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O que o Brasil pode fazer para entrar na lista de países que atingem meta de controle da hipertensão

Doença mata 10 milhões de pessoas por ano no mundo

Por Paula Felix Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 jul 2026, 08h00
O que o Brasil pode fazer para entrar na lista de países que atingem meta de controle da hipertensão Priorizar nos meus resultados Google

Se a saúde é “a vida no silêncio dos órgãos”, como definiu o fisiologista francês René Leriche (1879-1955), nem sempre a doença é sua barulhenta antítese. Há males que grassam durante anos ou décadas sem causar ruídos — até que, de repente, uma bomba explode. Nenhuma condição ilustra tão bem essa lógica sorrateira como a hipertensão. A pressão arterial pode passar temporadas acima do limite ideal — medida abaixo de 12 por 8 — sem provocar nenhum sintoma. Mas começa a lesar impunemente vasos e órgãos vitais, incluindo o coração, os rins e o cérebro. Estamos diante de um dos principais fatores de risco para as maiores causas de morte no mundo, o infarto e o derrame. E, portanto, de um dos grandes desafios de saúde pública da atualidade, para o qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipulou uma ambiciosa meta: obter o devido controle de mais de 50% dos casos. Neste momento, segundo a mais nova aferição da entidade, apenas quatro países chegaram a conquistar esse índice, que traduz uma conquista forjada com base em políticas nacionais e atitudes individuais contra a “assassina silenciosa”.

ATENÇÃO - Menos sal: ele é um dos principais vilões
ATENÇÃO - Menos sal: ele é um dos principais vilões (Zheka-Boss/Getty Images)

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, celebrou publicamente a entrada da Coreia do Sul no grupo das seletas nações a exercer suficiente domínio sobre a pressão alta — a terra do k-pop se junta agora a Canadá, Costa Rica e Islândia. “São países que merecem elogios por mapearem seus hipertensos, estimularem exames periódicos e darem acesso ao tratamento”, diz o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os sul-­coreanos chegaram a uma taxa de 62% da população com a doença em ordem. É uma façanha e tanto, se considerarmos a prevalência e a ausência de sintomas do quadro. De acordo com a OMS, mais de 1,4 bilhão de pessoas convivem com ele globalmente. Apenas 23% dessa população estaria com a pressão controlada. “No Brasil, a taxa é de 38%”, aponta o nefrologista Decio Mion Junior, professor da USP.

Os canadenses podem ser considerados os mais ativos nessa empreitada. O país é apontado como um líder histórico no tratamento da pressão alta e o segredo está no rastreamento precoce. Com a simples aferição da pressão a partir dos 18 anos, foi possível dimensionar o problema e direcionar esforços. Isso passa por acompanhamento médico, incentivos a mudanças na alimentação, com maior oferta de frutas e hortaliças, e, se preciso, prescrição de comprimidos.

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AUTOCUIDADO - Aferição em casa: medida para se precaver
AUTOCUIDADO – Aferição em casa: medida para se precaver (Kmatta/Getty Images)

Tanto no Canadá como nas outras três nações que alcançaram a meta, consultas periódicas providas pelos setores público e privado se aliam a ações como redução intensiva no consumo de sódio, mineral cujo excesso faz a pressão subir. Na prática, os pacientes são orientados a medir a pressão em casa com dispositivos portáteis, pesar menos nas pitadas de sal e escolher a comida no mercado com mais cuidado e consciência.

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Do outro lado, após firme diálogo do governo canadense com a indústria alimentícia, a carga de sódio dos produtos foi consistentemente rebaixada. Na Coreia do Sul, até os famosos kimchi e os banchans, conservas e aperitivos, tiveram o sódio reduzido, mostrando que é possível promover saúde sem eliminar sabores tradicionais. No caso dos remédios, a estratégia não é só fornecer anti-hipertensivos, mas comprimidos combinados, as polipílulas, que facilitam a adesão ao tratamento.

Infográfico sobre estratégias para deter a hipertensão, com oito pontos de ação e dados estatísticos. Inclui que 1 em cada 3 adultos vive com hipertensão e o salto de casos de 650 milhões para 1,4 bilhão entre 1990 e 2024

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A dúvida que fica é: por que o Brasil, com 30% da população hipertensa, não faz companhia a essa lista se há opções gratuitas de medicamentos, toneladas de sódio foram retiradas de alimentos e os rótulos alertam sobre os excessos? “Vivemos em um país continental. É difícil ter esse controle com tantas diferenças, inclusive socioeconômicas”, diz Mattar. O Ministério da Saúde disse a VEJA que há 20 456 106 pessoas com hipertensão cadastradas no SUS e 70% têm ao menos um registro de aferição de pressão nos últimos seis meses. A taxa de mortalidade pela doença caiu de “21 óbitos por 100 000 habitantes, em 2023, para 8,9 óbitos por 100 000 habitantes, em 2025”. Talvez uma das principais lições dos países bem-sucedidos esteja numa tática barata e pouco enfatizada: começar o rastreamento e o diagnóstico mais cedo. Para isso, basta medir a pressão. Uma atitude simples — que pode poupar sofrimentos colossais no futuro.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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