Smartphones testam a medicina ‘faça você mesmo’

Cresce o mercado de ferramentas pensadas para ajudar paciente a monitorar sua saúde. Mas entusiasmo de empresas deve ser equilibrado com a fria realidade de que nenhum deles dispensa a consulta prévia ao médico

Por The New York Times - 10 mar 2012, 15h17

O Dr. Eric Topol diz – meio brincando, meio a sério – que o smartphone é o futuro da medicina, pois a maioria de seus pacientes já parece estar “cirurgicamente conectada” a um deles.

Ele diz com toda a seriedade, porém, que o smartphone ajudará o usuário a assumir maior controle de sua saúde e acompanhá-la com uma precisão cada vez maior. Seu livro, The Creative Destruction of Medicine, descreve a visão de como as pessoas começarão a realizar exames médicos comuns, deixando de ir a consultas e compartilhando seus dados com outras pessoas além de seus médicos.

Topol, cardiologista do Scripps Medical Institute em La Jolla, Califórnia, já vê sinais disso, enquanto empresas vinculam dispositivos médicos ao poder computacional dos smartphones. Aparelhos para medir a pressão sanguínea, monitorar a glicose do sangue, escutar batimentos e mapear a atividade cardíaca já estão nas mãos de pacientes. E há mais por vir.

Ele reconhece o ceticismo de alguns médicos a respeito desses dispositivos. “Obviamente, a profissão médica não aprecia nada do tipo ‘faça você mesmo'”, afirmou ele. “Existem alguns médicos que estão reconhecendo as oportunidades para melhor cuidado e prevenção, mas a maioria é resistente a mudanças.”

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Topol pode estar certo quanto à cautela na indústria, mas ele está longe de ser o único com essa visão. A Apple já promovia o iPhone como uma plataforma para dispositivos médicos em 2009. Está surgindo todo um mercado que une a postura proativa dos dispositivos de hackers ao fervor do movimento do bem-estar.

Segundo Topol, os smartphones transformam o cuidar de si mesmo em algo similar a um jogo. “Recomendo esses dispositivos porque eles tornam tudo mais divertido, e obtenho mais medições do que se pedir que eles o façam manualmente.”

O entusiasmo por essa visão de medicina “faça você mesmo” com um smartphone, porém, deve ser equilibrado com a fria realidade de que todos os experimentadores devem consultar um médico.

Algumas das tentativas de transformar o iPhone num aparelho médico são pouco mais do que brinquedos. O aplicativo iStethoscope, de US$ 0,99, adverte: “Este aplicativo foi criado para uso com fins de entretenimento”. Aqueles que o compraram vêm publicando avaliações uniformemente negativas.

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O iStethoscope Expert 2012, também avaliado negativamente e também vendido a US$ 0,99, oferece uma campainha de US$ 24 para aprimorar o som.

Experimentei um otoscópio artesanal, o dispositivo que os médicos usam para examinar o ouvido interno, conectado a um smartphone – para que eu pudesse tirar fotos dos tímpanos de um familiar. Meu filho teve infecções na tuba auditiva e o médico gosta de dar uma olhada. Achei que se eu pudesse tirar uma foto ou gravar um vídeo do tímpano, ele não precisaria faltar à escola para ir a uma consulta.

Com um pouco de fita adesiva, prendi o telefone a um pequeno otoscópio caseiro de uma empresa chamada Dr. Mom Otoscopes. É apenas uma lente, uma fonte de luz e uma placa de plástico, e custa US$ 27. Para aprimorar a imagem, inseri uma lente de close-up que comprei na Photojojo.com por US$ 20.

O maior problema estava no software do smartphone. O aplicativo de câmera da Apple equilibrava a luz e sombra da imagem toda, “lavando” o centro de forma que o tímpano surgia como um mar de branco. O aplicativo de câmera do Android oferecia a opção de usar a medição por pontos, e o equilíbrio de luz era melhor.

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Apesar de todos esses ajustes de ótica e software, o resultado nunca era muito bom. Para obter resultados melhores, era preciso mais do que fita adesiva.

A Firefly Global, de Belmont, Massachusetts, produz uma câmera médica e a vende diretamente a médicos que querem compartilhar as imagens com pacientes e guardá-las para o futuro. Sua linha inclui câmeras para dentistas, dermatologistas e oftalmologistas. Infelizmente, as câmeras entre US$ 180 e US$ 350 conectam-se a um computador, e não a um smartphone.

Doenças cardíacas – As doenças mais comuns e os maiores mercados estão recebendo as ferramentas em primeiro lugar. Dispositivos para monitorar doenças cardíacas já estão disponíveis.

Uma startup francesa, a Withings, criou um medidor de pressão arterial de US$ 129 que se conecta a um iPad ou iPhone. A braçadeira infla e desinfla automaticamente, e então registra a pulsação e a pressão arterial. O aplicativo cria um gráfico com a pressão ao longo do tempo, facilitando a visualização de tendências.

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A Withings também inclui uma conexão ao seu site para que os usuários possam compartilhar seus dados com médicos – seja diretamente, em páginas protegidas por senha, ou por sites de terceiros como o digifit.com.

Diabetes – Segundo muitas estimativas, a crescente incidência de diabetes representa o maior desafio de saúde atualmente, e empresas estão desenvolvendo ferramentas para ajudar pessoas com a doença a controlar o nível de glicose no sangue.

Tom Xu, fundador da SkyHealth em El Cerrito, Califórnia, criou o site glucosebuddy.com para ajudar pessoas a acompanhar o açúcar no sangue. Os números precisam ser inseridos manualmente. O site trabalha com um aplicativo para iPhone que anota o nível de glicose no sangue e algumas informações sobre quando foi realizada a coleta. “Nosso principal objetivo é que o glucosebuddy não seja apenas para registrar números. Essa é a parte chata”, explicou ele. “Ao descobrir como sua alimentação afeta o açúcar no sangue, você passa a levar a saúde mais a sério.”

Outras empresas estão começando a integrar hardware e software. A AgaMatrix, empresa que fabrica um monitor de glicose sanguínea – o iBGStar, que se conecta ao iPhone -, trabalhou junto à gigante farmacêutica Sanofi para desenvolver a ferramenta. Em dezembro, a Food and Drug Administration aprovou o dispositivo para venda nos Estados Unidos.

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“Quando pacientes lidam com doenças crônicas, as consultas médicas podem ocorrer a cada seis semanas ou dois meses”, afirmou Joseph Flaherty, vice-presidente de marketing da AgaMatrix. “Para que as pessoas tenham um controle real sobre essas doenças, precisamos fechar o ciclo de feedback e oferecer as informações necessárias para decisões mais inteligentes em tempo real.”

Seu aparelho, como muitos outros medidores de bolso, mede a quantidade de glicose no sangue – mas também transmite os dados ao smartphone, ajudando pacientes a acompanhar seus níveis de glicose ao longo do tempo. Ele não é muito diferente de um pedaço de papel e uma caneta, mas é mais rápido e direto, e facilita o compartilhamento desses valores com médicos e amigos.

A Johnson & Johnson também declarou publicamente o desenvolvimento de um dispositivo similar. A meta final é replicar o “tricorder”, aparelho de diagnóstico geral da série de ficção “Star Trek” – meta que está sendo estimulada por um prêmio de US$ 10 milhões oferecido pela Qualcomm, fabricante de chips para smartphones, através da X-Prize Foundation. Aplicativos que simulam as luzes e sons do dispositivo ficcional são disponibilizados em diversas lojas de aplicativos.

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