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Semaglutida sintética, biológica e genérica: hora de entender o que muda de fato entre as canetas

Anvisa aprovou novos remédios com o mesmo princípio ativo para tratamento do diabetes; veja as diferenças

Por Carlos Eduardo Barra Couri Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 ago 2026, 07h19 | Atualizado em 24 ago 2026, 12h02
Semaglutida sintética, biológica e genérica: hora de entender o que muda de fato entre as canetas Priorizar nos meus resultados Google

Em menos de seis meses, o Brasil passou a contar com nove medicamentos registrados baseados na semaglutida — e a confusão diante de tantos nomes e qualificações por parte dos pacientes é compreensível.

Depois da aprovação, em 17 de agosto, do primeiro genérico do princípio ativo (EMS) e do primeiro similar (Semaclique, da Germed/BracePharma), a pergunta mais comum nos consultórios deixou de ser “qual caneta emagrecedora eu uso” e virou “posso trocar a minha pela mais barata”. A resposta curta é: depende de qual família regulatória cada produto pertence — e nem todos pertencem à mesma.

Três famílias, uma substância

Hoje circulam no Brasil, além do Ozempic e do Wegovy, os originais, seis outros produtos à base de semaglutida, como  Ozivy, da EMS, Owozy, da Sandoz, e Semavy, da Mantecorp.

Eles se dividem em três grupos regulatórios distintos. O primeiro é o biológico original, da Novo Nordisk — Ozempic para diabetes, Wegovy para obesidade. O segundo é o que a Anvisa chama de “medicamento novo”: semaglutida sintética que teve de provar sozinha eficácia e segurança, como se fosse um remédio inédito.

É o caso do Ozivy e dos outros cinco aprovados em 29 de julho — produtos que também não foram registrados como genéricos tradicionais, e cuja mudança de categoria não altera as regras de dispensação: ainda exigem receita médica em duas vias, com retenção de uma na farmácia.

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O terceiro grupo, inaugurado agora, é o do genérico e do similar propriamente ditos — mas atenção: nenhum dos dois é genérico ou similar do Ozempic. Os dois têm como referência técnica o Ozivy.

Canetas emagrecedoras e o futuro da luta contra obesidade

Por que existe genérico de um e não do outro

A explicação está na forma de fabricação. O Ozempic é classificado como biológico — produzido a partir de organismos vivos —, categoria que a regulação brasileira não permite copiar como genérico tradicional. A EMS contornou essa barreira desenvolvendo uma semaglutida obtida por síntese química, o que abriu caminho para o registro convencional.

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Só depois que o Ozivy foi incluído na lista de medicamentos de referência da Anvisa, em julho, é que outras empresas — inclusive a própria EMS e sua coirmã Germed — puderam registrar cópias dele. O genérico, por regra, não leva nome comercial; sai de fábrica identificado só pelo princípio ativo e pelo fabricante. O similar pode ter marca própria — daí o nome Semaclique.

O que muda no preço

Aqui vale separar dois mecanismos de preço que se misturaram na cobertura destes últimos dias. Quando um “medicamento novo” como o Ozivy é registrado, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos o precifica por comparação, dando a ele o mesmo teto do produto ao qual foi equiparado — no caso, Ozempic e Wegovy —, ainda que a empresa possa vender por menos, como fez a EMS. Já o genérico segue outra lógica: por lei, precisa custar no mínimo 35% menos que sua própria referência (o Ozivy, não o Ozempic).

Em julho, a EMS já havia reduzido o custo efetivo do Ozivy criando um pacote promocional de três canetas de 1 mg por R$ 999 dentro do programa de fidelidade da empresa — o equivalente a R$ 333 por unidade, ante os R$ 431,61 da modalidade anterior. É esse valor promocional de R$ 333 que andou circulando sem contexto em algumas coberturas como se fosse preço do “medicamento de referência” em geral — o que gerou confusão, porque o Ozempic, via programa próprio da Novo Nordisk, custa entre R$ 975 e R$ 999.

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Com o Ozivy citado a R$ 452–498 fora da promoção, a regra dos 35% projeta o genérico da EMS na faixa de R$ 293 a R$ 323 — mas isso ainda é conta de terceiros. Nem EMS nem Germed divulgaram preço oficial, e ambos os registros de hoje ainda dependem de aprovação da CMED para chegar às prateleiras.

Regras gerais de troca no balcão

A possibilidade de o farmacêutico substituir um remédio por outro é regida pela Lei nº 9. 787/1999 e pela Resolução da Diretoria Colegiada nº 58/2014, da Anvisa:

• Receita com o nome do medicamento de referência: pode-se dispensar a própria referência, o genérico correspondente ou um similar já reconhecido como intercambiável.

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• Receita com o nome do genérico: só podem ser dispensados o genérico ou a referência — nunca um similar.

• Receita com o nome de um similar intercambiável: podem ser dispensados esse similar ou a referência.

• Receita apenas com o nome do princípio ativo (semaglutida): podem ser dispensados a referência ou o genérico.

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• Genérico e similar não podem ser trocados um pelo outro em nenhuma hipótese — a regulação não autoriza essa troca cruzada.

• O médico pode vetar qualquer substituição escrevendo a restrição de próprio punho na receita, e o farmacêutico é obrigado a respeitar.

O que ainda não vale — e o que pode passar a valer

Essas regras só funcionam na prática depois que a Anvisa confirma a intercambialidade de cada produto em uma consulta pública própria, atualizada diariamente — separada da simples publicação do registro no Diário Oficial. Até o fechamento desta reportagem, nem o genérico da EMS nem o Semaclique apareciam confirmados nessa consulta como intercambiáveis, o que é esperado: essa validação costuma levar semanas depois do registro.

Pela lógica das regras já em vigor, é razoável prever que, quando essa validação sair, o farmacêutico passe a poder trocar automaticamente o genérico da EMS pelo Ozivy — e o Semaclique pelo Ozivy, se a bioequivalência for confirmada. O que essas regras não deixam prever é uma troca com o Ozempic ou o Wegovy: como o Ozivy foi registrado como medicamento novo, e não como equivalente do Ozempic, a cadeia de substituição automática deve continuar restrita à família da semaglutida sintética.

Ou seja: quem tem receita de Ozempic não deve esperar sair da farmácia com o genérico só por decisão própria ou do balconista.

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