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Pesquisa brasileira encontra técnica simples para ajudar a conter superbactérias nas UTIs

Estudo feito em 22 UTIs brasileiras indica que banho diário com clorexidina pode diminuir a presença de bactérias resistentes em pacientes internados

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 jul 2026, 10h37 | Atualizado em 24 jul 2026, 17h07
Pesquisa brasileira encontra técnica simples para ajudar a conter superbactérias nas UTIs Priorizar nos meus resultados Google

A guerra contra as chamadas bactérias resistentes, capazes de escapar da ação dos antibióticos mais comuns, também pode ser travada com medidas tão pequenas quanto esses microrganismos invisíveis. Uma delas é dar banho nos pacientes que estão em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) com um sabão à base de clorexidina, um antisséptico capaz de reduzir a presença de bactérias na pele.

É o que mostra um novo estudo conduzido pelo Hcor, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde, que foi publicado recentemente na revista científica The Lancet Regional Health – Americas. Os pesquisadores avaliaram se uma medida simples como substituir o banho tradicional pelo uso diário de clorexidina poderia ajudar a conter a disseminação de microrganismos difíceis de combater dentro das UTIs.

A pesquisa avaliou cerca de 16 mil pacientes em 22 UTIs brasileiras ao longo de um ano e meio e é considerado um dos maiores estudos clínicos já realizados no Brasil sobre resistência antimicrobiana, considerada uma das principais ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O estudo, batizado de CLEAN-IT, mostrou que o banho diário com clorexidina reduziu em 27% a detecção de bactérias multirresistentes em pacientes internados em UTIs. Além disso, a medida também esteve associada a um menor uso de antibióticos de última linha, medicamentos reservados para situações em que outras opções já não funcionam.

Os resultados fazem parte do projeto Impacto-MR, plataforma colaborativa lançada em 2018 para pesquisas voltadas ao combate às bactérias multirresistentes. No triênio 2024–2026, além do Hcor, também permanecem conduzindo o projeto o Hospital Sírio Libanês, o Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e o Einstein Hospital Israelita.

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“O estudo mostra que, em um país com um sistema de saúde extremamente complexo como o nosso, que envolve tanto a rede pública quanto a privada e tem dimensões continentais, é possível levar uma intervenção relativamente simples para a vida real, porque o banho já faz parte da rotina dos pacientes internados. Na prática, estaríamos apenas substituindo um produto por outro”, comenta Bruno Tomazini, médico intensivista e responsável pelo projeto Impacto-MR nas frentes do Hcor e do Hospital Sírio Libanês.

Como o estudo foi feito

O CLEAN-IT acompanhou 16 mil pacientes internados em 22 UTIs brasileiras entre 1º de agosto de 2022 e 31 de dezembro de 2023. As unidades foram sorteadas para alternar períodos em que os pacientes recebiam banho diário com clorexidina e períodos em que era mantida a rotina habitual, com água e sabão. Após cada fase, houve um intervalo de um mês antes da troca de estratégia.

A clorexidina é um antisséptico amplamente usado na medicina para reduzir a quantidade de bactérias na pele antes de procedimentos cirúrgicos. Quem vai passar por uma cirurgia cardíaca ou abdominal, por exemplo, costuma tomar um banho com esse produto antes da operação para diminuir o risco de infecções.

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“O desafio era saber se esse benefício também poderia ser obtido em pacientes internados na UTI, um ambiente muito mais complexo, onde estão os doentes mais graves e circulam as bactérias mais resistentes”, explica Tomazini.

Pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos já haviam mostrado que a estratégia reduzia infecções da corrente sanguínea relacionadas a cateteres. Mas esse é apenas um dos muitos tipos de infecção que podem acometer pacientes críticos.

Por isso, o CLEAN-IT buscou responder uma pergunta mais ampla: será que o banho com clorexidina conseguiria reduzir diferentes infecções e diminuir a circulação de bactérias resistentes?

