Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Restringir uso de antibióticos pode controlar superbactéria

Pesquisa mostra que apenas um quinto dos casos de infecção pela ‘Clostridium difficile’ acontece nos hospitais. Segundo os cientistas, para diminuir sua transmissão, é mais importante reduzir o uso de antibióticos do que controlar o ambiente hospitalar

A bactéria Clostridium difficile é uma das principais responsáveis pelas infecções hospitalares – e muitas vezes chega a matar pacientes já debilitados. Para controlar sua disseminação, as técnicas mais comuns nos hospitais são o isolamento dos doentes e o controle e limpeza do ambiente. Pesquisa publicada na quarta-feira pela revista New England Journal of Medicine, porém, sugere que quatro em cada cinco pacientes hospitalizados não contraem a bactéria após a internação, mas sim a trazem dentro do intestino. Dessa forma, a melhor maneira de evitar a propagação do microorganismo é restringir o uso de antibióticos, afirmam os cientistas.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Diverse Sources of C. difficile Infection Identified on Whole-Genome Sequencing

Onde foi divulgada: periódico New England Journal of Medicine

Quem fez: David Eyre, entre outros pesquisadores

Instituição: Universidade de Oxford, entre outras

Dados de amostragem: 1250 pacientes britânicos infectados com a Clostridium difficile

Resultado: Os pesquisadores realizaram análises genéticas das bactérias em todos esses pacientes e descobriram que apenas 19% delas haviam sido transmitidas dentro dos hospitais. Ao mesmo tempo, constataram uma queda na transmissão da bactéria durante o período do estudo – tanto entre os indivíduos infectados nos hospitais quanto fora. Assim, concluíram que, mais importante do que o controle do ambiente hospitalar, foi uma redução no uso de antibióticos para controlar a bactéria.

A Clostridium difficile infecta o intestino, liberando toxinas capazes de lesionar o órgão – o que causa diarreias e colites. Nos últimos anos, os pesquisadores têm constatado um aumento na resistência da bactéria aos antibióticos, o que dificulta mais ainda o tratamento contra a infecção.

Para mapear a origem e a disseminação da Clostridium difficile, os pesquisadores verificaram todos os casos de infecção documentados na cidade de Oxfordshire, na Inglaterra, entre 2008 a 2011. Eles analisaram geneticamente as bactérias envolvidas em todos os 1250 casos da doença, em busca de semelhanças que pudessem usar para traçar a transmissão do micróbio de um paciente para outro. Também foram verificados registros hospitalares, para saber se a transmissão poderia ter acontecido dentro do hospital.

Ao analisar o DNA das bactérias, descobriu-se que 35% dos casos eram tão geneticamente parecidos que poderiam ser causados pela transmissão direta entre os pacientes. Desse grupo, pouco mais da metade (55%) pode ter sido infectado dentro do ambiente hospitalar. No total, apenas 19% de todos os casos da doença poderiam ser claramente associados à transmissão no hospital.

Resistência bacteriana – Os pesquisadores também descobriram que o número total de casos da doença caiu durante os três anos de estudo – não importando se o paciente foi infectado no hospital ou fora dele. Isso sugeria que algum outro fator estava envolvido no combate à bactéria, não só o controle do ambiente hospitalar. “Temos de ser claros: boas medidas de controle da infecção têm ajudado a minimizar as taxas de transmissão nos hospitais. No entanto, nossa pesquisa sugere que algum outro fator deve estar agindo para essa redução. A Clostridium difficile é resistente aos antibióticos, e essa pode ser a chave”, afirma Tim Peto, autor do estudo e pesquisador da Universidade de Oxford.

Os pesquisadores dizem que, no mesmo período em que a pesquisa foi feita e o número de infecções caiu, houve uma diminuição no uso de antibióticos nos hospitais estudados. “As pessoas costumam ficar doente com a Clostridium difficile depois de tomar antibióticos, porque esses medicamentos não matam apenas as bactérias ruins, mas também as boas que se alojam no intestino humano. Assim, a destruição das outras bactérias permite que a resistente Clostridium difficile assuma o controle”, afirma David Eyre, pesquisador da Universidade de Oxford que também participou da pesquisa.

Leia também:

Começam testes finais em torno de vacina contra infecção hospitalar

Crianças que tomam muito antibiótico correm maior risco de contrair superbactéria

Assim, segundo os cientistas, uma explicação para a queda de todos os tipos de infecção com a bactéria é o uso mais cuidadoso de antibióticos nos hospitais, o que impediria as pessoas de adoecerem com a Clostridium difficile, mesmo que já a tragam em seus intestinos. “Nosso estudo indica que a restrição do uso de antibióticos pode ser mais eficaz na redução do número de pessoas que adoecem com a bactéria do que controlar as taxas de transmissão no hospital”, diz David Eyre.