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Terapia dupla pode ser eficaz para combate ao câncer

Estudo realizado em camundongos mostra que a combinação de dois medicamentos poderia diminuir tumores e bloquear a propagação da doença

Por Da Redação - 27 fev 2012, 11h51

Atacar simultaneamente duas moléculas diferentes e relacionadas ao câncer pode ser uma forma eficaz de diminuir tumores, bloquear a propagação da doença e parar a metástase, segundo mostra um estudo publicado no periódico científico Cancer Discovery, o primeiro a relatar como a combinação de duas drogas funciona em laboratório.

A partir de um teste realizado com camundongos, os pesquisadores da Universidade da Califórnia, São Francisco, afirmam que a terapia combinada seria capaz de melhorar a eficácia de tratamentos de vários tipos de câncer, como próstata, mama e outros tumores. Os ensaios clínicos estão em andamento para avaliar a eficácia da abordagem em humanos.

Opinião do especialista

Heber Salvadorcirurgião oncológico do núcleo de cirurgia abdominal do Hospital AC Camargo (São Paulo)

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O câncer é como uma rede. Houve muita euforia quando se conseguiu um remédio para bloquear um ponto dessa rede. Os resultados de laboratório foram muito bons, mas na prática ficou aquém do esperado. Tanto que o Avastin, um remédio que surgiu nessa linha e foi aprovado em tempo recorde pelo FDA (agência americana que regula medicamentos), já teve revogada a indicação para tratar câncer de mama. Descobriu-se que bloquear apenas um ponto dessa rede é ineficaz a longo prazo, pois o câncer se adapta. É como se, em uma comunicação entre ABC, bloqueássemos o ponto B, mas o câncer aprendesse a ir direto do ponto A para o C.

Por isso, bloquear duas proteínas ao mesmo tempo, e não apenas uma, é a ideia mais promissora dos últimos 5 anos, para onde a pesquisa de novas drogas tem caminhado. Ela bloqueia o que chamamos de nós da rede, os ‘hubs’, pontos de encontro de várias conexões – fazendo uma analogia com redes de computadores. No caso do câncer, o bloqueio é de proteínas que ajudam a fazer a metástase. Por enquanto, é preciso dizer, trata-se de apenas um tijolo em um grande muro que está sendo construído. Ainda é coisa de laboratório. Levará muitos anos para os testes clínicos se iniciarem.

Os dois alvos são duas proteínas que os cientistas já conhecem há anos: c-MET, que está ligada a tumores mais agressivos e com a proliferação de metástases de células cancerosas; e a proteína VEGF, que promove o crescimento de novos vasos sanguíneos. Tumores em crescimento utilizam esse processo para ampliar sua rede de vasos sanguínios para fornecer nutrientes. Drogas que bloqueiam a proteína VEGF foram desenvolvidas com base na suposição de que tumores não conseguem crescer se o suprimento de sangue for eliminado.

No estudo, o tratamento de camundongos com a abordagem dupla transformou tumores agressivos e invasivos com muitas metástases em pequenas bolas com pouca ou nenhuma metástase. “A combinação de abordagens mostra que há uma sinergia entre os dois medicamentos”, disse Donald McDonald, autor do estudo e membro do Centro de Câncer Helen Diller da Universidade da Califórnia, São Francisco.

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As drogas utilizadas foram sunitinib (inibidor de VEGF), crizotinib (que combate o c-MET) e cabozantinib (que serve para as duas). Algumas dessas drogas já estão no mercado.

O novo estudo mostra que, quando as duas proteínas c-MET e VEGF são bloqueadas ao mesmo tempo, o efeito das drogas é mais poderoso do que o bloqueio feito somente com uma das drogas. De acordo com os pesquisadores, não só retarda o crescimento do tumor, mas também reduz a invasão das células cancerosas e a metástase.

Segundo McDonald, os resultados são promissores em laboratório, mas ainda precisam de mais testes de segurança e eficácia para serem utilizados na clínica. Além disso, pode ser que leve um ano ou mais até que as drogas estejam disponíveis aos pacientes.

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