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Pais devem limitar uso de TV, web, games e celular, diz especialista

Estudioso dos efeitos do uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes, o pediatra americano Victor Strasburger defende que o aspecto mais perigoso dessa forma de entretenimento em altas dosagens é o estímulo à violência. “As pessoas gostam de assistir a filmes de ação. Mas essas obras não precisam acabar em um banho de sangue nem envolver armas ou mostrar um indivíduo quebrando o pescoço de outro”, diz o médico, organizador da compilação Health Effects of Media on Children and Adolescents (Efeitos da mídia sobre a saúde de crianças e adolescentes), publicada recentemente pela Academia Americana de Pediatria (AAP), que reuniu dezenas de artigos científicos acerca dos efeitos da TV, web, games e celulares na vida de jovens. Na entrevista a seguir, concedida por telefone a VEJA.com, o especialista orienta os pais a “fazer mais” para evitar problemas às crianças.

Crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo em contato com dispositivos eletrônicos. O que pode ser feito para evitar que esse comportamento tenha consequências negativas?

Eu acho que os pais devem limitar o uso desses dispositivos por parte dos filhos. Devem também analisar cuidadosamente o conteúdo do que as crianças assistem: é preciso discutir com os filhos o que eles estão vendo. Além disso, precisam manter a TV e conexões de internet fora do quarto delas.

Grande parte dos estudos aponta efeitos negativos no uso excessivo de internet, celular, TV e games. Podemos dizer que a TV exige mais cuidados por parte dos pais?

A TV pode ser o principal atrativo para crianças e adolescentes. Mas eu diria que não importa qual é o veículo: o aspecto mais perigoso é a violência. Seja nos programas de TV ou nos videogames, por exemplo. Quando você mostra violência para crianças pequenas, mocinhos contra bandidos, você cria a noção de que a violência é uma solução aceitável para problemas complexos.

Uma velha dúvida dos pais: crianças expostas a conteúdos violentos podem se tornar violentas?

Sim, podem. É uma conexão epidemiológica. Você não pode dizer com base em um único evento que uma pessoa que assistiu a muita violência se tornou agressiva. Mas se você olhar uma população de crianças, sim. Aqueles que foram expostos a mais situações de violência pelos meios eletrônicos, se tornaram mais agressivos – seja em casa, na sala de aula ou quando se tornam adultos.

Não dar um celular ou um computador para o filho pode ser a solução?

Novamente, trata-se de uma questão de estabelecer limites. Uma criança de cinco anos não precisa de celular; aos dez, ela não precisa de celular com câmera. As crianças não precisam de conexão com a internet ou de TV em seus quartos. Acho que os pais precisam fazer mais do que fazem atualmente sobre essa questão. Assim como Hollywood precisa se preocupar mais: deveria, por exemplo, retirar o fumo e a bebida dos filmes, promover atividade sexual mais responsável e diminuir a violência gratuita.

E eles poderiam fazer isso?

Eles podem fazer o que eles quiserem. Hollywood foi acusada no passado de confundir ação com violência. As pessoas gostam de assistir a filmes de ação. Mas essas obras não precisam acabar em um banho de sangue nem envolver armas ou mostrar um indivíduo quebrando o pescoço de outro. Há uma diferença entre ação e violência.

Como incentivar os pais a se voltar para a questão?

Eu acho que os pediatas devem orientar os pais. Durante as consultas, eles devem fazer duas questões. Uma: quanto tempo seu filho passa diante de um dispositivo eletrônico por dia? Outra: seu filho tem acesso à internet no quarto? Os pediatras devem sensibilizar os pais sobre a questão. Porque, potencialmente, os meios eletrônicos têm poder para afetar qualquer tema sensível aos jovens, como sexo, drogas, obesidade, agressão ou desempenho escolar.

O que pais cujos filhos já são vítimas dos excessos podem fazer?

Quando isso já está estabelecido é muito difícil voltar atrás. Meu primeiro conselho é a prevenção. Não deixem as crianças assistir a quatro, cinco horas de TV por dia. A Academia Americana de Pediatria recomenda o limite de uma ou duas horas diárias. Mas se a criança já estiver acostumada, é preciso reduzir esse tempo de exposição gradativamente, oferecendo simultaneamente atividades alternativas, como esportes, visita a museus ou brincadeira com os amigos.