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Primeiro medicamento capaz de retardar a evolução e os sintomas do diabetes tipo 1 é aprovado no Brasil

Remédio conseguiu atrasar em cerca de dois anos as manifestações da doença autoimune, que costuma ser diagnosticada em pessoas mais jovens

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 mar 2026, 11h23 | Atualizado em 10 mar 2026, 16h10
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu aval para o primeiro tratamento com potencial de retardar a evolução do diabetes tipo 1 e mudar a história natural da doença, marcada pela falência na produção de insulina após o ataque do sistema imunológico ao pâncreas. O teplizumabe, de nome comercial Tzield, é um anticorpo monoclonal desenvolvido pela farmacêutica Sanofi testado e validado em estudos para crianças e adultos com a condição.

A terapia, aplicada na veia, é indicada a indivíduos com a doença que ainda não tenham apresentado sintomas, mas já convivem com alterações nos níveis de açúcar no sangue em função da perda progressiva das células fabricantes de insulina – a insulina é o hormônio produzido pelo pâncreas que permite à glicose entrar nas células do corpo, provendo energia para o organismo e impedindo que o açúcar se acumule e cause problemas na circulação.

O remédio aprovado pela Anvisa mira uma proteína específica do sistema imunológico, a CD3, interferindo numa cascata de eventos que culminam no ataque de células de defesa ao pâncreas. Mesmo que o paciente não dê sinais desse fenômeno autoimune, é possível rastreá-lo a partir de exames de sangue que dosam autoanticorpos contra as unidades fabris de insulina, as células beta no pâncreas.

Diferentemente do diabetes tipo 2, que corresponde a cerca de 90% dos casos e é diagnosticado principalmente com o avançar da idade, o tipo 1 é mais frequentemente flagrado entre crianças, adolescentes e adultos jovens. Não raro, a condição é detectada apenas depois que sintomas como sede excessiva, aumento da necessidade de urinar e perda de peso sem motivo dão as caras. O tratamento depende de aplicações diárias de insulina. 

O objetivo do teplizumabe é entrar em campo antes que isso ocorra. Ele recebeu chancela regulatória para pacientes a partir dos 8 anos de idade no que se chama de estágio 2 da doença, quando há presença de autoanticorpos em exames, mas o indivíduo está assintomático, ainda que apresente desequilíbrios nos níveis de glicose no sangue.

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Os experts dividem a evolução do diabetes tipo 1, considerado um quadro progressivo, da seguinte forma:

Estágio 1: já há um ataque do sistema imune às células produtoras de insulina no pâncreas, o que pode ser identificado por exames de sangue que apuram autoanticorpos específicos. Os níveis de glicose ainda estão normais e não há sintomas.

Estágio 2: Ainda não há sintomas, mas, além do resultado positivo para autoanticorpos nos exames, já existem alterações nos níveis de glicose no sangue.

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Estágio 3: uma grande quantidade de células pancreáticas já foi destruída e começam a aparecer os sintomas clínicos. Os níveis de glicose no sangue tendem a se elevar de forma preocupante.

Estágio 4: é a doença de longa duração, que, se não for devidamente controlada, provoca complicações e sequelas.

O teplizumabe é indicado justamente a pacientes em estágio 2 a fim de evitar ou postergar a evolução para o estágio 3. O tratamento é baseado em um ciclo único de infusão na veia ao longo de duas semanas.

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Nos ensaios clínicos, em que a medicação foi comparada ao placebo (injeções sem princípio ativo), foi demonstrado que o uso retarda em cerca de dois anos o desenvolvimento de sintomas e a progressão do diabetes. Também se observou uma redução de quase 60% na necessidade de uso da insulina – o tratamento-padrão, que repõe o hormônio não produzido a contento pelo organismo.

Não é uma cura

A aprovação da Anvisa para o Tzield, que já é comercializado em dezenas de países, foi bem recebida pela comunidade de especialistas, mas comporta algumas ponderações.

“É uma mudança importante na abordagem do diabetes tipo 1, pois, até agora, o tratamento começava apenas quando a doença já estava instalada, com a necessidade de reposição diária de insulina. O novo medicamento inaugura uma estratégia diferente: atuar antes mesmo de os sintomas surgirem e adiar o diagnóstico por cerca de dois, em alguns casos até mais tempo”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.

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O médico chama a atenção, porém, para o fato de que a medicação não se destina a todo paciente com diabetes tipo 1, e a maioria só a descobre numa fase mais adiantada para a qual o teplizumabe não é indicado – no tal do estágio 3, quando, inúmeras vezes, o diagnóstico bate à porta numa hospitalização de emergência devido a uma crise de hiperglicemia.

A inovação tampouco pode ser vista como a cura do diabetes tipo 1. “Embora represente um tremendo avanço, o remédio não impede completamente o desenrolar da doença. Isso porque ele atua principalmente sobre os linfócitos T, modulando a atividade dessas células imunológicas, mas sabemos que a resposta autoimune é bem complexa e envolve outros componentes do sistema de defesa”, explica Couri.

“Na maioria dos casos, o novo tratamento acaba retardando, e não impedindo, o aparecimento do diabetes em sua fase clínica”, ressalta o endocrinologista. Ainda assim, trata-se de um ganho para os pacientes e suas famílias – menos tempo de doença significa menor risco de perigos e problemas no longo prazo, como perda de visão, comprometimento dos rins e complicações cardiovasculares. 

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Uma questão que poderá limitar o acesso é o preço. Embora ainda não tenha sido definido e divulgado no Brasil, não deve ser uma terapia barata. Nos Estados Unidos, onde foi aprovado em 2022, o ciclo de teplizumabe custa quase 200 mil dólares – cerca de 1 milhão de reais. “Mesmo com essas ressalvas, estamos diante de um novo capitulo no tratamento do diabetes tipo 1, com uma possibilidade real de mudar o curso da doença”, afirma Couri.

 

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