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Tratamento inovador preserva rim enquanto destrói o câncer

Estudo inédito mostrou que a terapia à base de substância derivada da clorofila foi capaz de matar o tumor sem afetar o órgão após 1 ou 2 sessões

Por Giulia Vidale Atualizado em 12 fev 2021, 11h20 - Publicado em 12 fev 2021, 11h19

Uma intervenção inovadora mostrou-se capaz de preservar o rim enquanto trata o tumor urotelial do trato superior. De acordo com um estudo apresentado no Asco GU, maior congresso mundial de oncologia genitourinária, realizado on-line de 11 a 13 de fevereiro, a terapia fotodinâmica com alvo vascular (VTP, na sigla em inglês) com agente fotossensibilizador foi capaz de eliminar o tumor em 64% dos casos após apenas uma sessão. Atualmente, é preciso retirar o rim para evitar a progressão da doença, na grande maioria dos casos.

A terapia, ainda em fase de testes clínicos, funciona da seguinte maneira: uma substância derivada da clorofila, chamada padeliporfina (WTS11, na sigla em inglês), é injetada na corrente sanguínea. Cerca de dez minutos depois, uma luz de diodo com comprimento de onda de 753 nm é levada com a ajuda de um cateter até o local onde está o tumor e provoca uma reação específica que mata o tumor. “É como se ocorresse um infarto naquela região. O tumor necrosa e desaparece em um período de até 30 dias”, explica o urologista brasileiro Lucas Nogueira, um dos responsáveis pela pesquisa realizada pela Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, onde é pesquisador visitante. A ação ainda estimula o sistema imunológico contra o câncer.

O procedimento minimamente invasivo dura cerca de 20 minutos. O paciente segue para casa apenas com a recomendação de não se expor ao sol por 24 horas e se hidratar. “A hidratação ajuda na eliminação mais rápida da substância pela urina”, diz Nogueira.

No estudo fase 1, 18 pacientes foram submetidos ao tratamento. Os resultados mostraram que em 64% dos casos o tumor não foi detectado após 30 dias. Apenas 29% dos pacientes precisaram fazer uma segunda sessão. Destes, 67% tiveram a remissão completa do tumor. Após 11,5 meses de seguimento, 93% dos pacientes mantiveram o rim que tinha sido afetado pelo câncer, com a função renal praticamente intacta.

Essa fase de testes clínico é realizada principalmente para testar a segurança de um novo tratamento. Normalmente, há a fase 2, que avalia dosagem e resposta e a fase 3, que é um estudo randomizado e controlado, que compara a eficácia do novo tratamento com a terapia padrão-ouro. Mas os resultados desse estudo foram tão promissores que a FDA, agência que regula medicamentos nos EUA, autorizou a realização da fase 3, sem a necessidade da fase 2.

A pesquisa começa em abril e vai envolver 100 pacientes, em cerca de 20 centros localizados nos Estados Unidos, Europa e Israel. A expectativa é que o tratamento possa ser aprovado e estar disponível nos Estados Unidos em três anos. Em seguida, será iniciado o processo de aprovação em outros países, incluindo o Brasil. A terapia também está em fase de testes para outros tipos de câncer, incluindo próstata, pulmão, esôfago e pâncreas.

Tumor urotelial do trato superior

O tumor urotelial do trato superior é responsável por 5% a 10% de todos os cânceres do trato urinário, mas é considerado um tumor bem específico, difícil de ser diagnosticado. Ele se localiza no revestimento interno do rim, ureter ou bexiga, e, em geral, é diagnosticado quando já está em fase mais avançada.

O tratamento atual para este tipo de tumor é o endoscópico a laser, que consiste em queimar o tumor, ou na retirada total do rim afetado. O grande problema do laser, segundo Nogueira, é que ele causa danos em outras áreas do rim além do tumor e tem reincidência de 60%. Já a retirada completa do rim pode gerar problema para a aplicação de tratamentos adicionais. “Esse resultado é uma esperança muito grande para esse paciente que hoje se vê sem alternativa eficaz para manutenção do rim, visto que muitos deles vão precisar de quimioterapia e, para isso, necessitam de função renal adequada”, diz o urologista.

 

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