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Sem vacina ideal, aids deve se tornar uma doença crônica

Mesmo com tratamentos garantindo qualidade de vida aos soropositivos, o vírus HIV ainda mata quase 2 milhões de pessoas no mundo ao ano. O site de VEJA entrevistou especialistas para saber o quão perto estamos da cura

Por Vivian Carrer Elias - 8 maio 2012, 20h49

Desde a descoberta do HIV, em 1981, a aids vem sendo combatida em duas frentes: a criação de medicamentos antirretrovirais capazes de inibir a reprodução do vírus e o desenvolvimento de vacinas que possam prevenir e, quem sabe, curar a doença.

A primeira frente tem sido bem-sucedida, apesar das limitações naturais dessa forma de terapia. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, em 2009, 33,3 milhões de pessoas ao redor do mundo viviam com o vírus HIV, e as mortes por aids, naquele ano, atingiram 1,8 milhão de portadores da doença – 1,1 milhão a menos que em 2000. No último dia 12 de outubro, um estudo publicado no periódico British Medical Journal revelou que a expectativa de vida entre pacientes ingleses com HIV, no período de 1996 a 2008, aumentou em 15 anos. O resultado positivo deve-se muito ao fato de os pacientes ingleses, assim como os brasileiros, terem amplo acesso aos antirretrovirais.

Na segunda frente, a das vacinas, sempre houve pouco o que comemorar. Ao longo do tempo, várias vacinas foram testadas. “Mas ou não funcionaram, ou protegeram muito pouco”, afirma Esper Kallás, médico infectologista e coordenador do comitê de retroviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia. A baixa proteção caracterizou os resultados da vacina RV 144, testada na Tailândia e cujos dados foram divulgados no final do ano de 2009. Após chegar à terceira fase de testes (o que tornou o estudo o mais extenso já feito), o estudo conseguiu proteger 26% dos voluntários de uma infecção, porcentagem considerada baixa.

O homem que se livrou HIV

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No fim do ano de 2010, o mundo conheceu a história do americano Timothy Ray Brown, até então infectado pelo vírus HIV e que, depois de se submeter a um transplante de medula, deixou de apresentar o vírus no sangue. A notícia chamou a atenção de todos, mas logo ficou claro que se tratava de um caso extremamente particular e, infelizmente, ainda não acessível para todos.

Além de aids, Brown tinha leucemia, e foi por causa desta doença que o transplante foi realizado. O médico Gero Huetter selecionou um doador que, além de compatível com Brown, apresentava uma mutação do CCR5, que é a proteína que permite a entrada HIV nas células de defesa do nosso organismo. Sem ela, não há como o vírus infectar uma pessoa.

Três anos após o procedimento, Brown deixou de apresentar o vírus no sangue, sem mesmo utilizar o coquetel antirretroviral. Porém, os médicos ainda não consideram transplante de medula em pacientes soropositivos uma vez que vez que o procedimento é muito arriscado.

“Não vale a pena investir em uma vacina que protege nessa proporção. Embora 26% de proteção pudesse ser capaz de ajudar a situação na África, por exemplo, ainda existem medidas preventivas muito mais eficazes, como a circuncisão”, afirma o infectologista e professor da Escola Paulista de Medicina, Ricardo Shobbie Diaz. Em julho de 2011, um estudo apresentado em conferência internacional sobre a aids, em Roma, revelou que essa cirurgia pode diminuir o risco de infecção de HIV em até 76%.

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Esperança renovada – Após a última decepção, quase dois anos se passaram até que a comunidade médica voltasse a vibrar com uma nova pesquisa sobre vacina. Em setembro deste ano, o Conselho Superior de Pesquisa Científica da Espanha (CSCI) anunciou os resultados promissores da primeira fase clínica de testes de uma nova vacina em estudo publicado nos periódicos Vaccine e Journal of Virology.

Diferentemente da vacina testada na Tailândia, estudada somente para a prevenção da aids, os testes espanhóis também buscam dar uma função terapêutica à vacina – ou seja, pretendem usá-la para curar a doença. Os testes, feitos em pacientes saudáveis, demonstraram que 90% dos voluntários, após receberem a vacina, tiveram uma resposta imunológica eficaz. O próximo passo, segundo os cientistas, será testar a substância em pacientes infectados pelo vírus. “Provavelmente essa vacina, se os estudos avançarem, passará a ser usada para fins terapêuticos, e não na prevenção”, afirma Diaz.

Convivendo com a aids – Sem a existência de uma vacina, as drogas e os exames utilizados no tratamento de um portador do vírus HIV garantem, de maneira geral, uma boa qualidade de vida para os pacientes. “Apesar de serem obrigados a tomar remédios diariamente e seguir uma vida regrada, ou seja, a dormir direito, não trabalhar muito, e não beber em excesso, por exemplo, o indivíduo que tem aids pode ter uma vida normal”, explica Stefan Cunha Ujvari, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

O coquetel, utilizado desde meados da década de 90, é o pilar do tratamento oferecido ao paciente com aids. Existe uma série de remédios usados na terapia da doença, e esse coquetel combina no mínimo três deles. A escolha depende do tipo de vírus e até da genética do paciente. A droga, embora reduza drasticamente a presença do vírus no sangue, não consegue agir nos vírus que estão inativos no organismo.

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Nem todas as pessoas infectadas pelo vírus HIV precisam fazer uso dos medicamentos específicos para a doença. Ao ser contaminado, o paciente deve se submeter a dois exames pelo menos todos os anos, segundo Ujvari. Um deles contabiliza o aumento da quantidade de vírus na corrente sanguínea, e o outro a queda dos linfócitos CD4. Quando esses dois números chegam a determinado ponto, é a hora das drogas serem introduzidas. “Com isso, medicamos o paciente antes dele apresentar os sintomas da doença.”

Futuro – Embora não haja cura, muitas conquistas mudaram o cenário da epidemia no mundo. “É inegável a importância de avanços como a descoberta do vírus HIV, o desenvolvimento dos exames que diagnosticam a presença dele e a evolução dos medicamentos”, diz Kállas.

Por isso, médicos acreditam que a aids caminhe para a se tornar uma doença crônica, assim como a diabetes ou a pressão alta. “Na verdade, a aids já é assim, ou seja, uma doença sem cura que mata, assim como as outras enfermidades crônicas”, afirma Shobbie. “Hoje, a aids é uma doença que também consegue ser controlada a longo prazo. Se os estudos deixarem de avançar, os tratamentos que temos disponíveis hoje já permitem que as pessoas vivam mais tempo com a doença, embora a sobrevida de alguém com aids seja 15 anos menor (do que uma pessoa sem a doença).”

Shobbie ainda explica que o vírus HIV provoca um envelhecimento prematuro e progressivo, fazendo com que a morte do soropositivo se deva a doenças da velhice, seja de coração ou neurológica, por exemplo. A ameaça das infecções oportunistas já é amplamente controlada. Mesmo assim, os médicos não deixam de alertar para o fato de que os tratamentos da doença costumam surtir efeitos colaterais e estão sujeitos a perderem a eficácia quando o vírus se tornar resistente.

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