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O peso da fama: obsessão pela magreza ganha força em Hollywood e nas redes sociais

No espelho dos celulares, fenômeno gera um contágio social potencialmente perigoso

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 abr 2026, 08h00 | Atualizado em 27 abr 2026, 10h46
O peso da fama: obsessão pela magreza ganha força em Hollywood e nas redes sociais Priorize VEJA no Google

“Ao olhar à nossa volta, a maior parte de nós descobre que, longe de sermos o número um, estamos perdidos na multidão (…) e há sempre alguém que parece melhor, no plano da beleza, no da inteligência, no da saúde, e — o mais espantoso hoje em dia — no da magreza”, registrou, em tom profético, o pensador francês René Girard em livro de 2008. Infelizmente menos conhecido do que merecia, o professor que se radicou nos Estados Unidos formulou, muito antes de as redes sociais nascerem e se popularizarem, a teoria do desejo mimético, conceito-chave para entender a dinâmica atual das plataformas e dos comportamentos humanos.

DOENTIO? - Ariana Grande: receio de fãs seguirem o exemplo
DOENTIO? – Ariana Grande: receio de fãs seguirem o exemplo (Frazer Harrison/WireImage/Getty Images)

Sua hipótese, largamente verificada, é de que as aspirações individuais nascem da sanha de imitar os outros, ocasionando um efeito multiplicador que pode resultar em conflitos. É assim que, no espelho dos celulares, a “liberdade radical” da mulher viria a torná-la “escrava da opinião das outras”, anotou Girard em Anorexia e Desejo Mimético, obra que já analisava a obsessão pela magreza e o aumento dos diagnósticos de transtornos de imagem antes do boom das redes. Apesar dos ciclos de valorização de corpos de todos os pesos e formatos, o fato inconteste é que essa fixação persiste — e está escancarada na vitrine de Hollywood, que tanto influencia e contagia o mundo dentro e fora das telas.

FINA - Nicole Kidman: tendência se espraia por estrelas mais maduras
FINA - Nicole Kidman: tendência se espraia por estrelas mais maduras (Arturo Holmes/Getty Images)
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O peso da fama parece continuar se impondo e retroalimentando uma espécie de aversão à gordura. O desfile comporta musas de diversas faixas etárias e suscita rumores de problemas de saúde por trás das aparências cada vez mais esqueléticas. A pop star Ariana Grande, de 32 anos, com seus braços finíssimos e semblante melancólico, não é exemplo isolado. Junta-se a ela Lily Collins, 37, com sua barriga invertida, e divas mais maduras, como Nicole Kidman, 58, e Demi Moore, 63, que deram o ar da graça magérrima nos últimos tapetes vermelhos. São expoentes de um movimento que a imprensa americana denominou Hollyweird (“Hollywood estranha”), muito embora não haja nada atípico para esse meio. “A ‘alta cultura’ se deixou contaminar pelas tendências ‘anoréxicas’ muito antes de a perda de peso ter-se tornado obsessão universal”, afirmou Girard. O filósofo se referia a expressões como a pintura e a literatura, mas não é de hoje que quem dita as modas se exibe em filmes, séries de TV e feeds de redes sociais.

PROVA VIVA - Demi Moore: secura em meio a filme sobre loucura estética
PROVA VIVA - Demi Moore: secura em meio a filme sobre loucura estética (Monica Schipper/WireImage/Getty Images)
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Não se trata de inferir diagnósticos com base nas fotos viralizadas. Nem toda pessoa extremamente magra tem anorexia ou bulimia, distúrbios que envolvem comportamentos como restrição severa de comida e uso de laxantes para emagrecer. A questão é que o holofote da magreza estimula meninas e meninos a seguirem seus ídolos. Nos EUA, essa preocupação foi compartilhada por pais e especialistas depois do sucesso de Wicked: Parte II, cujas protagonistas, Ariana Grande e Cynthia Erivo, magras que só, estariam a influenciar, ainda que inadvertidamente, a busca por um corpo enxuto entre fãs adolescentes. Exagerado ou não, o caso ilustra uma circunstância bem documentada na psicologia: o contágio social, agora catapultado por plataformas como Instagram e TikTok. E que comporta uma série de riscos: um estudo dinamarquês, com dados de 85 761 pessoas, concluiu que ser excessivamente magro chega a ser mais letal do que estar acima do peso.

BARRIGA INVERTIDA - A britânica Lily Collins: musculatura à mostra
BARRIGA INVERTIDA – A britânica Lily Collins: musculatura à mostra (The Hapa Blonde/Getty Images)
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Outro fenômeno que, de certa forma, nutre a cultura da magreza é a disseminação desenfreada das canetas para o tratamento da obesidade, como Wegovy e Mounjaro. Elas foram desenvolvidas para remediar um problema de saúde, mas, projetando-se para além dos consultórios, viraram artifício para uma perda de peso digna de postagem. Vive-se, assim, uma era de extremos, com a obesidade grassando entre faixas mais pobres da população, enquanto a secura torna-se artigo de luxo. Um retrato aspiracional personificado pela cantora Kelly Osbourne, 41, que perdeu quase 40 quilos depois de uma cirurgia bariátrica e hoje ostenta braços franzinos e faces encovadas. São, talvez, os novos artistas da fome, aqueles que, conscientemente ou não, mostram, como diz Girard em seu livro, que “nossos pecados estão inscritos na carne e devemos expiá-los até a última caloria”.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992

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