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Segundo Tomazini, os pesquisadores utilizaram uma metodologia para garantir que os resultados não fossem influenciados por outras medidas adotadas pelos hospitais durante o período de acompanhamento. A única mudança foi substituir o sabonete comum pelo sabonete com clorexidina, uma estratégia muito mais barata do que o uso de lenços umedecidos com o mesmo antisséptico, utilizados em alguns países.

O que eles descobriram

O principal desfecho analisado foi a ocorrência de três infecções hospitalares relacionadas ao uso de dispositivos médicos, consideradas indicadores padronizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa):

  • Pneumonia associada à ventilação mecânica (quando microrganismos chegam aos pulmões por meio do tubo conectado ao respirador);
  • Infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter venoso central (quando bactérias ou fungos conseguem entrar na corrente sanguínea por meio de um cateter);
  • Infecção urinária associada à sonda vesical (quando bactérias conseguem entrar no trato urinário por meio da sonda colocada na bexiga para drenar a urina).

Esses diagnósticos seguem critérios rigorosos. “No dia a dia, um médico pode dizer para a família que o paciente está com um começo de pneumonia. Mas, para afirmar tecnicamente que se trata de uma pneumonia associada ao respirador, por exemplo, é preciso cumprir uma série de critérios definidos pela Anvisa. Do ponto de vista médico e epidemiológico, essas infecções têm nome, sobrenome, CPF e RG“, compara Tomazini.

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Nesse desfecho principal, não houve diferença entre os pacientes que tomaram banho com água e sabão e aqueles que receberam clorexidina. Mas, segundo o pesquisador, essas infecções representam apenas “a ponta do iceberg“. “São três infecções dentro de um universo gigantesco. Por isso, também analisamos outros indicadores”.

Os chamados exames de cultura microbiológica entraram nessa lista. Sempre que um paciente apresenta sinais de infecção, os médicos coletam sangue, urina ou secreções para identificar se há crescimento de bactérias ou fungos e descobrir quais antibióticos funcionam contra aquele microrganismo.

Foi justamente aí que surgiu um dos principais achados do estudo. Os pacientes que receberam banho com clorexidina apresentaram 27% menos culturas positivas para bactérias resistentes aos antibióticos. Em outras palavras, entre aqueles que precisaram fazer esses exames, houve uma redução de quase um terço na identificação de microrganismos multirresistentes, sugerindo menor circulação dessas bactérias dentro das UTIs.

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Na prática, quando um paciente grave apresenta sinais de infecção, os médicos iniciam antibióticos imediatamente, antes mesmo de o resultado da cultura ficar pronto. Quando o exame identifica a bactéria, o tratamento pode ser ajustado; se o resultado é negativo, muitas vezes o antibiótico é suspenso.

Nas UTIs que adotaram o banho com clorexidina, houve redução no uso de antibióticos, especialmente daqueles classificados pela OMS como de “reserva”, medicamentos destinados às infecções mais graves e difíceis de tratar.

Para os pesquisadores, os dois resultados estão diretamente relacionados. Com menos circulação de bactérias resistentes, diminui também a necessidade de recorrer aos antibióticos mais potentes.

Esse benefício, afirma Tomazini, vai além do paciente individual. Quanto menos esses medicamentos são utilizados, menor tende a ser a pressão para que as bactérias desenvolvam resistência, ajudando a preservar a eficácia dos antibióticos mais importantes para casos graves. Embora a estratégia não garanta proteção para cada paciente, ela pode trazer ganhos relevantes quando adotada em larga escala nas UTIs.

Outro dado importante é que a estratégia mostrou ser segura. Entre mais de 8 mil pacientes que receberam banho com clorexidina, apenas um relatou ressecamento da pele e 15 apresentaram coceira, sem registro de efeitos adversos graves.

Por que isso importa

Se uma bactéria consegue escapar do efeito de um antibiótico, a solução que parece mais óbvia é criar um remédio ainda mais potente. Na prática, porém, as bactérias também mudam com o tempo e conseguem “resistir” até aos novos medicamentos, o que tem levado cientistas em todo o mundo a buscar formas de prevenir o surgimento desses inimigos invisíveis.

