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“Minha mãe está entubada em um hospital nosso”, diz CEO da Prevent Senior

Em entrevista exclusiva, Fernando Parrillo fala sobe os casos de morte por coronavírus em sua rede e do áudio vazado

Por Mariana Rosário - Atualizado em 21 mar 2020, 11h27 - Publicado em 20 mar 2020, 18h36

Especializada em atender pacientes idosos — são cerca de 470 000 associados com idade média de 65 anos, 80 000 deles com mais de 80 anos —, a Prevent Senior registrava cinco mortes por coronavírus no momento desta entrevista. Recentemente, a empresa de planos de saúde foi alvo de investigação por parte da prefeitura da cidade de São Paulo sob a acusação de que não estaria notificando corretamente os casos suspeitos que deram entrada no Hospital Sancta Maggiore, no Paraíso, que pertence à companhia. Um deles, inclusive, teve alta gravidade e acabou levando um paciente de 62 anos à morte.

Também nesta semana, um áudio do CEO, Fernando Parrillo, em que alerta sobre a gravidade do vírus, circulou nas redes. Outra gravação, desta vez registrada por seu irmão, Eduardo, fala sobre a possibilidade de existir uma epidemia de grandes proporções do vírus na rede privada. A mensagem trazia uma estimativa de casos em outros grandes hospitais.

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Nesta sexta-feira, 20, o CEO Fernando Parrillo recebeu a reportagem de VEJA no prédio administrativo da empresa para falar com exclusividade sobre os recentes episódios envolvendo a sua firma. Com um celular que não dá trégua de mensagens e ligações, poucas horas disponíveis para dormir, Parrillo afirma que o convênio se preparou com antecedência para responder à altura da pandemia e atribui à Prefeitura de São Paulo a responsabilidade pelos problemas com as notificações. Passa álcool em gel nas mãos constantemente e prepara-se para inaugurar o maior hospital da Prevent Senior nos próximos dez dias. Confira a entrevista a seguir.

Nesta semana circularam áudios de WhatsApp atribuídos ao senhor e ao seu irmão falando sobre a gravidade do vírus. São verdadeiros? 
São áudios verdadeiros. Era para um grupo de amigos. Enviei no fim de semana passado. Queria apenas falar para eles sobre a gravidade do vírus e que era de grande importância respeitar o isolamento neste momento. A ideia nunca foi alarmar ninguém, gravei apenas para amigos, mas acabou vazando. No caso do áudio do meu irmão, o que ele fez foi uma estimativa baseada no que nós estávamos acompanhando no nosso hospital e no que ocorreu em outros países. Não sabíamos de qualquer informação interna sobre outros hospitais, foi uma suposição baseada no número de casos que acompanhávamos.

A prefeitura diz que o Hospital Sancta Maggiore não está notificando corretamente os casos suspeitos de infecção com o novo coronavírus. O que ocorreu?
Tivemos problemas para acessar o link do site onde a notificação deveria ser feita. Não posso retirar uma médica do atendimento aos pacientes para ficar em um computador ou ao telefone tentando fazer essa notificação. No caso da primeira morte, o diagnóstico positivo só foi constatado após o óbito, assim que recebemos a confirmação, nós divulgamos. Nas vistorias que ocorreram quarta e quinta, a prefeitura não pediu a listagem nem o prontuário dos pacientes para cruzar os dados entre o que foi notificado e as pessoas que estão no hospital, não sei como podem dizer que subnotificamos.

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Até agora, cinco pacientes fatais de coronavírus em São Paulo estavam internados no Hospital Sancta Maggiore do Paraíso. O que está acontecendo?

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Todas as mortes ocorreram no mesmo hospital porque nós justamente dedicamos um hospital exclusivo para o cuidado dos pacientes com coronavírus, como foi feito em diversos outros países. Os óbitos ocorreram porque cuidamos justamente de pessoas com idade mais avançada, mais atingidos pelo vírus.

Que medidas estão tomando agora para evitar o contágio entre médicos e pacientes?
Passamos a disponibilizar um hotel para que nossos colabores não precisem voltar para casa e assim evitar o risco de contágio de suas famílias. Por precaução, afastamos cerca de 150 colaboradores de todos os hospitais por apresentarem sintomas gripais. Com atestado positivo para coronavírus tivemos dois médicos, um deles já teve alta. Dedicamos dois hospitais para atendimento exclusivo de pacientes com sintomas e diagnóstico de coronavírus, mas estamos preparados para expandir o atendimento para todos os hospitais da rede e até mais, se for preciso. Também criamos uma ala de telemedicina na qual atendemos 24 horas os associados por computador, aplicativo ou telefone. Começou a funcionar na segunda-feira e já atendemos 8 000 pessoas. Virtualmente, médicos e enfermeiros dão orientações necessárias para o paciente e o direcionam para um hospital se for preciso.

Vocês têm recursos para atender pacientes com o novo coronavírus?
Temos recursos financeiros e materiais médicos para atender os pacientes o quanto for necessário. Compramos tudo com antecedência, está tudo armazenado, nós temos uma operação de guerra montada. Aceleramos a construção de um hospital que tinha previsão de abertura para abril, e será inaugurado em dez dias. Será o maior da rede (com 174 leitos), fizemos uma construção diferente ali, cada quarto tem um anexo exclusivo para o familiar. É como uma maternidade para idosos. Minha mãe de 75 anos está entubada em um dos nossos hospitais, não sabemos como ela teve contato com a doença.  A minha mulher também teve diagnóstico positivo e ficou em isolamento em casa, mas já está quase curada. Eu estive em Boston no começo do mês, mas fiz o teste e deu negativo. O mesmo aconteceu com os meus filhos de 14 e 16 anos.

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