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“Os critérios de diagnóstico aumentaram o número de doentes mentais”, diz pesquisador americano

Segundo o epidemiologista Allan Horwitz, comportamentos naturais do ser humano estão sendo tratados como transtornos mentais

Por Vivian Carrer Elias 15 out 2012, 10h17

“Ser ansioso é uma característica comum e completamente natural. Acredito que todos nós iremos ter ansiedade em algum ponto da vida, mas nem todos nós teremos transtornos mentais. As pessoas que nunca são ansiosas, estas sim devem ter algum distúrbio.” – Allan Horwitz

Em 1980, entre 2% e 4% da população dos Estados Unidos apresentava algum sintoma considerado pela psiquiatria como transtorno de ansiedade. Mais de 20 anos depois, em 2005, uma em cada cinco pessoas no país – ou 20%, dez vezes mais do que em 1980 – apresentou o problema em um período de 12 meses. Hoje, com base nas pesquisas recentes e nos critérios atuais da psiquiatria, é possível dizer que metade da população mundial teve ou terá algum transtorno de ansiedade ao longo da vida – uma incidência quase 20 vezes mais alta do que há trinta anos.

No entanto, não estamos mais ansiosos e nem mais mentalmente doentes do que no passado. O que se ampliou, na verdade, foram os critérios que definem um comportamento como transtorno mental, de tal forma que cada vez mais pessoas se encaixam em algum diagnóstico . É o que afirma o americano Allan Horwitz, doutor em sociologia e professor da Universidade Rutgers, em New Jersey, nos Estados Unidos, em seu novo livro All we have to fear: psychiatry’s transformation of natural anxieties into mental disorders (Tudo o que devemos temer: transformação de ansiedade natural em transtornos mentais na psiquiatria, sem edição em português), escrito junto ao co-autor Jerome Wakefield, professor de Psiquiatria na Universidade de Nova York.

Perfil

Allan Horwitz
Allan Horwitz VEJA

Allan Horwitz

Professor de sociologia na Universidade Rutgers, em New Jersey,e autor do livro All we have to fear: psychiatry’s transformation of natural anxieties into mental disorders e Creating Mental Illness, publicado em 2002. Também é doutor em Sociologia com especialização em epidemiologia psiquiátrica pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

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Horwitz não nega a existência de problemas que precisam ser efetivamente tratados com auxílio médico, mas argumenta que, mesmo que alguns medos sejam exacerbados hoje em dia, não devem necessariamente ser considerados transtornos mentais. “Esses medos, fobias e ansiedade não são transtornos, pois não há nada de errado com o cérebro, mas sim uma incompatibilidade entre o que o fomos programados para sentir e o que realmente deveria nos preocupar em ambientes modernos.

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Por que o senhor quis escrever esse livro? Quando eu observei as estatísticas e vi que o número de transtornos de ansiedade cresceu muito e constantemente nos Estados Unidos nos últimos 30 anos, e acredito que essa incidência seja parecida ao redor do mundo, eu pensei que deveria haver algo de muito errado nesses dados. Por isso, eu e o co-autor do livro resolvemos estudar os motivos que levaram ao aumento dos diagnósticos de transtornos de ansiedade.

Qual foi a conclusão? O aumento do número de casos de transtornos de ansiedade não significa que as pessoas estejam mais ansiosas agora do que no passado, mas sim que os critérios de diagnósticos desses transtornos mudaram ao longo do tempo. Com isso, as respostas normais das pessoas diante de certas situações que as tornam naturalmente ansiosas são cada vez enquadradas no rol dos transtornos. Indivíduos são classificados como doentes por ficarem ansiosos em situações em que realmente deveriam se sentir assim.

A incidência de transtornos de ansiedade aumenta constantemente desde 1980. O senhor acredita que a prevalência desse distúrbio continuará aumentando? Acho que seguimos nessa direção. Em maio de 2013, sairá a quinta edição do Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais, manual feito pela Associação Americana de Psiquiatria para profissionais de saúde com os critérios de diagnóstico para uma série de doenças mentais. As mudanças no documento deverão tornar ainda mais comum o diagnóstico dos transtornos mentais, especialmente os de ansiedade.

As características da sociedade moderna não contribuem para o aumento da incidência de transtornos de ansiedade? Nossa sociedade certamente tem muitos fatores que deixam as pessoas ansiosas. Mas outras épocas não foram diferentes. Talvez fossem até piores. No passado, por exemplo, conseguir comida suficiente era um problema. A ansiedade sempre foi comum e não há nenhuma razão para acreditar que é mais prevalente hoje do que no tempo dos nossos bisavós

Todos nós somos ansiosos? Sim, ser ansioso é uma característica natural. Acredito que todos nós sofrer de ansiedade em algum ponto da vida, mas nem todos teremos transtornos mentais. As pessoas que nunca são ansiosas, estas sim devem ter algum distúrbio.

