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O lado positivo do hormônio do crescimento

O hormônio do crescimento humano adquiriu má reputação devido a atletas que abusaram dele em busca do estrelato. Mas para dezenas de milhares de crianças cujo crescimento e desenvolvimento são frustrados pela deficiência do hormônio, injeções diárias do estimulante, sintetizado biologicamente, podem colocá-los no rumo da normalidade.

Não se fala aqui de crianças com níveis normais do hormônio, cuja herança genética os deixa muito abaixo da média de homens e mulheres (respectivamente, 1,75 metro e pouco menos de 1,63 metro nos Estados Unidos), ainda que eles, às vezes, também possam se beneficiar a partir de um impulso artificial do hormônio.

Com base nos estudos da endocrinologista pediátrica Judith Ross, do Hospital da Universidade Jefferson, na Filadélfia, inclusive crianças com níveis normais de hormônio, destinados geneticamente a ser baixinhos, podem ganhar de 2,5 a pouco mais de 10 centímetros na estatura final, dependendo de quando comecem o tratamento. Um garoto que no máximo chegaria a 1,60 metro pode chegar a 1,70 metro por meio de terapia hormonal se ela começar muito antes da puberdade.

Sem dúvida, as alegações a favor do hormônio do crescimento têm sido consideravelmente exageradas, talvez devido ao fato de ser um produto muito lucrativo, cujo custo pode chegar a dezenas de milhares de dólares por ano. “Muitas crianças sem deficiência do hormônio não responderão ao tratamento, que é arriscado e muito caro”, disse uma pediatra do Brooklyn, em Nova York. “Quais são as consequências psicológicas quando os pais investem 30 mil dólares por ano e a criança não consegue crescer? Além disso, não se conhecem os efeitos colaterais a longo prazo.”

Se o tratamento de crianças com níveis hormonais normais continua sendo altamente polêmico, a terapia está claramente indicada pra quem recebe um diagnóstico de deficiência do hormônio, cujos benefícios para a saúde vão muito além de estimular o crescimento, com base em um estudo de Judith Ross.

Aos 14 anos de idade, Cutler Dozier, de Minneapolis, media 1,47 metro e pesava 34 quilos, menor que uma criança de 12 anos, sem dar sinais de que estava chegando à puberdade. Sua mãe, Phyllis Dozier, afirmou ter pensado por muito tempo que seu tamanho se devia ao nascimento extremamente prematuro. Depois, disse numa entrevista, se deu conta que “se a maioria dos prematuros iguala-se com o tempo em tamanho e peso à média das crianças, Cutler está ficando cada vez mais para trás”.

“Estava crescendo apenas de meio centímetro a 1,2 centímetro por ano”, disse Phyllis, “enquanto a maioria das crianças cresce cerca de 5 centímetros por ano”. Ainda que fosse assombroso o fato de o pediatra de Cutler não mostrar preocupação, Dozier fez bem ao pedir que indicassem um endocrinologista pediátrico. O especialista identificou uma séria deficiência do hormônio de crescimento em Cutler. Recomendou o tratamento com firmeza e em apenas um ano de injeções diárias Cutler cresceu 11 centímetros. “Aos 15 anos, ainda que pequeno, estava quase na média dos garotos de sua idade”, disse sua mãe. “Não apenas cresceu, mas seu apetite aumentou e suas mãos se tornaram maiores. Chegou a 1,63 metro aos 16 anos, mas como ainda não havia completado a puberdade uma equipe de endocrinologistas recomendou que continuasse o tratamento. Deixamos a decisão para Cutler, que decidiu continuar com as injeções por mais quatro anos.” Hoje, aos 22 anos e plenamente desenvolvido, Cutler pesa 64 quilos e se sente confiante com seu 1,75 metro.

Segundo Judith Ross, outras pessoas que podem se beneficiar da terapia são aquelas que não conseguem chegar à altura de colegas da mesma idade, meninas nascidas com uma anormalidade cromossômica conhecida como Síndrome de Turner e crianças com desordens genéticas chamadas SHOX e Síndrome de Noonan. Ross e seus colegas afirmam que “as crianças de baixa estatura que nasceram pequenas para sua idade gestacional têm mãos e pés relativamente grandes e tanto ombros quanto pélvis amplos”. Seis anos de terapia pode contribuir para normalizar as proporções corporais.

Outras condições clínicas que ainda estão em estudo sobre os possíveis benefícios do tratamento com hormônio do crescimento incluem a Síndrome de Prader-Willi, que pode resultar em obesidade extrema, fibrose cística e artrite juvenil, hoje tratada com esteróides. Em cada uma dessas desordens, de acordo com investigadores, a terapia com hormônio pode melhorar a composição do organismo. Crianças com deficiência do hormônio do crescimento tendem a acumular gordura, especialmente ao redor do abdome, assim como ossos mais frágeis e massa muscular anormalmente baixa. O tratamento com hormônio reverte esses efeitos. O resultado é maior densidade óssea e melhor massa muscular em braços, pernas e torso.

De qualquer forma, os níveis podem ficar abaixo da normalidade, inclusive depois de seis anos de tratamento. Dois estudos demonstraram que pode surgir uma melhor posterior na composição corporal se a terapia continua por vários anos depois de o paciente atingir a estatura adulta. Autores afirmam que descontinuar a terapia na adolescência pode limitar a capacidade do jovem de adquirir o “pico de massa óssea”. Eles sugerem que “o hormônio deve ser administrado em doses suficientes e durante um período de tempo apropriado para que contribua na busca de densidade de mineral ósseo dentro de padrões normais”.

Outro benefício potencial de seguir o tratamento durante a adolescência é o efeito do hormônio sobre o risco posterior de problemas cardíacos. Além do aumento da gordura do corpo e da gordura abdominal, associadas com a deficiência do hormônio, os níveis no sangue do colesterol de baixa densidade de lipoproteína (LDL, o chamado colesterol ruim) e triglicérides tendem a ser anormalmente altos. Há provas de que os níveis anormais de lipídios no início da vida adulta elevam o risco de males cardiovasculares na idade madura ou mais tarde.

Como destacou um pesquisador, os efeitos da terapia são desconhecidos a longo prazo, especialmente em crianças cujos níveis de hormônio são normais. Há certa inquietude por que a IGF-1, a proteína produzida pelo fígado que media a ação do hormônio do crescimento, pode elevar o risco de câncer. Quando se administra o hormônio, aumentam os níveis de IGF-1. Segundo Judith Ross, “nós vigiamos os níveis de IGF-1 em crianças que receberam tratamento com hormônio do crescimento e ajustamos as doses para que a proteína se mantenha dentro da normalidade”. Até agora, afirmou, não surgiram evidências de um risco maior de ocorrência de câncer em crianças com leucemia que foram tratados com hormônio do crescimento, ainda que tenham registrado um ligeiro aumento da ocorrência em crianças com tumores cerebrais.