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O que se sabe sobre o novo remédio desenhado para tratar apneia do sono

Pílula experimental estimula a musculatura da garganta durante o sono e inaugura uma nova estratégia contra um dos distúrbios do sono mais comuns

Por Camila Mazzotto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 jul 2026, 08h00 | Atualizado em 29 jul 2026, 14h30
O que se sabe sobre o novo remédio desenhado para tratar apneia do sono Priorizar nos meus resultados Google

Tentar tomar um milk-shake com um canudo muito fino e mole. Quando você faz força para puxar a bebida, o canudo dobra, fecha e nada passa. A comparação é usada por médicos para explicar o que acontece com a garganta de muitos pacientes com apneia obstrutiva do sono: durante o sono, a musculatura perde sustentação, as vias aéreas colapsam e a respiração é interrompida repetidas vezes.

Um novo medicamento pode ajudar no tratamento justamente desse tipo de paciente. O AD109, terapia oral ainda em desenvolvimento, apresentou resultados positivos em dois grandes estudos internacionais de fase 3, a última etapa antes do pedido de aprovação às agências reguladoras.

Embora não substitua o CPAP, considerado o tratamento mais eficaz para a doença, especialistas afirmam que a pílula pode representar uma alternativa para pessoas que não conseguem se adaptar ao aparelho médico.

A novidade também marca uma mudança na forma de encarar a doença. Enquanto os tratamentos atuais atuam principalmente para manter as vias aéreas abertas durante o sono, o AD109 foi desenvolvido para agir sobre um dos mecanismos que podem levar ao problema: a perda do tônus da musculatura da garganta.

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“Estamos diante de um marco científico porque, pela primeira vez, uma terapia farmacológica foi desenvolvida para atuar diretamente em um dos mecanismos que causam a apneia obstrutiva do sono. Isso amplia significativamente as possibilidades de tratamento e reforça que estamos caminhando para uma medicina do sono cada vez mais personalizada”, avalia Renata Aurichio, fisioterapeuta especialista em medicina do sono, certificada pela Associação Brasileira do Sono e CEO da Primar Saúde do Sono.

Como o medicamento funciona

O AD109 reúne dois princípios ativos — atomoxetina e aroxibutinina — que estimulam os músculos responsáveis por manter a garganta aberta durante o sono. A estratégia busca evitar justamente o colapso das vias aéreas descrito na analogia do “canudo”, mas funciona apenas para um dos mecanismos que podem causar a apneia.

“Um dos problemas do ronco e da apneia é a flacidez da musculatura quando a gente dorme. O medicamento atua justamente estimulando essa musculatura para que ela permaneça mais rígida durante o sono”, explica a otorrinolaringologista Maria Dantas Godoy, do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE).

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A apneia obstrutiva do sono é uma doença multifatorial. Em alguns pacientes, o problema está relacionado à anatomia, como amígdalas aumentadas, língua volumosa, mandíbula retraída ou excesso de tecido na região da garganta. Em outros, predomina uma alteração neuromuscular, caracterizada pela perda da sustentação das vias aéreas durante o sono. Também existem casos associados a alterações no controle da respiração pelo sistema nervoso.

“O ronco é como uma febre. Muitas doenças diferentes podem causar febre. Com a apneia acontece o mesmo: o sintoma é semelhante, mas as causas podem ser completamente diferentes. É por isso que um tratamento não funciona para todo mundo”, reforça Godoy.

A especialista lembra que essa perda do tônus muscular tende a se tornar mais frequente com o envelhecimento, quando músculos e tecidos naturalmente perdem rigidez.

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O que mostraram os estudos

Os resultados que colocaram o AD109 no radar da medicina vieram de dois grandes ensaios clínicos de fase 3, etapa destinada a confirmar a eficácia e a segurança de um medicamento antes da análise pelas agências reguladoras.

O principal deles, o LunAIRo, incluiu 660 adultos com apneia obstrutiva do sono. Após 26 semanas de tratamento, os participantes que receberam o medicamento apresentaram uma redução média de 46,8% no Índice de Apneia e Hipopneia (AHI), exame que mede quantas interrupções respiratórias ocorrem por hora de sono. Entre os participantes que receberam placebo, a redução foi de 6,8%.

Outro resultado considerado relevante foi que 23% dos pacientes tratados passaram a apresentar um AHI inferior a 5 eventos por hora, faixa considerada normal. Segundo os pesquisadores, essa resposta foi mantida até a 51ª semana de acompanhamento.

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Os achados foram reforçados pelo segundo estudo, o SynAIRgy, que registrou uma redução de aproximadamente 55% no AHI após seis meses de tratamento. Mais da metade dos participantes também apresentou melhora da oxigenação durante o sono e redução da gravidade da doença.

“Sabemos que uma parcela expressiva dos pacientes não consegue manter o tratamento com CPAP por desconforto, dificuldade de adaptação ou baixa adesão. Ter uma nova alternativa terapêutica representa uma excelente notícia para esses pacientes”, avalia Aurichio.

Apesar do entusiasmo, especialistas destacam que o AD109 não deve ser interpretado como um substituto do CPAP. O medicamento deve ser visto, neste momento, como uma ferramenta adicional para casos específicos. “O CPAP continua sendo o padrão ouro. O medicamento é mais uma arma no nosso arsenal terapêutico”, reforça Godoy.

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A otorrinolaringologista ressalta, porém, que muitos pacientes considerados intolerantes ao aparelho conseguem se adaptar depois de alguns ajustes. A pessoa pode precisar de outro tipo de máscara, de um umidificador ou até de um equipamento mais moderno. Muitas vezes, o problema nem é o CPAP. É que o paciente tem rinite, desvio de septo ou outra obstrução nasal que dificulta a passagem do ar.

Segundo a médica, tratar essas condições com medicamentos ou, quando necessário, cirurgia, frequentemente melhora a adaptação ao aparelho.

O tratamento vai além do medicamento

As especialistas também destacam que controlar a apneia envolve mais do que escolher entre um remédio e um aparelho. O excesso de peso, por exemplo, continua sendo um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento da doença.

Isso porque, quando a pessoa ganha peso, ela também acumula gordura na região do pescoço, estreitando a passagem do ar. Por isso, emagrecer pode reduzir significativamente o ronco e melhorar a apneia.

Para Aurichio, o futuro da medicina do sono será marcado pela combinação de diferentes estratégias, como CPAP, medicamentos, dispositivos intraorais, controle do peso, atividade física e acompanhamento multiprofissional. “Não existe uma solução única para todos os pacientes. O tratamento será cada vez mais individualizado”, destaca a CEO da Primar Saúde do Sono.

Além disso, embora os resultados dos estudos sejam considerados robustos, as especialistas afirmam que ainda será necessário acompanhar os pacientes por mais tempo para entender quem se beneficia mais da terapia e qual será seu perfil de segurança após anos de uso.

Os estudos também registraram efeitos adversos. Cerca de 21% dos participantes interromperam o tratamento devido a reações como boca seca e alterações urinárias. “Todo medicamento tem benefícios e efeitos colaterais. O importante é avaliar cuidadosamente quais pacientes realmente terão mais vantagens com esse tratamento“, explica Godoy.

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