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Quanto falta para a curva da Covid-19 começar a cair no Brasil

País tem 2 milhões de casos e 76 688 mortes, mas especialistas ressaltam fase de estabilidade e estimam melhora em menos de dois meses

Por Giulia Vidale, Alexandre Senechal - Atualizado em 17 jul 2020, 12h50 - Publicado em 16 jul 2020, 19h11

Nesta quinta-feira 16, o Brasil ultrapassou oficialmente a marca de 2 milhões de casos por coronavírus. Com 45.403 infectados nas últimas 24 horas, o total de doentes chegou a 2.012.151. No mesmo período, foram registradas 1.322 novas mortes, totalizando 76.688 vítimas fatais de Covid-19.

Os números são altos e preocupantes, mas ainda estão dentro de um período de estabilidade. Com base nas média móveis, medida calculada a partir da soma dos números nos últimos sete dias, divididos por sete, o total de novos casos de coronavírus no Brasil cresceu até o final de junho e depois estabilizou em cerca de 37.000 novos registros diários.

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Pelo mesmo critério, o número de novas mortes por Covid-19 no Brasil estacionou no início de junho, com média móvel diária de cerca de 1.000 registros. A estabilização, tanto de casos quanto de óbitos, indica que o Brasil conseguiu achatar a curva e alcançou – ao menos por enquanto – o tão falado platô, mantendo a capacidade de atendimento do sistema de saúde – com algumas exceções, como ocorreu com Manaus.

“Estabilizar com essa frequência de mortes diárias, apesar do sistema de saúde dar conta, não é bom. Significa que a doença ainda não está sob controle”, alerta a microbiologista Natalia Pasternack, presidente do Instituto Questão de Ciência. Para dizer que a epidemia está controlada, é preciso fazer uma queda constante nos índices por, pelo menos, duas semanas, período de incubação do vírus.

As várias realidades do Brasil

A heterogeneidade do país é uma das principais causas que dificulta a queda da curva como um todo. Outros fatores pesaram para a chegada ao patamar em que estamos hoje, como falhas na coordenação federal para orientar estados e municípios na implementação de ações de endurecimento e flexibilização precipitada em alguns estados e municípios.

Se não houver um grande sobressalto daqui para frente nessas estatísticas, a expectativa é que a curva continue estável e com números altos dessa forma no país pelo menos até setembro, quando o vírus perderá um pouco de força, após ter atingido todas as regiões brasileiras. Essa previsão já havia sido feita pelo Ministério da Saúde em março, e parece permanecer. Uma visão mais pessimista estima que teremos que conviver com altos níveis da doença até o aparecimento de uma vacina.

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“Os padrões epidemiológicos do coronavírus no Brasil estão em diferentes etapas de desenvolvimento ao longo da geografia brasileira. Isso significa que cada região, estado e até município tem uma epidemia diferente. Essa é uma característica igual a dos Estados Unidos. Lá, as regiões também se comportam de maneira muito singular”, diz o infectologista José Urbaez, diretor científico da Sociedade de Infetologia do Distrito Federal e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

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Atualmente a situação do Brasil é a seguinte: o Norte, que chegou ao caos com o colapso do sistema de saúde, está na situação mais confortável hoje em relação à epidemia, com estabilização de casos e queda cada vez maior de mortes. Entretanto, o preço pago para chegar a esse patamar foi alto. O Nordeste atingiu uma relativa estabilidade nos número de novos diagnósticos na última semana e é considerado estável em número de mortes.

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Por outro lado, Sul e Centro-Oeste são as regiões mais críticas no momento. Nestes locais, a epidemia ganhou força ao menos um mês e meio mais tarde que nos estados que começam a controlar a disseminação no vírus. No Sul, a média móvel de casos e mortes praticamente triplicou no último mês.

No Centro-Oeste, a média móvel de casos diários aumentou 34,44% e a de mortes 111,6% no mesmo período. As quatro unidades da região – Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal – contribuem para o aumento de casos no país. Por fim, o Sudeste continua sendo o maior responsável pelos números acelerados da pandemia no Brasil, ainda que não esteja registrando uma escalada grande nas estatísticas.

Aumento no número de testes

Demorou quatro meses para o país chegar a 1 milhão de casos. Para atingir 2 milhões, foi apenas um mês. As regiões que mais impactaram nesse aumento foram a Centro-Oeste e Sul, onde o ritmo da epidemia se acelerou a partir do final de maio, e o Sudeste, puxado pelo aumento de casos no interior dos estados.

Vale ressaltar também o impacto da maior disponibilidade de testes. Nos primeiros meses da epidemia, o único método de testagem disponível era o RT-PCR, exame altamente sensível que diagnostica infecções agudas. Porém o método é caro, demorado e por muito tempo foi aplicado apenas em pacientes graves.

Apenas a partir do início de maio pudemos contar de fato com a aplicação em massa de outros tipos de exame, como os testes rápidos, os testes sorológicos e outras formas de diagnóstico desenvolvidas por laboratórios e hospitais nacionais. Assim, quanto mais exames disponíveis, mais doentes são detectados.

O Brasil permanece ao lado dos Estados Unidos no patamar de países que ultrapassaram a casa do milhão de casos de Covid-19 que ainda não conseguiram reduzir as curvas da epidemia. Por aqui, o vírus chegou no final de fevereiro e afetou inicialmente capitais como Manaus, Belém, Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro. Conforme as medidas de distanciamento social e de controle do fluxo de pessoas foram implementadas nestes locais, o vírus começou a migrar para outras regiões com pessoas suscetíveis.

Como reduzir a velocidade de contágio

Existem maneiras de reduzir a velocidade de contágio e diminuir a curva de casos e mortes. A mais rápida e eficaz seria a adoção de um lockdown ou de uma quarentena com, no mínimo, 70% de distanciamento social. É o que foi feito nos países da Europa e surtiu efeito. Espanha, Reino Unido e Itália chegaram ao pico e após a adoção destas medidas, viram a curva cair drasticamente e o número de contágios e mortes se estabilizar em quase zero.

Se a medida drástica não for possível, a alternativa fundamental é não reabrir cidades onde os casos e mortes estão crescendo e flexibilizar segurança e aos poucos os lugares onde há estabilização.

“O que não estamos fazendo que deveria ser feito para controlar isso que vai além de testar? Rastrear casos e seus contatos é fundamental. Também é preciso ensinar a população sobre o uso correto de máscaras e da manutenção da distância mínima de 1,5 metro de outras pessoas e reforçar a importância dessas medidas”, diz o infectologista e epidemiologista Bruno Scarpellini, da PUC do Rio de Janeiro.

 

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