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Remédio para diabetes vira aliado no combate ao câncer

Médico e biólogo da Unicamp descobrem que medicamento que trata o diabetes, quando usado em conjunto com um quimioterápico, anula o crescimento de tumores em camundongos. Testes em humanos já começaram

Por Marco Túlio Pires, do Rio de Janeiro 29 ago 2011, 15h58

“Esse mecanismo mostra como drogas diferentes podem cooperar para impedir o crescimento de tumores e sugerem que a metformina pode ser um grande aliado no tratamento do câncer”

José Barreto Carvalheira, do departamento de clínica médica da Unicamp

Uma equipe de médicos da Unicamp descobriu que a metformina, um remédio comumente usado para tratar o diabetes, tem boas chances de ajudar no tratamento do câncer. Em camundongos, a droga usada em conjunto com o paclitaxel, um medicamento bastante utilizado em quimioterapias, conseguiu impedir o crescimento dos tumores. Os resultados foram apresentados na reunião anual da FeSBE (Federação das Sociedades de Biologia Experimental), no Rio de Janeiro. O trabalho foi destaque na edição de junho do periódico Clinical Cancer Research.

Desde 2008, sabe-se que a metformina poderia reduzir em até 50% o crescimento de tumores em pacientes diabéticos. A partir desse dado, o médico José Barreto Carvalheira e o biólogo Guilherme Zweig Rocha, ambos do departamento de clínica médica da Unicamp, estão tentando descobrir se o medicamento poderia ser usado para tratar o câncer.

A resposta, por enquanto, é positiva. Carvalheira explica que, em camundongos, a administração da metformina, aliada ao paclitaxel, conseguiu diminuir o crescimento e causar a morte de células cancerígenas. Os cientistas descobriram que o remédio para tratar o diabetes ataca o câncer utilizando a mesma via do quimioterápico, dando um golpe duplo no tumor e impedindo que ele cresça.

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Fortaleza – Tumores são estruturas bastante complexas. Os cientistas procuram vias para atacá-los, como se estivessem tentando entrar em uma fortaleza. Muitos tratamentos atacam várias “portas” dessa “fortaleza” de uma vez, na esperança de aumentar as chances de entrar no tumor e destruí-lo. A equipe do médico conseguiu encontrar duas drogas que atacam a mesma porta, que na realidade é uma proteína chamada AMPK. A força do golpe é capaz de permitir a entrada no tumor.

Em vez de desenvolver um novo medicamento, os pesquisadores aproveitaram o conhecimento que já existia. “Sempre se pensa em desenvolver novas drogas, mas é importante que possamos aproveitar o trabalho já feito”, diz Carvalheira. “Esse mecanismo mostra como drogas diferentes podem cooperar para impedir o crescimento de tumores e sugerem que a metformina pode ser um grande aliado no tratamento do câncer”.

Testes clínicos – Com excelentes resultados no modelo animal, a equipe de cientistas começou há um ano os testes clínicos com pacientes que não respondem mais ao tratamento do câncer. O estudo está sendo conduzido no Hospital do Câncer de Barretos, em São Paulo. As análises bioquímicas acontecem no laboratório da Unicamp. Carvalheira está tratando 15 pacientes, e espera ter 90 até o fim da pesquisa, que deve ser concluída em 2013.

O médico tem dois grupos de pacientes com câncer que não respondem a mais nenhum tratamento: o primeiro toma apenas paclitaxel e o segundo recebe doses conjuntas de paclitaxel e metformina. O médico disse que os resultados em humanos ainda não podem ser divulgados, por se tratar de um estágio muito inicial da pesquisa.

A pesquisa está sendo feita em pessoas que não são diabéticas, explica o médico. Ele reforça que o estudo está em fase inicial em humanos e que os efeitos colaterais ainda estão sob análise. “Pacientes com câncer não devem de forma alguma comprar metformina”, alerta Carvalheira. “Estamos esperançosos de que a nossa pesquisa vá ajudar muita gente, mas como tudo na ciência, é preciso ter cautela”.

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