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Transplante fecal faz seis pessoas superarem alergia a amendoim, mas está longe de chegar aos consultórios

Pesquisadores testaram pela primeira vez em humanos o chamado transplante de microbiota fecal; especialista explica viabilidade do tratamento

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 ago 2026, 18h00 | Atualizado em 10 ago 2026, 10h59
Transplante fecal faz seis pessoas superarem alergia a amendoim, mas está longe de chegar aos consultórios Priorizar nos meus resultados Google

Seis pessoas com alergia grave a amendoim passaram a tolerar a oleaginosa após receber cápsulas contendo bactérias intestinais de voluntários que não tinham a alergia. O resultado, descrito como uma das primeiras evidências de que a microbiota intestinal pode ajudar a tratar alergias alimentares, foi publicado na quinta-feira, 6, na revista científica Science Translational Medicine.

O estudo, com apenas 15 participantes, testou pela primeira vez em humanos o chamado transplante de microbiota fecal como estratégia contra alergias alimentares. A ideia é relativamente simples: transferir para o intestino de pessoas alérgicas microrganismos de indivíduos que não apresentam a condição.

Antes de receberem as cápsulas, os voluntários não podiam consumir mais de 100 miligramas de amendoim sem desenvolver uma reação. Essa quantidade é equivalente a menos de meio amendoim.

Quatro meses após o transplante, uma pessoa conseguiu consumir 300 miligramas de amendoim e cinco pessoas podiam consumir 600 miligramas ou mais, o equivalente a cerca de dois amendoins e meio.

“É mais um passo em direção a tratamentos e à cura de alergias alimentares. A eficácia real do transplante fecal, porém, ainda não está estabelecida. É um passo promissor, mas ainda longe de ser um tratamento aprovado”, avalia Lucila Camargo Lopes de Oliveira, membro do Departamento Cientifico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), que não participou do estudo.

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Como foi feito o transplante

Segundo Oliveira, quem tem alergia a amendoim geralmente permanece alérgico para toda a vida. Estima-se que apenas cerca de 20% das pessoas adquiram tolerância natural ao alimento com o passar do tempo.

No estudo, os participantes receberam um comprimido sem gosto e sem cheiro contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis ​​sem alergia a amendoim.

A maioria dos participantes recebeu 36 comprimidos em um único dia, o que, segundo os pesquisadores, não causou efeitos colaterais graves. Cinco dos participantes também receberam antibióticos por quatro dias antes do transplante.

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O raciocínio por trás desse efeito envolve o sistema de defesa e a microbiota, que é o conjunto de bactérias que povoam nosso intestino.

Algumas pesquisas anteriores associaram alergias alimentares a baixos níveis de certas bactérias intestinais. Pesquisas feitas em camundongos também mostraram que dar aos animais grupos de diversas espécies de bactérias intestinais manteve as alergias alimentares sob controle.

Foi isso que levou os pesquisadores a levantarem a hipótese de que transplantes fecais de pessoas sem alergias alimentares poderiam “controlar” o sistema imunológico de pessoas com alergia.

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“Na alergia alimentar, há uma desregulação do sistema imune, e o alimento passa a ser visto como perigoso, suscitando respostas exageradas
desnecessárias. As bactérias intestinais benéficas ajudam a ensinar o sistema imune a se manter regulado, evitando erros que levam a sintomas de alergias”, explica Oliveira.

Mas por que o transplante não funcionou em nove voluntários, apenas em seis? Os autores sugerem que a bactéria pode não ter se estabelecido nessas pessoas possivelmente devido a diferenças relacionadas ao gênero: cinco das seis pessoas que responderam eram homens.

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Além disso, a maioria dos participantes que não responderam bem também não recebeu antibióticos antes do transplante.

Técnica pode ampliar tratamento a alergia, mas ainda está longe de chegar aos consultórios

Atualmente, a principal opção de tratamento para quem tem alergia a amendoim é evitar ingerir a oleaginosa, além de sempre carregar adrenalina injetável para o caso de exposição acidental.

A imunoterapia oral também pode ser uma opção para alguns pacientes com alergia a amendoim. O tratamento consiste em oferecer pequenas quantidades do próprio alimento, em doses cuidadosamente calculadas e aumentadas de forma gradual.

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O objetivo é que o sistema imunológico desenvolva maior tolerância à proteína do amendoim. Com isso, a pessoa pode conseguir suportar uma quantidade maior do alimento antes de ter uma reação, o que reduz o risco de uma ingestão acidental provocar uma reação grave.

O efeito, porém, depende da manutenção regular das doses. Ou seja, a imunoterapia não elimina a alergia nem significa que o paciente possa comer amendoim livremente.

“Para indivíduos muito sensíveis, que reagem a doses baixíssimas ou gravemente, já existe um imunobiológico aprovado para essa indicação em alguns países, ainda não no Brasil. Aplicado regularmente, ele pode aumentar a dose necessária de alimento para que os sintomas aconteçam”, comenta Oliveira.

No estudo que testou o transplante fecal, o efeito, quando apareceu, teve a tendência de se manter por um período prolongado, o que levou os autores a afirmarem que a abordagem pode ser uma “modalidade terapêutica segura e potencialmente promissora” para esses casos.

A pesquisa também sugere que o tratamento pode funcionar para outras alergias alimentares. Isso porque, em testes com camundongos, os pesquisadores testaram a reação dos animais a uma proteína diferente, a do ovo.

Eles transplantaram bactérias intestinais de amostras de fezes dos participantes para camundongos e descobriram que as bactérias de pessoas que responderam bem ao tratamento também protegeram os camundongos do desenvolvimento de alergias a uma proteína do ovo.

Já os camundongos que receberam bactérias de pessoas que permaneceram sensíveis ao amendoim desenvolveram alergias à proteína do ovo.

No entanto, mais estudos ainda devem ser feitos até que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergia alimentar chegue aos consultórios.

Segundo o site da revista Nature, os próprios autores estão concluindo o recrutamento para um segundo ensaio clínico, de maior porte, que vai dar aos voluntários uma dose cerca de 12 vezes maior de bactérias intestinais, distribuída ao longo de um mês.

A expectativa é que a pesquisa forneça mais pistas sobre quais outras bactérias têm um efeito positivo e qual perfil de paciente poderia ser beneficiado pelo “coquetel bacteriano”.

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