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Os danos à saúde provocados pelo vício em pornografia, em alta na era digital

Os prejuízos são comparáveis aos do uso de drogas

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 28 ago 2026, 12h25
Os danos à saúde provocados pelo vício em pornografia, em alta na era digital Priorizar nos meus resultados Google

A obsessão começou cedo — e em um lugar improvável. A. tinha 10 anos quando travou seus primeiros contatos com imagens eróticas e pornográficas em revistas espalhadas sob a bancada do salão de cabeleireiro que frequentava. Depois vieram os filmes alugados ou exibidos na TV de madrugada. Mais tarde, com a internet, ele virou fã de unidades de lanchonetes de fast food que ofereciam computadores de acesso irrestrito — seu canal para o mundo do sexo. O passo seguinte, obviamente, veio com a compra de um smartphone e a oferta interminável de vídeos disponíveis. As cenas se multiplicavam na palma da mão. Já adulto, chegou a passar oito horas por dia consumindo pornografia. “Meu cérebro só pensava em sexo”, conta o vendedor, que pediu anonimato à reportagem de VEJA enquanto continua fazendo tratamento para a dependência. Ele não está só. Com o fácil acesso a sites e a ascensão das plataformas de conteúdo adulto, o chamado uso problemático de pornografia atinge, segundo novos estudos, cerca de 10% da população, podendo evoluir para uma doença mental e destruir famílias.

O consumo de fotos, vídeos e transmissões ao vivo se tornou uma realidade que, para algumas pessoas, transforma prazer em sofrimento. A., como outros que procuram terapia, não dormia e acessava conteúdos até no trabalho. Mas nunca se contentava: “Queria cenas cada vez mais fortes”. Não é por acaso que esse comportamento é visto como uma dependência, compartilhando circuitos cerebrais ativados pelo uso de drogas. “As pessoas desenvolvem uma tolerância à pornografia tradicional e precisam de doses cada vez mais intensas para ter o efeito esperado”, descreve o psiquiatra Thiago Henrique Roza, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que investigou o tema em aplaudido doutorado. É por isso que canais que oferecem de práticas bizarras a zoofilia ganham adeptos, o que tem se tornado ainda mais crítico com filmes protagonizados por avatares de inteligência artificial.

TODOS OS PÚBLICOS - Dependência entre mulheres: relatos crescentes
TODOS OS PÚBLICOS - Dependência entre mulheres: relatos crescentes (M-Production/Getty Images)

O vício não consome apenas horas e horas da vida de homens e mulheres — sim, delas também. Está associado a problemas que vão de abstinência, ansiedade e depressão a dificuldades de construir relacionamentos no mundo real. Também abre portas a outras dependências. A. passou a frequentar boates de prostituição, onde conheceu a cocaína. Numa rotina de intoxicações, perdeu o emprego duas vezes. “Não tenho dúvida que tudo começou com aquele contato com a pornografia lá na infância”, afirma ele, que participa dos encontros virtuais da D.A.S.A. (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos).

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De fato, a iniciação precoce está ligada a maior risco de dependência no futuro. Não se trata de moralismo: de acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, professora da USP, já existem estudos de neuroimagem demonstrando que o consumo de vídeos de sexo pode retardar o desenvolvimento cerebral na infância. “O mínimo que vai acontecer é a criança se tornar refém de práticas altamente performáticas que não vai conseguir alcançar ao longo da vida, gerando prejuízos sociais e de autoimagem”, afirma. Daí a preocupação dos especialistas com a propaganda de plataformas de conteúdo adulto como Privacy e OnlyFans, que ganhou novo capítulo com o anúncio de que uma empresa do ramo, a Fatal Fans, virou patrocinadora da camisa do Corinthians. O receio de uma exposição massiva, incluindo a de menores, levou deputados a elaborar um projeto de lei antipornografia que visa limitar a publicidade, sobretudo no contexto esportivo e cultural. Jovens são curiosos por natureza. Restringir acesso, nesse caso, pode resguardar sua psique e favorecer, no momento adequado, uma relação melhor com a sexualidade. “Quando crianças aprendem sobre esses assuntos de forma oportuna e gradativa, ficam inclusive menos vulneráveis à pornografia”, diz a educadora parental Andyara Nóbrega.

TERAPIA - Sessões virtuais ou presenciais: encontros ajudam a tratar compulsão
TERAPIA - Sessões virtuais ou presenciais: encontros ajudam a tratar compulsão (FG Trade/Getty Images)
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É um modo, inclusive, de evitar que o consumo de conteúdos sexuais vire uma espécie de válvula de escape emocional a partir da adolescência, o que ocorreu com o influenciador Guilherme Gomes, de 25 anos: “Toda vez que eu me sentia triste, assistia. Se ficava muito feliz, assistia também. Qualquer sensação me levava ao mesmo lugar”. Segundo a sexóloga francesa Aurore Malet-­Karas, autora do livro Cérebro, Sexo e Amor (Editora Contexto), muitas pessoas recorrem à pornografia hoje como meio de aliviar o estresse, o que pode criar um círculo vicioso que não anula a fonte original de tensão e ainda cria uma nova, capaz de prejudicar a rotina e a conexão com o parceiro e outras pessoas.

Não por acaso, o uso problemático de pornografia costuma exigir tratamento médico e psicológico. Gomes conseguiu se libertar, aos poucos, graças a sessões de terapia. “Você não melhora do dia para noite, mas cai e levanta várias vezes. Só procurando ajuda para não cair ainda mais fundo”, diz o influenciador. Terapias em grupo ou individuais e medicamentos para controle dos impulsos estão entre as abordagens mais efetivas para domar o vício. Uma realidade compartilhada por A. e outros milhares de brasileiros que não deve ser julgada com preconceito, mas encarada com conhecimento e sensibilidade — e prevenida desde cedo.

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Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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