“Se a gente inventa um antimicrobiano muito bom hoje, é uma questão de semanas até surgirem bactérias resistentes a ele, principalmente se o remédio for utilizado de maneira inadequada”, explica Tomazini. “Nesse contexto, consideramos que estratégias de prevenção, de uma maneira geral, são tão eficazes ou até mais eficazes do que ficar à mercê da descoberta de novos medicamentos”.

Essa preocupação não é pequena. Estimativas citadas pela OMS indicam que, sem medidas para conter o problema, as infecções causadas por bactérias resistentes podem estar associadas a 39 milhões de mortes acumuladas entre 2025 e 2050. “Hoje temos tratamentos excelentes para várias doenças. Muitas vezes, o paciente não morre mais de câncer. Infelizmente, a via final acaba sendo uma infecção dentro da UTI”, diz Tomazini.

Além do desafio científico, desenvolver novos antibióticos é um processo caro e demorado. E, mesmo quando eles chegam ao mercado, o alto custo pode limitar o acesso. O especialista explica que a única “cura” para a resistência antimicrobiana no mundo seria acabar com os antibióticos. O custo disso, porém, envolveria milhões de vidas. Por isso, o objetivo não é usar mais nem menos remédios do que o necessário, mas a quantidade certa.

É justamente nesse ponto que entra o banho com clorexidina. Segundo Tomazini, a estratégia tende a trazer maior impacto em hospitais que enfrentam taxas elevadas de resistência bacteriana e utilizam grandes quantidades de antibióticos. Nesses locais, o banho pode reduzir rapidamente a circulação desses microrganismos e diminuir o consumo de antimicrobianos, além de estimular outras ações de controle.

Como o estudo acompanhou os pacientes pelo período de um ano e meio, ainda não é possível afirmar se os benefícios do banho com clorexidina se manteriam caso a estratégia fosse adotada continuamente por muitos anos. “Essa é uma das grandes dúvidas. O que aconteceria se passássemos a dar banho com clorexidina em todos os pacientes por cinco ou dez anos? Ainda não sabemos se o efeito continuaria o mesmo”, afirma o médico.

Segundo ele, as próprias bactérias evoluem e podem desenvolver resistência também à clorexidina, embora isso ainda seja incomum. “As bactérias não são bobas. Já existem bactérias resistentes à clorexidina, mas isso ainda não é frequente e não é algo que deva gerar preocupação imediata.”

Para o pesquisador, essa é mais uma razão para que a estratégia seja vista como parte de um conjunto de medidas, e não como uma solução milagrosa. “A clorexidina não resolve sozinha o problema da resistência antimicrobiana. Ela é um aliado, um acelerador. O combate exige várias frentes: controle de infecções, uso adequado de antibióticos, treinamento das equipes e orientação dos pacientes. O antibiótico é uma ferramenta essencial, mas precisa ser usado na dose certa, pelo tempo certo e para o paciente certo”, diz.

Outro estudo do projeto, conduzido pelo Hospital Sírio-Libanês, avaliou mais de 75 mil internações em 50 UTIs brasileiras entre 2019 e 2021 e mostrou que melhorias estruturais e mudanças relativamente simples nos processos assistenciais podem reduzir infecções relacionadas à assistência à saúde, especialmente aquelas causadas por bactérias resistentes a antibióticos.

A pesquisa identificou que as medidas a seguir estavam associadas a menores taxas dessas infecções:

  • Dimensionamento adequado das equipes de enfermagem;
  • Treinamento regular em higiene das mãos;
  • Disponibilidade de álcool gel e outros insumos;
  • Adoção de protocolos para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica e infecção da corrente sanguínea associada ao cateter central;
  • Atuação integrada de enfermeiros, fisioterapeutas e dentistas.

Na avaliação dos autores, o estudo reforça que fortalecer a estrutura dos hospitais, qualificar as equipes e organizar melhor o cuidado são estratégias capazes de aumentar a segurança dos pacientes e prevenir infecções potencialmente evitáveis nas UTIs.

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