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Os sete cientistas brasileiros no coração do estudo da vacina de Oxford

Eles comandam um dos braços mais relevantes das pesquisas do imunizante da AstraZeneca, o mais usado no mundo

Por Giulia Vidale Atualizado em 6 ago 2021, 17h12 - Publicado em 6 ago 2021, 06h00

No centro dos esforços para oferecer ao mundo um imunizante contra a Covid-19 em tempo recorde estão sete pesquisadores brasileiros que no último ano se dedicaram a atestar a segurança e eficácia daquela que se tornou a vacina mais usada no mundo, o fármaco desenvolvido pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca. Fundamental para essa vitória, o trabalho desse grupo permitiu que, em quatro meses, mais de 10 000 voluntários de seis centros de pesquisa fossem incluídos nos ensaios clínicos que precederam a aprovação da vacina em dezembro, no Reino Unido. Para fator de comparação, em tempos normais um bom centro recruta cerca de 400 voluntários por mês. “O mundo precisava de uma vacina e, devido à contribuição do Brasil, conseguimos registrar uma na Europa ainda em 2020. É a vacina Oxford-Brasil”, disse a VEJA a professora da Universidade de Oxford, Sue Ann Costa Clemens, líder do braço brasileiro da pesquisa.

arte fiocruz

A afirmação não é exagerada. Metade dos voluntários incluídos no artigo publicado em dezembro na prestigiosa revista científica The Lancet, passo fundamental para aprovação da vacina a uma velocidade vertiginosa, era do Brasil. Além de Sue, quatro mulheres e dois homens são os responsáveis pela façanha: Lily Weckx, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Ana Pittella, do Instituto d’Or de Pesquisa e Ensino (Idor) do Rio de Janeiro; Ana Verena Almeida Mendes, do Instituto d’Or em Salvador; Eveline Pipolo, do Centro de Pesquisas Clínicas (CePCLIN) em Natal; Alexandre Schwarzbold, da Universidade Federal de Santa Maria; e Eduardo Sprinz, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Na sexta-feira 30, o grupo se reuniu pela primeira vez presencialmente na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. O clima era de celebração e irmandade. Por videoconferência feita do sofá de sua casa em Oxford, Andrew Pollard, diretor do Oxford Vaccine Group e pesquisador-chefe do Oxford Vaccine Trial, resumiu assim o sentimento predominante: “Obrigada pelo trabalho de vocês. Embora às vezes seja difícil imaginar a importância do que fizemos, pelo menos passamos por todo o sofrimento e chegamos lá juntos, e isso é algo do qual todos devemos nos orgulhar”.

Foram de fato vários os percalços. “Estávamos no pico da primeira onda. O maior desafio foi encontrar uma forma de não deixar de atender pacientes e ainda criar um espaço seguro para os voluntários”, revela a infectologista Ana Mendes. Em Salvador, por exemplo, a igreja do Hospital São Rafael se transformou em centro de recepção de voluntários e a lanchonete, em local de observação pós-aplicação da vacina. Em Natal, o CePCLIN adaptou um ginásio para receber os voluntários. No Rio de Janeiro, até o estacionamento do Idor virou local de atendimento. De modo dramático, a aventura da vacina foi emoldurada pela paralisação mundial do estudo por medidas de cautela sanitária e até suspensões temporárias por falta de material, incluindo imunizantes. “A interrupção foi um momento angustiante pela incerteza sobre o futuro da vacina, além da segurança dos voluntários, muitos dos quais nossos colegas”, conta Alexandre Schwarzbold.

100% NACIONAL - Linha de fabricação na Fiocruz: doses feitas no Brasil -
100% NACIONAL - Linha de fabricação na Fiocruz: doses feitas no Brasil – Bruna Prado/AP/Imageplus/.

O peso de estar no coração da luta contra a pandemia foi avassalador na vida dos pesquisadores, que continuaram com suas funções na coordenação de hospitais, no atendimento aos pacientes e ainda na liderança de um estudo histórico. “Trabalhei mais do que na minha vida inteira”, diz Eveline Pipolo. Reuniões nos fins de semana eram rotineiras, assim como chegar em casa de madrugada. “A família ficou de lado. Mas a gente sabe que é por uma boa causa”, pondera a infectologista. Os bons frutos decorrentes dos esforços podem ser contabilizados facilmente: o imunizante é usado em 181 países. “É um legado que deixamos para a humanidade”, diz Ana Pittella. No Brasil, quase a metade dos vacinados com ao menos a primeira dose recebeu a AstraZeneca. A vacina também é uma das duas produzidas aqui por meio de acordos de transferência de tecnologia. O primeiro lote 100% nacional começou a ser fabricado recentemente pela Fiocruz. Durante a visita à instituição, os pesquisadores acompanharam maravilhados esse processo. “É muito tocante ver o início da primeira vacina completamente produzida no Brasil”, diz Sue Ann Clemens. As doses devem ser entregues ao Ministério da Saúde no último trimestre do ano, trazendo autossuficiência para o país. E ainda mais orgulho aos cientistas brasileiros.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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