater de frente com Bolsonaro na defesa intransigente do isolamento, verificou, na marra, que estava certo ao comportar-se de modo intransigente, embora tenha perdido a briga. Resultado: há o plano, com a curva de más notícias se acelerando, de estabelecer um trancamento intermitente, com 14 dias de restrição seguido de outros 14 de funcionamento relativamente normal. A orientação de Caiado foi motivada por um estudo da Universidade Federal de Goiás segundo o qual caso as atividades no estado sejam mantidas como estão, com taxa de isolamento em 36%, em julho o sistema de saúde entrará em colapso, aumentando ainda mais o fardo da doença.

CORREÇÃO - As cifras ruins de Natal aceleraram a aplicação de testes: controle necessário. Alex Régis/VEJA

O recuo de Goiás chama atenção, preocupa, mas é possível dizer, numa analogia médica, apesar das disparidades, que boa parte do Brasil deixou a UTI, embora permaneça no hospital. Onze estados, além do Distrito Federal, conseguiram reduzir o aumento no número de mortes nas últimas semanas. Contudo, para que a estrada de retomada seja realmente pavimentada, será preciso seguir rigorosamente as medidas de distanciamento social indicadas pelas autoridades de saúde, sem confraternizações em bares, sem festas lotadas em casa, e sempre com máscara. Tem de ser assim, até que, finalmente, novos estudos epidemiológicos indiquem o contrário. Reafirme-se: em alguns cantos do Brasil já é possível alguma normalidade, em outros, não. Foi irresponsável, para dizer o mínimo, a participação da dupla de ex-BBBs Ivy Moraes e Anamara, em uma festinha privada em Caldas Novas, em Goiás. Elas posaram juntas e sem máscara com a miss Ponta Grossa 2018, Aline Machado, em alegre algaravia. Pegou tão mal que Aline teve de apagar a foto postada no Instagram. O evento parece pequeno, mas em sua pequenez é revelador do que não deve ser feito — a não ser que os números entreguem uma espécie de alvará e, cabe sempre reforçar, não há um único Brasil.

A vigilância, de mãos dadas com a ciência, é que ditará o tão badalado “novo normal” — e qualquer exagero ou passo em falso podem significar retrocesso, como aconteceu em alguns rincões dos Estados Unidos, que já faziam festa e tiveram de fechar-se. A queda nas novas infecções e nas mortes não significa que o vírus tenha sido definitivamente eliminado, e por isso o controle em rodoviárias, aeroportos e estradas, entre locais mais e menos “contaminados”, com medição de febre e controle do uso de máscaras, será comum e necessário. “Quero lembrar que o uso de máscara passará, desde essa pandemia, a ser algo cotidiano na nossa vida, como vestir um par de sapatos, uma camisa, uma indumentária”, disse o governador de São Paulo, João Doria. O novo coronavírus, enfim, continua circulando e qualquer descuido pode ser suficiente para desencadear uma nova onda. A cidade de São Paulo, em atitude exemplar, decretou multa para pessoas que estiverem na rua sem máscara e aumento da fiscalização na mesmíssima semana em que foi anunciada a abertura de bares e restaurantes. A preocupação em relação a aglomerações também fez com que a prefeitura determinasse a abertura somente até as 17 horas, capacidade reduzida e apenas de locais arejados, com distância mínima de 1,5 metro entre as pessoas.

COMÉRCIO - No Rio, resultados esperançosos lotaram as ruas do centro: a pressa em sair. Andre Coelho/Getty Images

Em paralelo, há boas notícias no horizonte. A chegada do primeiro imunizante está mais perto do que nunca. Nesta semana, a farmacêutica americana Pfizer anunciou que a vacina desenvolvida em parceria com a alemã BioNTech conseguiu induzir a produção de índices robustos de anticorpos neutralizantes ao vírus após 28 dias da primeira dose do fármaco — o desenvolvimento prevê a necessidade de pelo menos duas doses. A presença desses anticorpos é o que determina a imunidade ao vírus e, portanto, sua produção é fundamental para a eficácia de uma vacina. Além disso, outras três vacinas estão em estudo clínico na fase 3, última etapa necessária antes da aprovação por agências regulatórias. Dois estudos serão realizados no Brasil: da Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, e da empresa chinesa CanSino Biologics. Vive-se, enfim, uma nova etapa — mas é grave equívoco supor que, em um país tão grande, o que vale em um canto valerá em outro. Também no controle da saúde, e diante da emergência da pandemia, o melhor é entender a diversidade de uma nação que impressiona o mundo, no correto e no errado, por suas distintas colorações.

Publicado em VEJA de 8 de julho de 2020, edição nº 2694

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