Quando é normal se sentir ansioso? É natural que as pessoas fiquem ansiosas quando elas têm uma grande preocupação, como problemas financeiros, no trabalho, no casamento ou com os filhos. Todos os indivíduos estão sempre e naturalmente preocupados com esse tipo de coisa, então é preciso ter em mente que a ansiedade é normal e deve ser separada dos transtornos mentais. Além disso, os tipos mais comuns de transtornos de ansiedade são encontrados em pessoas que têm algum medo sem razão aparente ou sólida, como medo de aranhas ou cobras, de falar em público ou de altura. Eles parecem irracionais pois, hoje em dia, esses fatores quase nunca apresentam um grande perigo. No entanto, o homem foi programado para sentir medo de situações que realmente eram perigosas várias gerações atrás. Por isso, vários temores que temos e que não fazem mais sentido não devem ser considerados transtornos, uma vez que não há nada de errado com a nossa mente, mas sim um descompasso entre os medos que nosso cérebro foi programado para sentir e o que realmente deveria nos preocupar em ambientes modernos.

A ansiedade, então, foi programada em nós pela evolução? Se pensarmos em uma situação análoga, poderíamos pensar na alimentação humana. As pessoas foram programadas para consumir a maior quantidade de calorias que fosse possível pelo fato de que, na maior parte da história do homem, era muito difícil conseguir comida suficiente e, então, era quase impossível ficar gordo. Hoje, embora seja muito fácil obter as calorias suficientes para a sobrevivência, ainda temos o mesmo apetite e acabamos comendo mais do que o necessário. Não há nada de errado com nosso apetite, exceto o fato de que ele se manifesta em um ambiente para o qual não foi desenhado. Acho que muito disso vale puara a ansiedade – não há nada de errado com as pessoas que têm medo de falar em público ou de altura, elas apenas estão agindo do modo para o qual foram programadas, mas em um ambiente diferente.

Quando ansiedade, medo ou preocupação naturais se tornam um distúrbio? Quando algo ocorre de errado na forma como os nossos sentimentos naturais surgem e são sustentados. Ou seja, fomos desenhados para nos sentir ansiosos quando há motivos, sentir medo quando algo é perigoso. Quando ‘algo ocorre de errado’, as pessoas ficam ansiosas em momentos em que não há nada para temer, elas sentem medo sem razão. Esses sentimentos, então, começam a afetar suas vidas. As pessoas já não conseguem controlar seus medos, nem fazer coisas que gostariam de fazer. Acredito que é aí que o medo começa a entrar no território dos distúrbios. Um exemplo que dou no livro é o de um paciente que apresenta um transtorno obsessivo compulsivo e só consegue realizar ma atividade se o relógio estiver marcando números ímpares. Ele acredita que não pode fazer nada enquanto números pares estiverem no mostrador, por isso se torna extremamente ansioso em uma situação em que o perigo não existe.

Os nossos medos e outros sentimentos naturais, por não serem um transtorno, não deveriam ser tratados? Eu acho que se esses sentimentos atrapalham uma pessoa, não há nada de errado em tratá-la, mas não devemos estigmatizar esse indivíduo afirmando que ele tem algum distúrbio. Eu sou contra dizer que alguém é mentalmente doente por ter medos naturais, quando na verdade essa pessoa está somente agindo da maneira que o seu cérebro foi programado para responder.

Por exemplo? Muita gente tem medo de avião. Obviamente, aviões não existiam há milhares de anos, mas ele combina diversos fatores que podem provocar esse medo natural nas pessoas, como chegar a alturas muito elevadas e ficar em um ambiente fechado de onde não é possível sair. Se uma pessoa tem um emprego que exija que ela viaje muito de avião, esse sentimento, apesar de natural, pode prejudicar a sua vida e ser uma grande barreira. Não há motivos para não tratar esse indivíduo e ajudá-lo a superar esse medo, mas é necessário reconhecer que essa pessoa não tem um transtorno mental.

Se todos seguimos o mesmo caminho evolutivo, por que sentimos medos diferentes? Embora todos sejamos seres humanos, somos diferentes em vários aspectos: algumas pessoas são altas, outras baixas, umas sérias e outras extrovertidas. E a ansiedade não é diferente. Ela se manifesta de formas variadas em pessoas diferentes. As pessoas têm diferentes experiências ao longo da vida, cada uma aprende, por exemplo, o que é o perigo e o que deve temer de maneiras distintas umas das outras.

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