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Sobreviventes de tragédia em Santa Maria ainda correm risco de vida, dizem médicos

Sintomas graves decorrentes da exposição a substâncias tóxicas podem surgir em até três dias. No entanto, é possível que a intoxicação também tenha consequências nos meses seguintes ao ocorrido

De acordo com informações da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, 83 sobreviventes do incêndio que atingiu a boate Kiss, em Santa Maria, RS, continuam internados, sendo que 76 estão em estado crítico e respiram por ventilação mecânica. Segundo o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o número de pessoas atendidas em unidades de saúde por conta da tragédia deve aumentar. Isso porque os sintomas de intoxicação por fumaça não acontecem apenas no momento da exposição. Eles podem aparecer em até três dias após o incidente – em alguns casos, as sequelas perduram por alguns meses. Ainda segundo a Secretaria, entre domingo e a manhã desta segunda-feira, por exemplo, 324 sobreviventes da tragédia procuraram atendimento médico.

Segundo os médicos ouvidos pelo site de VEJA, as primeiras 72 horas são críticas para o surgimento dos sintomas da exposição à fumaça de um incêndio. Os principais sinais de intoxicação respiratória são tosse e falta de ar. A ausência desses sintomas, no entanto, não significa que os sobreviventes estejam livres de possíveis prejuízos à saúde. Por isso, recomenda-se que todos os que estavam na boate na hora do incêndio procurem atendimento médico, mesmo se estiverem se sentindo bem.

“Não é possível prever se um indivíduo que pareceu estar bem após o terceiro dia ao incêndio vai apresentar algum sintoma e, caso o faça, qual será esse problema de saúde. O bom senso diz que a atenção seja redobrada nos dias seguintes a um incidente como esse. Mas recomenda-se que os sobreviventes façam um acompanhamento com um pneumologista a médio prazo, ou seja, durante alguns meses depois do ocorrido”, diz Elie Fiss, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Gravidade – A intoxicação respiratória em Santa Maria foi provocada pela inalação de monóxido de carbono, substância tóxica e asfixiante, que é liberada durante uma combustão incompleta (quando não há quantidade suficiente de oxigênio para queimar todo o combustível). A inalação de grandes quantidades desse composto foi responsável pela maior parte das 231 mortes registradas no incêndio, causadas principalmente por asfixia.

Ainda entre aqueles que sobreviveram ao incêndio, a inalação de grandes quantidades de monóxido de carbono é preocupante. Segundo Milton Rodrigues Junior, pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein, substâncias tóxicas como essa podem se depositar na mucosa das vias aéreas e, na sequência, na mucosa dos pulmões. Esse acúmulo acaba por lesionar as mucosas, agressão que aumenta a propensão a infecções e a processos inflamatórios nas regiões. Com isso, eleva-se o risco de um paciente apresentar problemas que vão desde falta de ar e tosse até embolia, bronquite, insuficiência respiratória e pneumonia química (inflamação pulmonar causada por um agente agressor químico, e não por um organismo vivo).

De acordo com Elie Fiss, a situação dos pacientes que respiram com a ajuda de aparelhos é especialmente preocupante. “Esses indivíduos já apresentaram uma pneumonia química e evoluíram o quadro para uma insuficiência respiratória. O dano ao pulmão nesses casos é muito grande. É difícil, mas não impossível, recuperar a sua função normal, o que aumenta as chances de outras doenças, como fibrose pulmonar. O risco de mortalidade nesses casos é muito grande, mas não dá pra saber o quanto, isso depende de cada caso.”